BILL SHANKLY (1913-1981)

07 de Maio de 2000

Confundida com os jogos de luzes e sombras dos tempos modernos, a Inglaterra futebolística ergueu novos heróis, novas referências e, até, novos valores, mas ao longo do século, para as gerações que seguiram o futebol como o ar que respiravam, o clube inglês que mais alto elevou o ego e o nome da Velha Albion foi, sem dúvida, o fabuloso Liverpool, a cidade dos Beatles e do futebol romântico, aquele que melhor definiu um clube de futebol como a mágica união entre os seus adeptos e os jogadores que, ao longo das épocas, vestiram a camisola desse clube, que é um estado de alma, um bocado das suas vidas.
Erguida no estuário do rio Mersy, na região do Lencashire, Liverpool, com milhão e meio de habitantes, possui um dos mais importantes portos das ilhas britânicas, hoje a viver grave crise, com o desemprego crescente, que há pouco levou ao despedimento de um milhar de estivadores.

A bela história do Liverpool FC começa em 59 quando, com o clube na II Divisão, chegou ao seu comando, o escocês Bill Shankly, vindo do Huddersfield. Este homem mudaria para sempre a imagem do Liverpool.
Em 62, com o regresso á Iª Divisão, estava cumprida a primeira fase da sua promessa: Tornar o Liverpool no primeiro clube do Mundo. Nesssa missão, Shankly correu toda a Grã-Bretanha em busca de talentos. Muitas vezes contratava-os muitos novos, fazendo-os jogar nas reservas durante dois anos, aprendendo o “Liverpool spirit”, até ocupar o lugar das estrelas que se retiravam. Assim, para ele as duas melhores equipas do mundo eram o Liverpool e as reservas do Liverpool!O segredo de Shankly era a dedicação e paixão que transmitia a todos, com um sentido de motivação único. Uma tarde, os jogadores do Liverpool ouviam ansiosos a sua palestra antes do jogo com o poderoso Manchester de Busby. Shankly falou de todos os homens do adversário, explicou como os anular e como fracos eles eram. Falou de todos menos de três como logo um jogador se apressou a lembrar:
-“E que fazemos com Charlton, Best e Law, Mister Shankly?”
Imparável, o escocês sentenciou: - “Não me digam que não são capazes de ganhar a uma equipa que só tem três jogadores!?”Noutra ocasião, antes de um jogo contra o Anderlecht disse aos jogadores para não se preocuparem: “Eles não valem nada!” No fim, depois de vencer 3-0 afirmou solenemente: “Acabaram de bater uma das melhores equipas da Europa!”. Os jogadores viviam enfeitiçados com as suas atitudes. Era um homem de contrastes, nada dado a conversas sociais, ora era capaz de por um jogador na lua, ora era capaz de lhe pregar uma descompostura tal que o colocava de rastos.

shankly2Aos poucos surgiam os grandes nomes do Liverpool. Em 64 torna-se pela sexta vez na sua história campeão inglês após 17 anos de vazio, mas os grandes “diabos vermelhos” ainda estavam por chegar. O grande arranque surgiria quando, astuto, Shankly, descobriria, no inóspito Scunthorpe, um jogador que o ajudaria a mudar o curso da história: Kevin Keagan. Quando em 74, Shankly, com 61 anos, decidiu parar, o seu único lamento era o de nunca ter ganho a Taça dos Campeões. Conquistara a Taça UEFA, mas não era a mesma coisa. Na hora do adeus deixou uma grande equipa, liderada por Keegan, com diabos como McDermott, Heighway, Case, Callaghan, Neal e Toshack, mas, sobretudo, deixou o mais importante tesouro do reino de Liverpool: uma atmosfera sobrenatural de conjunto e união entre todos os elementos da casa: o famoso segredo do “bottroom”, o balneário, que iria passar de geração em geração. Depois de Shankly, a mística passou para Bob Paisley (74/83), anterior adjunto, e depois para Joe Fagan (83/87), sempre com o apoio do fiel Ronnie Moran. Em 59, foram estes três homens a receber Shankly. Depois, durante 30 anos foram eles a abrigar o segredo. Quando Shankly abandonou Anfield, dirigir o Liverpool era como guiar um Rols-Royce.

