ARSENAL: O terceiro homem

12 de Março de 2008

ARSENAL O terceiro homem

O simples olhar para o onze titular de uma equipa pode provocar muitas ilusões. Tentamos logo encaixar os jogadores em cada espaço e, assim, decifrar a táctica a utilizar. Quando faltam extremos, pensa-se logo que vai ficar limitada a atacar pelos flancos. O bom futebol tem, no entanto, muitos caminhos. Entre eles, essa inteligência de jogar pelas faixas sem esses seus habitantes mais típicos habitantes. O Arsenal (num entre o 4x4x2 e o 4x4x1x1) é uma lição de como ocupar todos os pedaços de relva. Há como uma superioridade moral na sua filosofia de jogo. A bola sente-se confortável nos pés dos seus jogadores, passeia pelo campo, e, de repente, surge embalada em profundidade pela faixa, com um médio ou um lateral conduzindo-a até zonas letais de cruzamento.

No leme do plano-Wenger, o sábio Fabregas, um falso-baixinho (pois mede 1,80m). É, quase, um futebol de autor, mas sempre que estou a ver jogar este Arsenal lembro-me sempre do chamado conceito táctico do terceiro homem. Uma ideologia que vem de outras paragens, dos velhos laboratórios do Ajax, como conta Cruyff em "O ABC de um obstinado maestro". Em vez da normal combinação um-dois, a simples tabela, entre dois jogadores (onde, após o primeiro passe, o jogador desmarca-se automaticamente para que o receptor a devolva) deve surgir próximo deles, paralelamente, outro jogador a correr livre. Ou seja, para a equipa avançar de pé para pé, há sempre um jogador mentiroso que joga sem bola mas move-se em função dela. É o tal terceiro homem, difícil de detectar, mas decisivo para confundir os marcadores adversários e abrir espaço para a eficácia sucessiva do um-dois. Por exemplo, quando Diaby (ala-esquerdo) toca para Fabregas (interior) e logo avança no terreno pedindo a devolução da bola, Hleb (médio ofensivo vagabundo) surge a correr livre ao lado. Não tem intenção de pedir a bola, mas, com esse movimento, dispersa as marcações adversárias. Poucas equipas sabem usar este terceiro homem durante o jogo. O melhor Barcelona de Rijkaard ou o Manchester de Ferguson, com princípios diferentes, também conseguem fazer isso muito bem.

O actual Arsenal de Wenger é hoje o melhor espelho deste conceito muitas vezes imperceptível, só detectado vendo as jogadas com um microscópio táctico. Fazer isto num relvado italiano torna o feito mais épico Um jogo que brincou com a história. Reparem bem como a bola sai dos pés de Fabregas caminho da baliza de Kalac. Vê-se melhor na repetição em slow-motion rente à relva. Sou capaz de jurar que ela levava um sorriso aberto de orelha a orelha. Tinha-se divertido durante o jogo nos pés dos gunners e, a 6 minutos do fim, ia fazer-lhes justiça afundando-se no fundo da baliza italiana.

Fenerbahce : Que tipo de treinador é Zico?

ARSENAL O terceiro homemDez minutos do Sevilha-Fenerbahce. 2-0 no marcador. Dois remates de longe e o onze turco parecia afundar-se com estrondo. Nesses minutos, os grandes planos do guarda-redes Demirel tornavam-se penosos. Era a face da derrota. As repetições aumentavam mais essa sensação vendo como deixara passar aquelas bolas vindas de tão longe. Há, no entanto, algo de épico no futebol turco, mesmo quando por brasileiros. Alex, Aurélio e Deivid. No banco, Zico, parece vindo de outro planeta. Porque o seu futebol viveu sempre da técnica, nunca da luta. Talvez por isso, custa perceber que tipo de treinador é Zico. Qual a filosofia do seu futebol? A Turquia não é um bom local para o perceber (ao contrário de Itália ou Espanha, locais tacticamente mais exigente) porque nos ambientes de Istambul, o jogo é quase sempre um estado de espírito. Foi através dele que o Fenerbahce voltou ao jogo. Com alma. Como se viu na forma como Deivid festejou os dois golos que o levaram para os penalties. Foi então de Demirel voltou aos grandes planos. Transmitindo sensações diferentes. Do lado lunar para herói do jogo. Três penalties defendidos, com categoria, e o sonho turco resgatou asas. Novas oportunidades para ir descobrindo o treinador Zico.

O treinador-caleidoscópio

ARSENAL O terceiro homemFala-se em treinadores e muitas vezes parece que se fala de um tema de moda. Será pelo estilo, a roupa, a postura no banco. Talvez seja por isso quando se falta da elite, é raro surgir um nome que, em vez do fashionstyle, cultiva o estilo em campo. É o italiano Luciano Spalletti. Alto, meio curvado, careca, orelhas espetadas, olhos de cientista louco. Será uma descrição de cartoon, mas nela esconde-se um treinador que, há varias épocas, fura pelo dramatismo do Cálcio, com projectos de bom futebol. O actual está na Roma que transforma seis jogadores em defesas-médios e avançados conforme o local e o momento em que se encontra a bola. Quase um irónico 4x6x0 que guiado espiritualmente por Totti, dá diferentes personalidades a De Rossi, Aquilani, Perrota, Taddei ou Mancini. Uma teia que aprisionou e sufocou o Real Madrid. É Spalletti, o treinador-caleidoscópio.

ARSENAL O terceiro homem