Bremen: A metralhadora de Wiese

09 de Março de 2006

Bremen A metralhadora de Wiese

Há momentos que se transformam em verdadeiras metralhadoras na cabeça dos jogadores. Imagino os pensamentos de Wiese, guarda redes do Werder Bremen depois de deixar escapar uma bola fácil das mãos a um minuto do fim do jogo contra a Juventus. Ao fim de muito tempo de espera tinha por fim ganho a baliza do Bremen. Mesmo perante os olhares desconfiados dos adeptos –que até o criticam por jogar com uma camisola cor-de-rosa - realizou uma exibição espectacular. Grandes defesas que pareciam o ir tornar no herói de uma vitória histórica. Foi quando, após receber um cruzamento morto, tentou queimar mais alguns segundos, rebolando com a bola agarrada nos braços, só que, traiçoeira, como se tivesse vida própria, ela, nesse movimento, escapou-lhe das mãos e ficou à mercê de Emerson que até já voltava ao seu campo, alheado da jogada.

(Reparem na foto em baixo). Viu a bola, surpreendido e chutou-a para a baliza deserta. Wiese mergulhou no inferno. Faltavam poucos minutos para o fim que se consumiram num ápice. Em campo, ainda a quente, não faltam os consolos dos teus companheiros. Mas o problema surge redobrado quando o ambiente arrefece. Vais para o aeroporto e a jogada não te sai da mente. Há quem já nem fale e só te olhe. Companheiros ou simples desconhecidos. É impossível fugir dos pensamentos. No avião, fecha-se os olhos e a jogada repete-se na cabeça como uma metralhadora. Como foi possível? Os dias seguintes serão a imaginar outros desfechos do lance. Como tudo seria diferente. É este, afinal, o diabólico lado do futebol. Uma história de heróis e vilões separados por um ténue fio que ninguém consegue ver a olho nu dentro do campo.

Bremen A metralhadora de WieseSe há coisas que as equipas alemãs não sabem fazer é especular tacticamente com os jogos. Raramente mexem no sistema. Mentem sempre o mesmo modelo seja qual for o resultado. A ganhar em Turim desde os 13 minutos, o Bremen de Schaaf manteve-se o seu 4x4x2. Não fez substituições tácticas e nunca recuou linhas ou procurou esconder a bola. Manteve o campo «grande» e assumiu o jogo, com dois médios-centro, Baumann a fechar e Micoud a construir, mas dois alas a gerir as compensações defesa-ataque, com Frings (trinco-pivot na selecção) descaído sobre a direita, mais em tarefas de recuperação, e Borowski na esquerda, com missões de rompedor e passe nos últimos 20 metros, apoiando a dupla atacante Klose-Klasnic ou Valdez. O futebol alemão vive uma encruzilhada. Não só de geração, mas também táctica. Dois problemas que batem na sua mente como aquela falha metralha na cabeça de Wiese.