AS TENDÊNCIAS DO FUTEBOL MODERNO

22 de Março de 2006

A TRANSFORMAÇÃO DO 10º

O futebol actual perdeu, em muitos pontos, as referências de antigamente. Dentro do relvado há duas espécies cada vez mais em vias de extinção: os velhos nº10, médios-centro clássicos, e os extremos que jogavam encostados à linha. No seu lugar surgiram os tais segundos avançados ou, pensando no jogo pelas faixas, os chamados flanqueadores. Nenhuma destas posições exige uma especialização particular. Mas falemos primeiro dessa espécie do novo médio ofensivo que muitas vezes se transforma em segundo avançado, aquela categoria de jogadores que Platini, vendo que nem são pontas de lança nem velhos nº10, defeniu como os 9,5 do futebol moderno. É uma categoria onde se inseriram jogadores como Baggio, Rivaldo ou Ortega e hoje movem-se Ronaldinho, Aimar ou Káká. Em comum tem uma característica que tacticamente faz logo muitos treinadores olharem para eles de lado: ou não sabem defender ou defendem mal quando a equipa perde a bola. É por isso que, muitas vezes, estes jogadores quase parecem corpos estranhos dentro das dinâmicas tácticas de muitas equipas.

Isso é um pouco assim, só que, basta ver um jogo, para ver como são eles que fazem a diferença. Reparem as três melhores equipas europeias da actualidade: No Milan, Kaká marca a diferença quando pega na bola, na Juventus é Nedved ou Del Piero que dão criatividade a todo aquele mundo de ladrões de bola e jogadores duros, no Barcelona, de Ronaldinho já nem vale a pena falar, quando pega na bola vira sozinho qualquer jogo de pernas para o ar. Este tipo de jogadores não entende o conceito de bloco que muitos treinadores dizem que as suas equipas devem ser para funcionarem tacticamente. Chegado a este ponto, apetece perguntar como conciliar então estes dois mundos aparentemente incompatíveis? É Simples. A posição do médio ofensivo ou falso avançado que substituiu os velhos 10, depende muito de quem joga à sua frente com o nº9.AS TENDÊNCIAS DO FUTEBOL MODERNO

Repare-se: Se este, mais do que jogar em cunha entre os centrais, é antes um jogador sempre em movimento, assim como Schevchenko, então o médio ofensivo deve ser um jogador rápido que saiba entras de trás em velocidade aproveitando os espaços vazios abertos pelas movimentações do ponta-de-lança. É o que faz Káká. Se, pelo contrário, esse ponta-de-lança é um jogador mais estático, que se mete entre os centrais, estilo Drogba, necessita-se então de um médio ofensivo menos rompedor, mas com maior visão de jogo e precisão de passe para o servir, seja por alto seja em como em passes que o desmarque. Deco, por exemplo. As grandes equipas da actualidade são, portanto, como gosto de dizer, uma série de pequenas sociedades que se desenvolvem em campo. Cabe ao treinador a missão de as entender e formar.

O FIM DOS EXTREMOS

Se há um aspecto em que o futebol actual com o de antigamente é diferente, é nos extremos, aqueles jogadores velozes que jogam encostados à linha geralmente com o nº7 e o nº11 às costas. Hoje, esta figura praticamente desapareceu do futebol. Do passado, já nem falo de Gento e Garrincha, o esponte máximo dos extremos na história do futebol. De Gento, aliás, conta-se a história de um jornalista sul-americano que um dia no Chile jurou ter-lhe contado seis pernas e quatro braços tal a velocidade com que ele corria. Nos tempos mais recentes, Giggs e Overmars terão sido os últimos exemplos desse extremo típico. Esta questão ou a falta deste tipo de jogadores actualmente é cada vez mais pertinente. A sua falta é, muitas vezes, claramente evidente em muitas equipas.

Repare-se que à medida que uma equipa ataca e se aproxima da baliza adversária, o relvado torna-se progressivamente menos longo, mas a largura do campo permanece a mesma. Sem extremos clássicos, as equipas tendem, então, AS TENDÊNCIAS DO FUTEBOL MODERNOem abrir a frente de ataque com os tais laterais ofensivos, estilo Roberto Carlos ou Cafu. Estes só existem no entanto porque os extremos deixaram de existir. Ou seja, sem ninguém a quem marcar, eles descobriram um corredor inteiro para atacar.

Noutros casos, surgiram os chamados flanqueadores, como Figo ou Beckham. Têm uma notável capacidade de cruzamento mas nunca os fazem à linha, optando antes antes por os fazer mais ou menos no enfiamento do bico da área. É devido a toda esta confusão de posições, que surgiram avançados imprevisíveis que parecem jogar em todo o lado e ninguém os consegue definir verdadeiramente. São os casos de Henry, Ronaldinho ou Robinho. Ninguém os consegue definir em termos de lugar. Médios ofensivos, extremos, avançados puros, onde os encaixar? Por vezes parecem uma espécie de extremos disfarçados. Pensem nestes três jogadores, Robinho, Ronaldinho e Henry. Recuam no terreno, quase até perto da entrada do meio campo, encostam-se às alas, quase como se escondendo dos seus marcadores, e depois arrancam, com ou sem bola, como setas em direcção à baliza adversária.

Depois, quando chegam perto da área ou fazem um passe de morte ou inventam um espaço , furam e rematam para golo. Em que lugar jogam? Em nenhum e em todos ao mesmo tempo do meio campo para a frente. São pois eles, em certa medida, os novos extremos dos tempos modernos.