«BOLA DE OURO 2006»: Os princípios de Cannavaro

03 de Dezembro de 2006

«BOLA DE OURO 2006» Os princípios de Cannavaro

Há quem defenda que uma equipa mais vocacionada para a segurança defensiva não pode desde logo ter o mesmo valor de outra que tenha no ataque o seu maior poder. É como uma superioridade moral do chamado futebol ofensivo sobre o defensivo. Trata-se, no entanto, de uma distinção sem sentido. Para uma equipa ser verdadeiramente de top, o primeiro passo é nunca separar a defesa do ataque. Ora os principais responsáveis para que o onze ganhe esse bloco unido em campo não são os avançados mas antes os defesas ou os médios mais defensivos ou de transição, estilo Lampard e Deco. Quanto aos defesas, basta recordar Beckenbauer e Sammer, únicas excepções de defesas premiados, embora tenham ultrapassado em muito, na forma de jogar, o conceito de defesa puro. Com elegância, tanto se colocavam atrás da linha defensiva, como avançavam para a frente dela, conduzindo a bola como o primeiro elemento a pensar o jogo ofensivo da equipa. Eram líberos que liam todo o jogo.

«BOLA DE OURO 2006» Os princípios de CannavaroDominados, porém, pela ideia do ataque, os prémios individuais no futebol sempre privilegiaram os avançados, ignorando os monstros que habitavam espaços mais recuados como Baresi, Faccheti, Bobby Moore ou Maldini, todos eles exímios em unir defesa e ataque. Últimos defesas e primeiros avançados, alternadamente. A atribuição esta época da Bola de Ouro a um defesa podia reflectir esta visão de futebol total. Pura ilusão. O eleito foi um defesa no mais estrito sentido do termo: Cannavaro, capitão da Itália no Mundial-2006. A sua entrega ao jogo é insuperável, mas termos estéticos, simboliza o chamado lado lunar do futebol. A sua missão é exactamente a de impedir que magos como Totti ou Ronaldinho façam os golos que nos encantam. Há mil e uma maneiras de entender e jogar futebol. Cada jogador tem um estilo e uma personalidade.

Quando pediram a Capello, seu técnico em Madrid e na Juventus, para definir cada Bola de Ouro da história, ele foi falando em técnica, classe e velocidade. Ao chegar a Canavaro reformulou os adjectivos e disse que era a concentração em forma de jogador de futebol. Esteticamente não será o adjectivo mais sedutor. Para os ditames do pragmático futebol moderno, no entanto, é perfeito. A arte de um corte de carrinho, o sacrifício de uma dobra ou até um pontapé para a bancada. Numa frase: a arte de destruir belas jogadas.