ATENAS 2007: De Inzaghi a Crouch, «luzes e sombras»

27 de Maio de 2007

ATENAS 2007 De Inzaghi a Crouch, «luzes e sombras»

Um dos mais velhos ensinamentos do futebol diz que é diferente atacar como o adversário espera e se preparou para resistir, do que pensar numa estratégia imprevisível que o force a reagir sem essa preparação prévia. O Milan de Ancelotti tinha activado por todo o campo as suas armadilhas de recuperação de bola, pelo que nunca tremeu quando esta estava na posse do Liverpool. Esperava que ela entrasse em zonas mais perigosas, soltava um dos seus cães de guarda, Gattuso ou Ambrosini, eles voavam no seu encalço e comiam-na. Benitez terá pensado o mesmo com Xabi Alonso e Mascherano. Com esta sintonia táctica, a final da Champions tornou-se uma batalha de recuperações de bola. Bastou à teia de Benitez falhar uma zona de pressão sobre Seedorf para o Milan, cinicamente, ganhar um livre na entrada da área e fazer o golo. Na segunda parte, talvez tenha passado mais tempo a olhar para o banco do Liverpool do que para o relvado. Em campo, o Milan devorava a bola. Fora dele, Benitez continuava meio deitado sobre o banco com um papelinho e uma caneta. A seu lado, uma girafa permanecia com as meias em baixo.

A certo ponto, Ancelotti também olhou para lá. Acho que todo o Estádio olhava. A razão era simples e tinha 1,98m. Peter Crouch, claro. Durante toda a época, virou de pernas para o ar muitos jogos com o seu jeito inestético de atacar a bola, parecendo que se ia desmontar todo, quando, de repente, inventava um movimento, fazia golo ou abria um espaço decisivo na área adversária. Não seria o mesmo para as armadilhas defensivas de Ancelotti com Crouch em campo. Benitez não acompanhou o pensamento do resto do Estádio. Crouch jogou apenas 12 minutos. O suficiente para alterar as coordenadas de jogo, fazer Ancelotti meter um lateral que soubesse flectir para terceiro central (Kaladze), ainda fez um remate para uma grande defesa a Dida, ganhou bolas de cabeça, assustou pássaros e defesas centrais, mas foi poucATENAS 2007 De Inzaghi a Crouch, «luzes e sombras»o tempo para mudar o curso do jogo.
Seria, no pólo oposto do relvado que uma ave de rapina em forma de ponta-de-lança decidiria a final numa zona de ninguém, um curto espaço de terreno que se estende verticalmente no campo e que se traduz numa imaginária linha de fronteira entre estar ou não estar em fora-de-jogo. Ninguém se move nessa zona desmilitarizada com tanta astúcia como Inzaghi. Esconde-se entre os marcadores e arranca no momento certo, brincando com a bandeira do fisca-de-linha. Foi assim que ameaçou na primeira parte. Foi assim que decidiu no final da segunda. De Crouch a Inzaghi, Benitez intelectualizou demasiado a estratégia e esfumou do jogo o elemento que lhe poderia ter dado a sua maior nota imprevisível. Atenas teria outro encanto com Crouch em campo.