Afinal, onde começa o futebol?

15 de Setembro de 2007

Afinal, onde começa o futebol?

Afinal, onde começa o futebol? Na técnica, na táctica ou nas emoções do povo? Pode-se responder a esta questão tendo vários pontos de partida. Falamos aqui, repare-se, do futebol de alta competição. Por isso, a reflexão nasce a partir da visão de um grande jogo da Liga inglesa. Sucedeu-me pensar nisto, quando via, no sábado, o Fulham-Tottenham. Futebol aberto, duas equipas em velocidade, a atacar e o publico nas bancadas em delírio. O Tottenham chega a 2-0. O Fulham reduz, mas os spurs voltam a marcar, 1-3! O jogo cansa até só de ver. Nesta altura, fico ansioso para ver os grandes planos dos treinadores.

Martin Jol, a ganhar, e Lawrie Sanchez, a perder, e tentar decifrar a suas ideias nesse momento. O jogo continua igual como o público, o povo, queria que ele fosse. As equipas deixam-se levar pelo ambiente eufórico. Penso então: isto, assim, ainda acaba 1-5 ou…3-3. Acabou 3-3. Ou seja, em nenhum momento o Tottenham acalmou e geriu a vantagem. Nem mostrou, aliás, intenção de o fazer.

Dirão que isto é que é espectáculo e que assim é que deviam ser todos os jogos. Para o espectador imparcial e romântico, até concordo. Mas, analisando o jogo pelas exigências do futebol de top, onde é obrigatório controlo emocional, tudo aquilo foge de como, em muitas fases dos 90 minutos, o jogo deve ser pensado. O futebol abriga todos aqueles elementos referidos, mas, no início, sendo um jogo colectivo, a base é a táctica. Pensar o jogo como equipa. A técnica é importante, claro, mas não existe no vazio. Só faz sentido se inserida na ideia táctica colectiva, a essência do jogo de equipa. A emoção faz parte de todo este processo, mas não pode ser o seu gestor.

Afinal, onde começa o futebol?É fundamental para motivar a equipa, mas, depois, o treinador tem de a filtrar para que se transforme num factor do processo táctico e técnico. Volto a pensar na questão em outros jogos. Vejo o Milan-Fiorentina e, sem as correrias britânicas, vejo um bom jogo, pensado táctica e tecnicamente. E com emoção. A pensar o jogo, dois médios-centro. E como o futebol, e suas equipas, é diferente quando existem dois bons médios-centro frente-a-frente. No caso, Pirlo e Liverani. O jogo sai pensado e, com dois grandes treinadores no banco, Ancelotti e Prandelli, sai ao mesmo tempo emocional. Repare-se como o Chelsea sem Lampard, contra o Aston Villa, ficou mais empolgante para o adepto, mas, simultaneamente, menos cerebral para gerir tacticamente o jogo e controlá-lo emocionalmente. Mais perto de o perder, portanto. Como perdeu. Por tudo isto, a pergunta inicial, que muitos gostam de transformar em debate, faz pouco sentido. O futebol é tudo aquilo. Mas sem táctica, perde a sua essência de jogo colectivo. Fica sem o pensamento.