ALF RAMSEY ( 1920-1999)

16 de Maio de 2005

"You´ve done it once. Now, win it again!"

Alf Ramsey, para a equipa inglesa, antes do prolongamento da final do Mundial 66. O Mundial de 1962, no Chile seria o ultimo de Winterbottom então indigitado para suceder ao seu protector Sir Stanley Rous, a caminho da FIFA, na frente da Fottball Association. Desta vez, seria porém assistido, na orientação da equipa por Jimmy Adamson, o jogador inglês do ano, do Burnley, um bem humorado geordie. Com os jovens Bobby Moore, Bobby Charlton e o goleador Greaves, a Inglaterra começava a formar uma equipa de futuro, mas que cometeria o erro de fazer girar todo o seu jogo ofensivo em torno do activo médio esquerdo do Fulham Jonhny Haines, ao ponto do treinador jugoslavo ter perguntado ironicamente: “Porque é que na selecção inglesa todos jogam com o nº10? O nº10 marca os cantos, os livres, os lançamentos de linha lateral! Então, o que devemos fazer? Colocámos um homem a marcar o nº10 e adeus Inglaterra!” Assim o fez a Hungria no primeiro jogo, que ganhou por 2-1, acabando a Inglaterra, após vencer a Argentina, 3-1 e empatar com a Búlgaria, 0-0, por ser eliminada nos quartos-de-final pela sensacional selecção brasileira de Garrincha, 3-1. Influenciado pela atmosfera revolucionária dos anos 60, o status do futebol inglês começou a mover-se e vários nomes foram apontados para a selecção que iria receber o Mundial 66. Falou-se em Bill Nicholson, do Tottenham e Stan Cullins, do Wolverhampton, mas, no final, o escolhido seria o emergente treinador do Ipswich: Alf Ramsey

ALF RAMSEYApós a sorumbática era de Winterbottom, a Velha Albion descobria, finalmente, um homem, com o saber e o carisma ideal para guiar a selecção dos três leões ao topo do futebol mundial: Sir Alf Ramsey, que assumiria o cargo após a recusa de Jimmy Adamson, treinador do Burnley e que já fora adjunto de Winterbottom no Chile. Na hora do convite, Ramsey apenas impôs uma condição: As convocações e a formação da equipa seriam unicamente decidas por ele, sem qualquer interferência do comité federal. Carismático, Ramsey tinha um passado como jogador e treinador que falava por ele. Era um homem simples mas que sabia impor disciplina sem ter necessidade de ser autoritário. Ao contrário de Wintebotom que viveu sempre longe dos jogadores, Ramsey era como um deles e sabia como gerir um grupo de grandes futebolistas: Podem tratar-me por Alf, foram as suas primeiras palavras em direcção aos jogadores na hora da apresentação. Para os directores federativos esta postura não era, porém, muito apreciada, pelo que a relação entre eles nunca foi, desde o inicio, muito cordial. Tudo começou quando, num dos primeiros treinos de Ramsey como seleccionador nacional, o Presidente da Football Association Harold Thompson se sentiu ofendido quando Ramsey, na presença de todos os jogadores, pediu-lhe que não fumasse em pleno balneário. De sobrolho carregado, Thompson apagou o cigarro e, diz-se, nunca mais, desde esse dia, perdoou a ousadia de Ramsey.