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O Liverpool de Paisley foi porém, diferente do de Shankly, sobretudo a nível internacional. Essa era aliás a maior critica que se fazia a Shankly, para quem o futebol inglês era o melhor do mundo, minorando o do continente, que dizia refém de esquemas tácticos e a picardias sem fair-play.
Com Paisley, o Liverpool cresceu táctica e tecnicamente, tornou o seu estilo mais continental, privilegiando a posse e a circulação de bola. Os seus defesas passaram a sentir-se mais confortáveis com a bola nos pés. Ora é exactamente esse o segredo das grandes equipas. Saber iniciar e desenhar mentalmente na defesa as suas jogadas ofensivas.
Assim, os centrais do Liverpool durante a era-Paisley, Thompson, Hughes, estes ainda da era-Shankly, Hansen e Lawrenson, cultivaram um perfil elegante. Não se limitavam a despejar bolas para a área adversária. Para além de exímios no jogo aéreo e no tackle, passeavam classe com a bola junto á relva, á frente de guarda-redes como Clemence e Grobellar. As bases da equipa, o seu estilo e carácter, tinha, no entanto, sido erguidas por Shankly.

O espirito de equipa era incrível. Durante os estágios, quando visitados pela imprensa e adeptos, os jogadores divertiam-se fazendo caretas aos outros hóspedes do hotel, brincando e cantando canções tradicionais da história do Liverpool. Ser do Liverpool é fazer parte de uma das mais importantes páginas da história do futebol mundial. Para nele jogar era necessário, antes do mais, entender o seu estado de espirito. Uma imensa constelação de simples rapazes tornados estrelas nas mágicas noites de Anfield Road.
Todos brilharam perante a “Kop”, a mítica bancada atrás da baliza, onde em dia de jogo se concentravam de pé cerca de 20 mil loucos adeptos, gritando e cantando sem parar durante 90 minutos: “A Kop garantia pelo menos um golo de avanço. Ser seu membro é como pertencer a uma instituição sagrada. A pressão que ela fazia era tal que quase sugava a bola para dentro da baliza, outras vezes assustavam-na e ela fugia para longe”, palavras de Shankly.

Anfield Road continua mítico, mas cada vez é mais difícil explicar a jovens talentos como Owen o seu real significado. Aos seus devotos adeptos, resta rezar para que o Séc.XXI traga consigo um outro Shankly. Muito do misticismo e idolatria que gira á volta dos jogadores ingleses resulta sobretudo do seu carisma e da acessibilidade que reveste a suas relações com as massas adeptas que os seguem religiosamente. Shankly era o exemplo perfeito disso mesmo.

SHANKLY

Apesar do dinheiro que foi ganhando, Shankly permaneceu o mesmo homem simples que encontrou a razão de viver no existencialismo do pós-guerra. Habitava a mesma casa de três assoalhadas, guiava o mesmo velho carro e passava os domingos a cortar a relva e a pentear o seu cocker. Quando alguém parava para lhe pedir um autógrafo, não se limitava a dá-lo e muitas vezes convidava essa pessoa, conhecida ou não, para entrar e tomar um chá e umas bolachas, a sua refeição preferida.

Shankly só pensava em futebol e a sua mulher, que se queixava que raramente o via a falar sobre outra coisa, lembra que, certo ano, no dia do aniversário de casamento, ele finalmente a convidou para dar um passeio romântico. Incrédula e esfuziante colocou o melhor vestido e a melhor maquilhagem. Não tardaria porém a saber que a surpresa de Shankly seria passar a tarde a ver um jogo das reservas do Rochdale , um clube da 3ª Divisão: “Vês, Nessie, dizia Shankly, é aqui que ás vezes se descobrem os grandes jogadores do futuro!”. Nada mais romântico, de facto, para os apaixonados do futebol feito sentimento.

Hoje a sua estátua, tal com a de Busby em Old Traford, guarda dia e noite a catedral de Anfield Road, ao lado das famosas “Shankly Gates”, o portão que é a entrada principal para a casa do Liverpool FC. Quando a noite caia sobre este mítico lugar, muitos juram ainda por vezes ver o vulto de Shankly, abandonando solitário o seu local de culto, a caminho do seu velho carro. A realidade, porém, é outra. Em 1981 Shankly, vitima de um ataque de coração, partiu deste mundo. No seu epitáfio, uma frase singular: Bill Shankly- 18xx.1981, "He made people happy!" Ele fez as pessoas felizes!