As noites de Londres

20 de Setembro de 2007

As noites de Londres

Uma mulher bonita na bancada leva, por si só, o futebol para outra dimensão. Por fim, começa a época. Com maiúsculas. É a elite suprema da Champions. Na babilónica de Londres, diferentes emoções. A dança, com e sem bola, a mortífera girafa africana que ergue o ataque do Arsenal, Adebayor, contrasta com o olhar cada vez mais perdido de um avançado ucraniano no ataque do Chelsea, Shevchenko. Um jogo contra o Rosenborg, não é, desde logo, um motivo de excitação futebolística. Na tribuna, porém, Abramovich estava divertido.

Com razão. Motivos de beleza rara, mas em vez de expressos em jogadas e golos, antes se exprimiam em rasgados traços de eyeliner negro num felino olhar feminino. As relações entre as mulheres e o futebol nunca foram muito apaixonadas, mas poucas vezes como nessa noite elas tiveram um simbolismo tão forte. E real. Enquanto Mourinho, de sobrolho carregado, sofria no banco, Abramovich sorria na tribuna. Razões diferentes para cada uma destas atitudes.

Ambas, diga-se, totalmente justificadas. Bastava olhar. Para o campo e para a bancada. Quando ainda no sábado, Mourinho reagiu irritado, com um murro meio na perna, meio no ar, acabando a olhar furioso para a área, após mais um falhanço isolado de Shevchenko, percebeu-se que a sua longa-metragem em Stanford Bridge estava perto do fim. O choque com o iceberg norueguês do Rosenborg foi, apenas, a última cena, culminada com a suprema ironia de Terry a ponta-de-lança. Sem a sua futebolística guarda pretoriana, Lampard e, sobretudo, o grande chefe ofensivo Drogba, a equipa, e Mourinho, ficaram amarrados num território táctico estranho. Vinte e quatro horas depois, na outra face de Londres, um poeta hispânico mostrou outra expressão de beleza num estádio de futebol. Cesc Fabregas, o pequeno Einstein da bola. Com cérebro, dinamitou o Sevilha, sinónimo de futebol ofensivo.As noites de Londres
É bonito, porém, ver um jogo que se previa ir ser marcado por um duelo de girafas (Adebayor, 1,90m. contra Kanouté, 1.92) ser resolvido por um maestro baixinho. Com Juande Ramos a jogar num 4x4x2 aberto, com a zona central entregue ao duplo-pivot Marti-Poulsen, em vez dos habituais três médios europeus, com Renato subido, Cesc parecia, sempre que recebia a bola, ter mais tempo do que qualquer outro jogador para pensar e executar, num espaço de terreno onde as marcações costumam ser muito apertadas. No fim, a vitória clara, deu ainda maior impulso á renovação de Wenger, após «apenas» dez anos no Arsenal. Mas, do North Bank até á Chelsea Village, as mentalidades mudam muito. Após o empate, Abramovich saiu sorridente. Ao mesmo tempo, Mourinho fechava um capítulo do livro da sua carreira. Porquê pedir a lua se pudemos ter as estrelas?