ALF RAMSEY1Natural de Danegham, um subúrbio do norte de Londres, Ramsey cresceu entre estivadores, nas margens do Tamisa, por entre um ambiente estuário de grande movimento nos anos 20/30. Com o passar do tempo, procurou sempre disfarçar o seu rude sotaque típico da zona que lhe ficara, apesar de, mesmo depois de se tornar grande figura do futebol inglês, regressar muitas vezes ás suas origens para comer o seu prato favorito, enguias com gelatina! Sempre sério e reservado, o seu perfil contrastava com o ambiente dos sixties, os revolucionários anos 60. Mas se estas raízes explicavam a sua personalidade humana, rude, senhor do seu nariz e algo indelicado com a imprensa e até com o público, o estilo e as características da sua selecção inglesa, reflectiam, por sua vez, o passado futebolístico que o moldara. Como jogador, destacara-se por ser o fogoso lateral esquerdo da célebre equipa do Tottenham de Arthur Rowe famosa pelo chamado “push and run”, empurra e corre, que levou o clube de White Hart Lane ao titulo inglês de 51/52. Jogou no Spurs durante 6 épocas, entre 1949 e 1955, contando 32 internacionalizações. Uma delas fora numa inolvidável tarde de 1953, quando do seu flanco esquerdo, assistiu, impotente, á lição táctica dada pela fabulosa selecção húngara que nessa tarde goleou a Inglaterra por 6-3 e lançou todo o futebol inglês numa profunda crise existencial. Para muitos estudiosos, foram esses dois factos que moldaram o grande treinador do futuro. Ao contrário da maioria dos treinadores ingleses, Ramsey preocupava-se com a abordagem táctica do jogo. “Acredito que a bola dver ser rapidamente tirada da nossa defesa. Se tivesse que determinar qual o numero ideal de passes a fazer nessa zona, diria três. É difícil generalizar num jogo tão rápido e fluído como o futebol mas, em geral, o segundo passe na defesa é o mais vital para garantir segurança nas restantes manobras da equipa.”

ALF RAMSEY2Aprendeu muito com Arthur Rowe, mas recusava-se a aceitar que o destino do futebol inglês fossem só cruzamentos e loucas correrias pelas alas. A sua grande aura como treinador seria construída no banco do Ipswich, então em 1955 uma modesta equipa da 3ª Divisão, mas que sob o seu comando subiria á Division II em 1957. Pouco depois, em 1961, ingressava na Division I, para, logo na época seguinte, sagrar-se sensacionalmente campeão inglês, com um sistema táctico que tinha a sua principal arma no facto de jogar apenas com um extremo, sendo este inclusive resultante dos movimento do antigo médio defensivo Leadbetter como ala esquerdo, não para se limitar a fazer cruzamentos para cima da baliza, como era hábito no futebol inglês, mas antes para sobretudo executar passes em profundidade para os espaços vazios para os vértices da grande área, onde surgiam em corrida os avançados. Quando chegou á selecção, Ramsey hesitou em aplicar o mesmo sistema. No seu jogo de estreia, optou então pelo clássico 4-2-4 com dois alas sempre prontos a cruzar bolas. O resultado foi desastroso. A Inglaterra perdeu 5-2 frente á França e foi eliminada do Campeonato da Europa. Arrependido, decidiu então colocar em prática, nos particulares com a Espanha e a Alemanha, o seu chamado «winglesss sistem», sistema sem alas, explanado em 4-4-2. Jogando um futebol renovado, a Inglaterra realizou duas grandes exibições, vencendo em Madrid por 2-0 e, derrotando, em Wembley, os alemães por 4-3. Entusiasmado, Ramsey reuniu os jornalistas e proferiu a corajosa frase que antes ninguém no futebol tivera coragem de dizer:: “A Inglaterra será campeã do mundo em 1966!”

Na base do competitivo 4-4-2 inglês de 1966 estaria, no entanto, uma preparação física fora do comum nesses tempos. Era a consagração do futebol atlético, que também teria, nesse ano, aplicação com a poderosa selecção germânica, a outra finalista. Viva-se um tempo de realismo competitivo alimentado por um cada vez maior aumento da dinâmica colectiva da equipa. Não era um jogo bonito, quase sempre estava destituído de qualquer elemento de arte ou técnica, mas era terrivelmente eficaz e, como se sabe, esse é, historicamente, o único aspecto que verdadeiramente importa para o competitivo e colectivo futebol inglês. A conquista do Mundial 66 foi, no entanto, decisiva para a evolução do estilo do futebol da Velha Albion. Muitas equipas passaram a adoptar o sistema de Ramsey e só aquelas que tinham alas com verdadeira classe no seu onze mantiveram o rudimentar pontapé para cima da área como principio de jogo básico. Basicamente, inspirados na revelação que fora Alan Ball, lutador mas técnico, os treinadores começaram a procuar outro tipo de jogador, com maior classe Olhando os Mundiais até 1966, pode-se dizer que, no plano táctico e competitivo, esta selecção inglesa é que está mais próxima dos dias de hoje e eu não teria, até, grandes dificuldades em sobreviver nele, ao contrário de outras mágicas vitoriosas selecções do passado, cujo sistema e ritmo de jogo estão hoje, apesar do seu enorme valor, completamente ultrapassado.

