CHELSEA-BARCELONA: Tão perto da perfeição…

12 de Março de 2005

CHELSEA-BARCELONA Tão perto da perfeição...

Na altura do canto que origina o golo decisivo, o Barça tinha sete jogadores (fora o guarda redes) na área, quatro com mais de 1,80m. O Chelsea tinha cinco. Antes da sua marcação, Terry fez o gesto a Duff (com a mão atrás das costas estendendo um dedo) para meter a bola num espaço mais recuado no enfiamento do primeiro poste. Canto apontado e o «arranha-céus azul» saltou, á vontade, cabeceando para golo. Perto dele, mas chegando atrasado, só Gerard. Bastou perder, num pestanejar de olhos, o contacto visual com Terry e ficou fora do lance. Mais que um detalhe, esta falha de posicionamento defensivo espelha a matéria que faz ou desfaz os grandes campeões no futebol actual. A emoção que assombrou Stanford Bridge abalou, no entanto, a ordem táctica dos dois onzes. A forma desastrada como o Barcelona entrou no jogo tem, sinteticamente, dois prismas de explicação: Primeiro, os erros básicos de posicionamento de cobertura dos seus laterais, sobretudo Van Bronkhorst, que tentou sempre segurar, por fora, Cole, dando-lhe, assim, sempre espaço para cruzar ou fintar para dentro. Na direita, Beletti perdeu muitas vezes o domínio do espaço frente a Duff. Reparem no terceiro golo, em que até o irlandês, então recebendo um passe vertical quase como se fosse um interior esquerdo, ficou de tal forma surpreendido com a falta de marcação que, já em corrida, chega a olhar para o lado, admirado por o brasileiro não ter feito a basculação interna para fechar em cima dele. Segundo, mais de estrutura global, sobre a falta de ordem e coesão na postura defensiva na zona de transição á frente da defesa, abrindo um espaço entre-linhas na chamada zona de criação, fruto de alinhar num 4x3x3 com dinâmica de 4x1x2x3, só com um trinco, com as linhas defesa-meio campo demasiado distantes, comprometendo a eficácia da marcação zonal, pois quando uma equipa, nesse sistema de marcação, corre toda atrás da bola, num lance de contra-ataque, está defensivamente morta.

CHELSEA-BARCELONA Tão perto da perfeição...Os inimigos só são grandes conforme o medo que nos provocam. Mesmo em vantagem na eliminatória, o Barça apostou sempre em ganhar ao cínico Chelsea jogando bem, com as linhas subidas e em circulação. 66% de posse de bola contra 34%. O futebol moderno tornou-se, no entanto, quase como um cemitério de sonhos. O Chelsea de Mourinho joga com o sorriso do diabo e personifica, na perfeição, essa lei da vida real. Para o combater e vencer, só com veneno da mesma essência, na posse das mórbidas equipas italianas. A forma como foge á pressão fazendo a bola mover-se em triângulos ou passes verticais inverte, num ápice, o sentido do jogo. António Gala, poeta espanhol, disse um dia que “toda a referência à beleza na nossa sociedade apenas provoca um sorriso indiferente desde que não seja lucrativa”. Quando o disse, não pensava, obviamente, em futebol, mas vendo o inglório destino da bela renda bordada com os pés e a bola que o Barça estendeu na relva de Stanford Bridge, é inevitável associar-lhe o pensamento. Por isso, o golo do outro mundo de Ronaldinho passará a ser como um objecto de culto dos devotos das causas perdidas...