A religião de Anfield

02 de Maio de 2007

A religião de Anfield

Liverpool-Milan na final da Champions. Ambos têm o seu código genético colado às competições europeias, indiferente aos momentos internos menos brilhantes.
Em Anfield, o Liverpool pode ter sido comprado por americanos e o estilo de jogo já nada ter a ver com o dos anos 70/80, mas o seu espírito continua imutável. As fotos de Keagan e Paisley cruzam-se com as de Benitez e Gerrard, a estátua de Shankly e a musica dos Beatles. Na loja do clube, uma das camisolas mais vendidas ainda é a de Dalglish, ídolo dos anos 80. O respeito pela história. Tudo isto sente-se na atmosfera que envolve o Estádio. Como se as almas desses velhos mitos já desaparecidos -Shankly, Pasley, Fagan- invadissem a atmosfera em cada noite europeia. Eu acredito que sim, apesar da força da presença de Mourinho, suas palavras e olhares. Um sentimento arrepiante que emerge do fundo da alma quando pouco antes do inicio os seus adeptos cantam, numa só voz, o hino do clube, You never walk alone.

Durante o jogo, o Liverpool superou sempre a tentativa cínica do Chelsea pegar no jogo. Mas houve chaves para isso. Ao lugar de pivot-defensivo, os ingleses chama-lhe holding role, o que significa a missão de segurar a equipa. Nessa posição, Makelele perdeu o fôlego de outrora. O jogo já não sai fluido, sob pressão lateraliza e trava a progressão. Mikel, perfeito a defender, não se solta na transição ofensiva. A falta de Essien nesse espaço e missão foi evidente, ficando Lampard como uma ilha. Na mesma zona, Gerrard e Mascherano mantiveram uma intensidade alta de recuperação e ligação com o ataque.

Defenderam em bloco médio-baixo quando necessário, subiram para médio-alto quando o jogo o pediu. Ganhando a batalha na zona de transição, o Liverpool começou a vencer a guerra. O resto foi o melhor uso das faixas. Finnan-Pennant, à direita, e Riise-Zenden, à esquerda. No mesmo espaço, Ashley Cole foi a única asa do Chelsea, travada quando Benitez deslocou Gerrard do centro para a direita e voltou a fechar esse corredor. Perdido na frente, Drogba só recebia a bola por alto, e, em cada recepção, tinha de fazer um esforço corporal imenso para a controlar. No fim, o drama dos penaltys, as defesas de Reina, o último remate de Kuyt e Anfield a explodir como um vulcão.

As almas do passado misturadas com os gritos terrenos do presente. O jogo já terminara há mais de uma hora. Na entrada do Estádio, há quem, nas trevas da noite, preste tributo, com uma gaita escocesa tocada solenemente, junto ao memorial das 96 vitimas de Hillsborough, em 1989. Acredito que também as suas almas nunca faltam a um jogo. Ninguém os esquece.

É desta matéria que são feitos os grandes clubes. Um mundo mítico. «God save the English Fooball!»

Milan, a lição táctica

A religião de AnfieldConta Gullit que Seedorf, quando se transferiu do Inter para o Milan, perguntou-lhe se seria muito diferente, visto ir jogar no mesmo Estádio, viver na mesma cidade, etc. Gullit disse-lhe logo que existia uma diferença. O ar que se respira. “Depois diz-me”, disse-lhe. Pouco tempo depois Seedorf confirmou-lhe: “Tens razão. Entras em Millanelo e é outra coisa. Respira-se vitória. A forma das pessoas falar, a confiança, as fotos das grandes equipas do passado nas paredes, tudo aquilo cheira a vitória!”. Mesmo quando não se ganha, o sentimento permanece e é isso que faz a ADN europeu do Milan. A noite mágica em que sufocou o Manchester, foi um exemplo dessa forma de estar na Europa. Tacticamente, a lição de Ancelotti a Ferguson situou-se no meio-campo, onde os jogos mais se decidem no plano estratégico. Frente aos três médios do Manchester (Carrick, Fletcher, Scholes), o Milan respondeu com quatro mais um (Pirlo, Gattuso, Ambrosini, Seedorf e, quando recuava, Kaká). Esta diferença manteve-se toda a primeira parte e sentenciou logo o jogo. Só quando Ronaldo recuava, é que as forças se equilibravam. Mas só aparentemente. Os timings de recuperação, posse e transição, foram sempre controlados pelo Milan. O resto, foi o hábito de ganhar.

«Flinstone» Gattuso

A religião de AnfieldDurante o aquecimento, bate com o punho no coração em direcção aos adeptos do Milan e pede-lhes o apoio. A face fechada. Sobrolho carregado, dentes cerrados. Cada bola que se aproxima da sua área é como uma granada que tem de ser aliviada de qualquer forma. Varre Ronaldo e vai ter com o árbitro fazendo o gesto de que só jogou a bola. Festeja berrando na cabeça de Ancelotti e abanando-o pela lapela do casaco. Grita com os colegas, adversários, adeptos e consigo próprio. Esqueçam os requintes. Para isso estão lá Pirlo, Kaká ou Seedorf. A génese do futebol de Gattuso é outra. Olha-se para ele e vê-se sinceridade. Um dia, disse que quando via Kaká dominar a bola, nem entendia como ele próprio também podia ser futebolista. Mas é. É o jogador dos…jogadores, como se dizia de Nobby Stiles nos anos 60. É Flinstone Gattuso, o futebol pica-pedra.