ALEMANHA: A Geração perdida

28 de Setembro de 2001

ALEMANHA A Geração perdida

Tudo começou nos anos 50. Desde esse tempo, geração após geração, a Alemanha deu ao mundo grandes equipa e jogadores fabulosos. No final do século, porém, a dinastia encravou. Após a goleada com a Inglaterra, as consciências do futebol alemão estão revoltadas. No passado, cada década teve um jogador símbolo. Anos 50: Fritz Walter, anos 60: Uwe Seller, anos 70: Beckenbauer; anos 80: Rummenigge; anos 90: Matthaus. Todos eles discípulos do futebol-força. Mas, os anos foram avançando e, ao contrário do passado, não surgiram novos monstros para a renovação. Aos poucos, a geração dos 90 entrou na casa dos 30 anos, avançou nela e viu-se num tempo em que já não era o seu, mas com a comunidade futebolística internacional a exigir-lhe o mesmo vigor de dez anos antes. Hoje, fala-se de uma geração perdida, sem líder, órfã de talentos como os que a fizeram um gigante do futebol mundial. As razões para a crise são múltiplas mas a base pode ser detectada na profecia de Schon, pois a condição atlética deixou de ser exclusivo dos alemães.

Hoje, todas as nações sabem trabalhar o físico, pelo que, nesse campo, a força germânica já não encontra a vantagem de choque de outrora. A par disso, a qualidade técnica do jogador alemão baixou. Concentrada na força física e mental, a escola germânica perdeu o virtuosismo que acompanhava a pujança atlética. Falta criatividade ao jogador alemão, carente de um médio ofensivo que garanta uma eficaz circulação de bola e de um líbero imperial, depois de uma lesão ter afastado Sammer aos 27 anos, em 1997. Quando ainda se defrontam na Bundesliga, o contraste entre jogadores de diferentes gerações, como por exemplo entre Moller e Hassler e Nowotny e Jeremis, é evidente. Enquanto os primeiros ainda soltam a técnica mesclada com o músculo, os segundos, apesar do pulmão infinito, revelam imensas limitações técnicas. Ora, neste momento, o futebol moderno vive uma encruzilhada onde a técnica, face á crescente igualdade física entre todas as nações, surge como o único factor a causar desequilíbrios. O novo fôlego do futebol inglês é uma prova disso. A força, por si só, já não ganha jogos. É, no fundo, um regressar ás raízes do futebol.

GUY ROUX: OS MEUS PRIMEIROS 40 ANOS

Longe vai uma madrugada de Outubro de 1952, quando o jeune garçon Guy Roux, entrou, pela primeira vez, após uma viagem de dez quilómetros num 4 cavalos, nas instalações de Abdé Deschamps. Tinha 14 anos. Quase meio século depois, tudo mudou na paisagem de Auxerre. Tudo? Não. Um irredutível bretão permanece imutável. Os anos passaram e, entretanto aquele garçon, que descobrira o futebol quando durante a guerra, com a França ocupada, via os soldados nazis a jogar á bola de botas cardadas no pátio da sua vila, fez-se homem e toujours com o mesmo entusiasmo tornou-se o Auxerre com duas pernas. Revestido de uma aura imortal, Guy Roux completa esta época 40 anos como treinador do Auxerre, clube que conheceu nas divisões regionais. Ocupou o cargo pela primeira vez em 1961 e apenas em três anos, por força do serviço militar e uma época de reflexão, não se sentou no seu banco. Pelo caminho formou várias gerações de talentos.

A sua maior invenção terá sido o enfant terible Eric Cantona, mas pelas suas mãos passaram também nomes como Boli, Cocard, West, Ferreri, Prunier, Lamouchi, etc. Entre os grandes momentos moram: 1980 – Subida á 1ª Divisão; 1984 – Participação na UEFA; 1993- Meia-Final da Taça UEFA; 1994- Taça de França; 1996 – Dupla Campeonato/Taça, com Diómede, Martins, Blanc, Laslandes e Guivarch. Para Roux, no entanto, o grande dia fora em 1970, com a subida da Liga Regional para a III Divisão Nacional. No ano 2000, quatro gerações de futebolistas depois, o futebol gaulês acordaria diferente. Guy Roux decidira colocar um fim na epopeia. Seria impossível porém imaginá-lo a seguir as pegadas do velho mister Grosjean, o homem que o recebera em 1952, que com 80 anos, ainda assistia todos os dias aos treinos do seu AJA. Um ano depois, incapaz de viver sem o cheiro da relva e do balneário, Roux decidiu regressar ao seu lugar eterno para, com 63 anos, guiar a sua quinta geração de talentos, onde brilham Mexés e Cissé, no novo século futebolístico.