Depois do titulo mundial de 1966 e de ter terminado em terceiro lugar no Europeu 68, a Inglaterra de Alf Ramsey rumou ao Mundial 70 com aquela que era, para os estudiosos da Velha Albion, a melhor selALF RAMSEY3ecção da história do futebol inglês: Superada a primeira fase, os quartos-de-final voltou a colocar frente a frente os finalistas de 66: Inglaterra e RFA. Ramsey mantem a mesma equipa, mas na manhã do jogo sofre um duro revés. Banks acorda mal disposto, com uma gastrointrite e não está em condições de alinhar. No seu lugar entra o guarda redes suplente Bonetti. Mesmo assim, o jogo corre bem aos ingleses que chegam a 2-0 a meio do segundo tempo. É então que Ramsey, que nunca se adaptara muito bem aos novos tempos que permitiam substituições durante o jogo –o que a nivel de Mundiais sucede pela primeira vez em 1970- comete o maior erro da sua carreira de treinador quando, pensando ter o jogo ganho, decide tirar Bobby Charlton, poupando-o para os jogos seguintes. Pouco depois tira Peters e coloca em campo Hunter. A equipa perde o domínio do jogo e os alemães conseguem virar, no prolongamento, o resultado para 3-2. Eliminados, os ingleses saiem sem glória do México.

Era, também, o inicio do declínio da estrela de Ramsey que falhará, em seguida, o apuramento para o Europeu-72 e para o Mundial-74, eliminado pela Polónia. Fortemente contestado, considerado ultrapassado por vários sectores do futebo inglês, acaba demitido a 1 de Maio de 1974. De seguida ainda treinará o Birmingham, para além de uma curta passagem pelo Panathinaikos, na Grécia, onde foi ALF RAMSEY4director técnico. Pouco depois regressa a Ipswich, cidade que lhe dera os inesqueciveis tempos de glória de finais dos anos 50 e inicio dos 60. Os seus últimos anos de vida são passados em solidão, ignorado pelo futebol a quem tanto dera. Chega a ser irónico como as altas esferas do futebol inglês trataram este homem que, mesmo no dia em que se sagrara campeão do mundo, nunca fora de verdade amado pelo povo do futebol. Ao contrário de todos os jogadores do Mundial 66, homenageados om uma medalha de ouro após o triunfo, Ramsey não recebe nada, ostracizado pelos inimogos que fizera dentro da Federação. Morre a 28 de Abril de 1999, com 79 anos, vencido pelo coração e pelo mal de Alzheimer. Quando a Federação inglesa lhe quis prestar uma homenagem póstuma, a sua mulher deu-lhes com a cara na posta: “Agora, é demasiado tarde!” Seria talvez também essa a sua resposta se tivessem sido recebidos pelo próprio Alff Ramsey, o treinador de sobrolho carregado que sempre pareceu uma pessoa dificil e distante. Tinha, no entanto, os seus seguidores incondicionais, mas também com eles era implacavel.

Conta-se que no dia após a vitória no Mundial-66, a seguir a uma festa realizado nos estúdios de televisão de Boreham Wood foi abordado por dois jornalistas que o tinham apioado incondicionalmente nos momentos maus. - Hello, Alf, como se sente após a vitória?, perguntaram de microfone estendido. - Hoje é o meu da de folga! Respondeu-lhes de pronto, voltando-lhes as costas.