As mil faces do talento

29 de Maio de 2007

As mil faces do talento

Um grande jogador faz a diferença numa equipa. Dois grandes jogadores, ainda mais. Mas, mais do que a simples soma de talentos, será a relação entre esses dois jogadores que ditará a verdadeira diferença. É dessa complementaridade que nasce uma grande equipa. A época vai chegando ao fim por toda a Europa e deixa um registo cada vez mais claro que só com essa noção conjunta se transforma hoje ganhadora qualquer ideia de futebol. O último exemplo vem de Madrid. A sociedade Beckham-Van Nistelrooy. Quando Capello parecia definitivamente no fim da linha, os dois jogadores desencantaram, com arte, as palavras cruzamento, remate e golo. Os números traduzem a revolução: Beckham, 151 centros, 5 assistências, 21 remates. Van Nistelrooy, 91 remates, 23 golos. Só os grandes jogadores são capazes de dar força a uma grande ideia e, em pouco tempo, fazer uma revolução e mudar de sitio várias coisas em campo e num campeonato inteiro.

Fizeram-no na Liga com mais talento espalhado pelos diferentes relvados. É curioso ver como no futebol actual causa para mais complicações para um treinador ter de conciliar dois talentos criativos no mesmo onze do que juntar dois jogadores mais rudimentares, daqueles ditos mais tácticos, mesmo que só vivam para destruir a inteligência dos outros. Os elogios ás exibições individuais da época recaíram tanto em que se exibe com a bola nos pés como em que se destaca pela sua recuperação. Nesse choque de mundos distintos, Ambrosini ganhou espaço de protagonismo a Kaká na final da Champions. No RAs mil faces do talentoeal Madrid, a união complementar entre Diarra e Gago deu consistência ao duplo-pivot defensivo de Capello. Eles guardam o território e controlam o adversário.

Nestes diferentes modos de criar bom futebol, existe a lógica de Gago e a magia de Beckham. Arrombar as defesas como Nistelrooy ou abrir uma clareira no jogo de marcações como Kaká. Ser simples como Cesc Fabregas, ou gostar do malabarismo como Messi. Todo o que fazem, faz a diferença, mas só com uma ideia comum podem criar uma equipa. Pensando noutro grande onze que marcou a época, o Chelsea ainda necessita dessa complementaridade. Abrir na táctica uma brecha que permita a fantasia. Com fez, na sua recente história, por exemplo, Zola. Vejam como os adeptos o saúdam quando revisita as bancadas de Stanford Bridge. Uma sensação estética que continua a escapar ao projecto de Mourinho. Cada jogo das grandes Ligas europeias são batalhas entre duas equipas que sabem sempre como se colocar em campo, mas é estranho acabarmos a elogiar jogos onde, no final, não conseguimos destacar uma individualidade. A noção de grande equipa só existe quando nela o treinador conseguir combinar as diferentes faces do talento.