Cem anos de companhia

27 de Maio de 2008

Escreve Gabriel Garcia Marquez em Cem anos de solidão que José Arcadio Buendia não aceitava jogar ás damas porque nunca entendera o sentido de um jogo em que os adversários estão de acordo nos princípios. Há aqui algo de mais profundo do que apenas a menor devoção por um simples jogo. Há uma lição de vida. No fundo, das várias vidas que, cada um de nós, vive em…cada vida. Sim, este ainda é um texto sobre futebol. Ou sobre jogadores e equipas de futebol.

Personagens de um jogo maior que nunca estão de acordo nos princípios com que se defrontam. Defendem ideias diferentes e jogam o…mesmo jogo. Com os jogadores sucede o mesmo. Têm estilos, personalidades, formas de tocar na bola diferentes e, assim, dão vidas diferentes aos princípios com que iniciam o jogo. Em cada espaço, um comportamento. Em cada lance, uma forma de expressão futebolística.

Ver Ronaldo a treinar, brincando com a bola, decifra o princípio do seu jogo. O futebol natural. Depois, temos o jogo. O futebol fabricado. No jogo, o futebol e seu(s) talento(s) são, essencialmente, uma construção. O atleta é uma imagem demasiado curta para o entender. Como fosse capaz de ganhar um jogo sozinho. Como fosse um super-herói de desenhos animados. Um Popeye, um Tarzan, um Super-Homem. Leio uma entrevista com director de patologia da Universidade do Porto, Sobrinho Simões. Refere que todas essas personagens da nossa infância eram sobretudo físicas, no sentido da sobrevivência. O Popeye ganhava a tipos maior do que ele. O Super-Homem mudava o mundo. Speddy Gonzalez era muito rápido. A todos faltava inteligência comunicacional. O Tarzan era diferente. Tem um inicio selvagem, é criado por macacos e desenvolve uma estratégia comunicacional. Qual destes heróis estará mais próximo do jogador de futebol construído? O futebol, como jogo que começa natural, solista, e torna-se construído, em equipa, necessita sobretudo da evolução do Tarzan, salvo as devidas proporções antropológicas.

A plasticidade do jogo e o pensamento táctico. Ronaldo não ganha jogos sozinho. Nem perde. Nem quando faz um golo perto do céu na final da Champions. Nem quando falha dois pernaltas, na meia-final e final. A selecção é um novo território.

“Existe cérebro não necessariamente para escrever poesia ou apreciar musica mas porque é necessário coordenar a regulação do corpo num meio ambiental complexo”. Diz António Damásio mergulhando nos caminhos secretos da nossa existência. O jogador, em campo, vive no mesmo beco. Com ou sem saída. Coordenar o corpo para desenhar o jogo preconcebido na mente. Ou seja, comunicar futebol. O bom futebol, individual e colectivo, vive para lá do lado excessivo. Passa por aprender a comunicar, o jogador e a equipa entre si.

Hoje, todos têm relógios semelhantes. Mas, no relvado, como na vida, nunca é assim. “Porque às vezes produzimos um grande vale de lágrimas, às vezes produzimos a grandeza”. Digam lá se isto não é a história de um jogo de futebol? Digam lá se isto não é a história das nossas vidas?