CÂNDIDO DE OLIVEIRA (1896-1958)

16 de Abril de 2005

O futebol latino sempre foi, entre todos, o que mais se preocupou com a abordagem estética do jogo. Na base do seu pensamento: a técnica e o passe curto. Dois pilares que cada país latino -Itália, Espanha, França e Portugal- iriam, depois, emoldurar nas suas distintas concepções sócio-futebolísticas. Nessa perspectiva, será que o futebol português tem alguma coisa de próprio, ao ponto de constituir um estilo, ou é, apenas, o decálogo latino temperado por uma ou outra linha caracterizante, como, por exemplo, o contra-ataque? Num exercício de selecção, revistando o caminho do futebol português até á explosão do fenómeno Eusébio, podemos, em cada década, vislumbrar um jogador símbolo. Anos 20: Pepe; Anos 30: Pinga; Anos 40: Peyroteo; Anos 50: Matateu; Anos 60: Eusébio. Recuando no tempo, visitando o inicio da caminhada da bola lusa, encontramos, um homem avançado no tempo: Cândido de Oliveira, olhado de lado pelo Antigo Regime, ele foi, na era antiga, a mão que embalou o berço do nosso futebol de inicio de século.

Com o seu saber e carisma, sempre de samarra e boina basca nos treinos e jogos, a bola lusitana ganhou forma e rompeu fronteiras. Pela sua pena descobrimos os quatro cantos do planeta do futebol. Foi com ele que em 1938, com o cheiro a enxofre a pairar no ar do Velho Continente, rumamos a Frankfurt para o nossa primeira visita ao feudo do poderoso futebol alemão, então, na alvorada da guerra, jogado de capacete nazi. Em Portugal, porém, vivia-se a paz dos cemitérios. Com o jovem Peyroteo, 20 anos, a estrear-se na selecção, o homem mais avançado no clássico sistema 2-3-5 reinante á época era o lendário avançado do FC Porto, Pinga. Foi ele o autor do nosso golo num empate a uma bola.

A concepção de Futebol de Mestre Cândido de Oliveira baseou-se no barro em que geneticamente consistia o futebolista português, historicamente de franco índice físico mas com grande habilidade natural para o jogo. A técnica, numa palavra. Tendo em conta estes elementos era imperioso libertá-lo de jogadas impostas previamente, explorando depois a nossa tradicional descontracção para criar um estilo de futebol baseado no passe rasteiro e curto. Em suma: a equipa com a bola, o jogador sem ela. Era a única forma de furtar o nosso jogador aos demolidores contactos físicos, nos quais, sairia, quase sempre, a perder. Como é evidente, este processo tinha o seu coração a meio campo. Enquanto para os anglosaxónicos este sector era, digamos, o espaço de viagem da bola entre uma área e outra, para nós, portugueses e latinos, era o ponto nevrálgico onde se activaria ou desactivaria, onde se estenderia ou encolheria, conforme se tenha ou não a posse da bola, o chamado futebol de harmónio.

CÂNDIDO DE OLIVEIRA1Quando em 1935, depois de frequentar um curso de treinadores em Inglaterra regressa a Portugal traz consigo na bagagem o novo sistema que nesse momento revolucionava o futebol de todo o mundo: o WM. Para a história, é, no entanto, o nome do argentino Oscar Tarrio, que se refugiara no nosso país fugido de França, juntamente com Scopelli e Tellechea, pouco antes do eclodir da II Guerra Mundial, quem consagra pela primeira vez o sistema no futebol português, ao serviço do Belenenses, na época 38/39. Mestre Cândido atravessou quatro décadas no comando da selecção tendo assumido o cargo pela primeira vez em 1926, acabando por se despedir em 1952, pelos quais se estendem três diferentes períodos, 1926-1929, 1935-1945 e 1952. Além disso forma com Ribeiro dos Reis e Fernando Vaz, um célebre trio que orienta a selecção em outros 38 jogos. Durante esse período também se destaca o nome de Tavares da Silva, que também ocupou o cargo de seleccionador em três ocasiões: 1931/1945, 1947/1951 e 1955/1957.

Nos anos 30, identificava-se, na Europa, com a escola escocesa de passe curto: Áustria, Checoslováquia, Hungria, Jugoslávia, e, claro, Escócia. Adoptavam o sistema inglês de passe longo, os restantes países, embora havendo neles algumas equipas mais do tipo escocês. Casos, citava-se, do Sevilha, em Espanha e do FC Porto, em Portugal. Era o tempo em que o futebol latino buscava referências para fundar a sua própria escola. Os pilares, depois de analisar o barro que moldava os seus futebolistas, seriam a predilecção pelo passe curto, por ser mais belo e exigir menor condição atlética. Um futebol desenhado pelos chamados jogadores de roda baixa, esquivos e pouco dados a duras lutas pela bola. Cândido de Oliveira tinha regressado há pouco de Inglaterra e, claro, logo vira que o poder de Cliff Bastin ou Hapgood, nada tinha a ver com a frágil malícia lusa de Pinga ou Vítor Silva Para fundar essa escola, com identidade própria, teve, como condição essencial, de desenvolver a capacidade técnica quanto ao controle da bola e ao seu comando nas sucessivas triangulações por todo o campo. Um futebol de médios, chamaram-lhe os críticos, embora, noutras nações latinas, outros factores -como a atitude competitiva, a fúria, em Espanha, ou a evoluída abordagem táctica, em Itália- tivessem melhor preenchido a totalidade do relvado.

Quando, em 1935, Cândido de Oliveira, escreveu o livro “Futebol, Técnica e Táctica”, distingiu, logo a abrir, duas grandes escolas europeias de futebol: a inglesa, do passe longo, e a escocesa, do passe curto. Trata-se, há distância de quase 70 anos, de um sublime ensaio sobre as origens do futebol moderno.