O banco de suplentes

25 de Novembro de 2010

Antigamente os jogadores demoravam muito tempo e resistiam tempos infinitos. Tornavam-se símbolos dentro das suas equipas. Confundiam-se com elas. O treinador, então, tinha poucas dúvidas de quem iria jogar no onze inicial. Em tempos mais remotos, inclusive, nos idos anos 60, quando nem existiam substituições, tal tornava-se mais definitivo e a posição do suplente tornava-se, facilmente, no passar dos jogos, quase uma fatalidade, um estatuto que seria consagrado até nos chamados «Campeonatos de Reservas».
Os novos tempos, as três substituições, a multiplicação de jogos por época (que leva à chamada “rotatividade”) e o mercado aberto para as transferências, diminuíram o tamanho das raízes que essas reservas criavam sentados nos bancos de suplentes das equipas. Mesmo assim, alguns jogadores ficaram com essa marca colada nas suas carreiras.

O caso dos guarda-redes é, neste mundo com um banco e teias de aranha em redor de um homem solitário, ainda hoje um caso algo diferente, pois como é um lugar muito específico e sensível a alterações, é natural o treinador ter uma primeira opção clara (o titular) que só em casos extremos (muitas falhas desse nº1) irá o substituir pelo suplente (nº12). Por isso, quando hoje, no futebol, pensamos hoje no “suplente eterno”, a primeiras memórias são sempre de guarda-redes, do passado mais distante (Delgado o eterno suplente de Bento no Benfica), ao recente (Nuno, que da Corunha ao Porto, “aqueceu”, como dizem os espanhóis, muitos bancos) até ao presente (Tiago, no Sporting, no qual começou a jogar –ou melhor, a sentar-se nos bancos- em 95/96, miúdo de 20 anos, até agora, ao último jogo, já em 2010/11, a caminho dos 36. Entretanto, os seus cabelos foram ficando cada vez mais brancos).

Envelhecer num banco de suplentes não é, porém, uma visão muito romântica. Em geral, o suplente é um homem só e incompreendido. Invade-lhe como que uma sensação de abandono. Pode levar mesmo até uma perda de auto-confiança. Muitos sentirão mesmo a necessidade de, em vez de um banco, passarem para um divã. Psicanálise futebolística. Para terem alguém como quem falar, alguém que os ouça e entenda. Sendo o jogador de futebol um ser essencialmente egocêntrico, esse rótulo de “suplente” pode fazê-lo mesmo sentir como a pessoa mais injustiçada do mundo. Nessas alturas, não olha para o resto da equipa, seu valor e dos colegas, explicações do treinador, etc. Para ele o problema é muito mais simples: “o mundo não me entende”.

A mesma realidade (sentar-se no banco de suplentes) pode, no entanto, provocar reacções diferentes em pessoas…diferentes. Há que se revolta com isso e quando entra vira o jogo, há quem se deprima e se enfie pelo banco dentro sem querer sair de lá, há quem entenda que o titular é muito melhor e tudo aquilo é normal. Todos eles, porém, sejam qual for a reacção, são (foram) seres humanos na forma de jogadores de futebol sentados num banco de suplentes. Muito provavelmente, a mais estranha forma de vida futebolística.

Promessas até ao último dia

Banco de suplentesOs tempos vão passando e há nomes na história do futebol que começam a confundir-se entre o real e o imaginário. Será que existiram mesmo? Penso em suplentes eternos e, abrindo um baú da memória, surge o nome de Cavungi. Existiu mesmo, não duvidem. Foi estrela dos juniores do Benfica em meados dos anos 70, estaria ali um novo Eusébio, embora ele fosse mais extremo, mas também vinha das antigas colónias, angolano, fintava e fazia golos. Subiu a sénior e todos os viam como uma super-promessa. Época atrás de época, porém, Cavungi ia passando quase todos os jogos no banco. Quando entrava, tinha uns rasgos, mas longe de ser o fenómeno que muitos tinham projectado. Essa imagem, entenda-se esperança, ficou, porém, tão colada a ele que já estava perto dos 30 anos (entretanto foi emprestado ao Braga e ao Alcobaça) e todos ainda o viam como uma promessa com grande futuro.

O “sindroma de Cavungi” ainda hoje paira na cabeça de muitos analistas futebolísticos na hora de ver surgir craques precoces. É, também, uma lição de vida num banco de suplentes. Cativa tanto como perturba. Porque não existe nada mais perturbante no futebol do que ver talento a ser desperdiçado. Partindo novamente do mundo encarnado, recordo outro enorme talento na origem que se transformou, depois, em crónico suplente nas equipas “grandes”. Hugo Leal. Em meados dos anos 90, muitos viam-no como uma espécie de projecto de novo Rui Costa. O seu estilo a conduzir a bola, metendo-a onde queria com os pés, seduzia sempre que pisava o relvado, mas a forma, talvez, demasiado “aburguesada” como sempre esteve no jogo, tornou-o, com o passar das épocas, numa permanente promessa adiada. No estrangeiro, andou pelo At. Madrid e PSG, e, em Portugal, o FC Porto tentou resgatar esse talento, provocando os egos benfiquistas, mas, no Dragão, Hugo Leal manteve o mesmo estilo blazé de jogar. De suplente habitual acabou a dispensado. Pelo meio engordou um pouco e aos 27 anos já parecia um veterano a jogar. Andou a época passada o Trofense e este ano está em Setúbal.

Os suplentes heróis

Para alguns jogadores, porém, o banco de suplentes pode ser quase como um “desafio ao orgulho”. Provoca-lhes um efeito reactivo. É o banco como terapia. Enquanto estão sentados, olham o jogo quase ao nível da relva, pensam muito, redobram a motivação (ia a escrever raiva) e quando são chamados é como se fossem acertar contas com eles próprios, o treinador, o destino, os adeptos, enfim, o mundo inteiro. Há, claro, quem não veja esta passagem do banco para a relva como algo tão dramático, mas nenhum jogador fica insensível a esse momento em que pode passar de figurante invisível a protagonista. Ou seja, o homem antes ostracizado pode agora mudar o curso de um jogo. É a oportunidade para ser herói.

Ainda hoje muitos recordam César Brito, ponta-de-lança do Benfica, bom avançado mas, longe de ser um craque, nunca foi um titular indiscutível. Subiria à eternidade, porém, numa tarde quase “bélica” de 91 na velha Antas quando, entrando já muito perto do fim, fez, destemido, dentro da área, dois golos de grande astúcia que dariam o título de campeão ao Benfica mesmo no nariz enfurecido dos adeptos portistas.

No universo azul-e-branco este perfil do suplente herói tem, historicamente, um nome e duas pernas num corpo baixinho e esquivo: Juary. Um brasileiro com estilo Mickey Mouse que, muito rápido, era, em meados dos anos 80, quase sempre a arma-secreta a ser lançada a meio da segunda parte dos jogos. Quando jogava de início, nem parecia o mesmo jogador e raramente brilhava. Talvez a razão estivesse no facto do seu ponto mais forte ser a velocidade, o que, claro, podia explodir melhor com os maiores espaços que surgem nessa fase do jogo. A subida à eternidade do “suplente” Juary surgiu em Viena, em 87, na Final da Taça dos Campeões europeus. O FC Porto estava a perder com o Bayern, quando Juary entrou e, lançando o pânico nos defesas alemães, viu o espaço livre, surgiu nele e fez o golo da vitória. Na história, todos o citam como um suplente. Na memória, todos o recordam como um herói.

Reserva do “melhor do mundo”

Banco de suplentesSerá, talvez, a melhor forma de confortar um suplente. O protagonista da história é Meirim, famoso treinador dos anos 70, mestre na táctica, no treino e no estudo do comportamento humano. Quando uma época, no Varzim, tinha na baliza Benje, guarda-redes felino que marcou uma época no nosso futebol, era indiscutível que a baliza seria sempre dele. O suplente vivia, pois, amargurado. Até que Meirim foi ter com ele e disse-lhe para continuar a lutar, que tinha grande valor, etc, que era até “o melhor guarda-redes da Europa”. O suplente abriu então os olhos de espanto com a esperança de jogar. “Sim, está bem, mas o Benje é o melhor guarda-redes do mundo!”. Era, claro, um exagero bem pensado, mas existem casos na história em que esta fatalidade aconteceu mesmo a alguns jogadores.

O Brasil é um país com tantos craques que seria capaz de fazer várias selecções com valor para discutir o título no mesmo Mundial. A Argentina também. Agora, tentem imaginar o que passará pela cabeça dos suplentes de Pelé ou Maradona, os melhores de todos os tempos. Só pensar em tirar-lhes o lugar seria quase uma blasfémia futebolística. Ou não?

Em 1986, por exemplo, no Mundial do México, ano da consagração mágica de Maradona (então a jogar em Itália, no Nápoles), brilhava nos relvados argentinos outro “baixinho” com o nº10 nas costas. Bochini. A admiração pelo seu talento era tanta que quando pegava na bola, driblando e tocando como um poeta, todos os adeptos acreditavam que a jogada podia acabar em golo. Só que na selecção, no seu lugar, estava Maradona e, por isso, nesse Mundial, Bochini jogou apenas os últimos cinco minutos da meia-final contra a Bélgica, quando a Argentina já ganhava por 2-0. Quando o viu entrar em campo, Maradona homenageou-o com estas palavras: “Bien, Maestro!”. Para a história, porém, Bochini, que, de orgulho ferido, diz até hoje nunca se ter sentido campeão do mundo por pouco ter jogado, ficou como um “herói privado” do futebol argentino quando podia ter sido uma estrela de dimensão mundial. Foi suplente do melhor do mundo. Honra ou frustração?