Choque de gerações, um mito

08 de Fevereiro de 2007

Choque de gerações, um mito

Não acredito em choques de gerações. Acredito em homens avançados no tempo e em homens perdidos no tempo. Falemos de futebol. O pensamento sobre o jogo conheceu, através do tempo, diferentes contextos, mas os ensinamentos dos mestres, homens avançados no tempo, são sempre actuais. Nunca aceitei a divisão entre velhas e novas escolas. Quando sinto necessidade de aprender mais, busco esses mestres e livros actuais, modernos. Por exemplo? “Futebol, Técnica e Táctica”, escrito por Cândido de Oliveira, em…1935. Noutras ocasiões, vasculho em jornais velhos entrevistas de Pedroto nos anos 70, ou, então, releio passagens da Bíblia de Mourinho.

A terminologia altera-se com o tempo, mas, em cada época, ela serviu sobretudo para melhor sistematizar o conhecimento sobre o jogo e, com isso, criar uma filosofia própria, de jogo e treino. Desconfio da tese dos treinadores antes e pós-Mourinho. Ou seja, Mourinho enquadra-se apenas como a mais recente referência temporal de homem avançado no tempo a pensar futebol. Losango, linhas, transições ou triângulos. Termos modernos utilizados por Cândido de Oliveira: “em grandes lances, o jogo é organizado em triângulos, sistema e linhas de ligação”. O losango, outro termo novo, utilizado por Pedroto no Boavistão dos anos 70: “O meio-campo desenha-se em 1x2x1. É esta a figura geométrica, losango, que lhe dá a dinâmica” (ver quadros a seguir). O conceito-Mourinho inovador mais importante, foram as «transições». Entender que uma equipa nunca deve deixar de contemplar, simultaneamente, os diferentes momentos do jogo. Isto vale também para a observação cirúrgica do adversário.

Linhas e triângulos de Cândido de Oliveira (anos 30)

Choque de gerações, um mito“Em grandes lances, o jogo oferece aspectos de ser organizado em triângulos, colaborando estreitamente um ala com o médio correspondente ou os dois interiores com o médio centro, este sistema ganhou a designação de jogo triangulado ou de triangulação. No diagrama indica-se a formação habitual de uma equipa dentro de tal sistema e as linhas de ligação, ou seja, os passes habituais, como norma de jogo. A progressão no terreno, por regra, é feita pelo regresso da bola ao médio que está no vértice do triângulo voltado para o próprio campo” Segue-se, depois, o esquema reproduzido em cima, com triângulos desenhados ao longo de todo o campo numa equipa com cinco linhas. Cândido de Oliveira em “Footbal Técnica e Táctica”, 1935.

O losango de José Maria Pedroto (anos 70)

“Os sistemas não se inventam, mas funcionam sempre do meio-campo para a frente em função das características dos jogadores de que se dispõe. O 4x4x2 valeu ao Boavista um quarto e um segundo lugar e duas Taças de Portugal. No seu aproveitamento racional e da dinâmica que sob o ponto de vista físico e táctico eles possam proporcionar, resulta a expressão adequada de um tipo de futebol. Numa análise detalhada, o quatro do meio-campo do Boavista definia-se num 1x2x1. Esta era realmente a figura geométrica (losango) que ressaltava a todo o momento da dinâmica de jogo que esse quarteto impulsionava” Pedroto, em entrevista a “A Bola”, 1977.

O “maior dos ladrões”

Rejeito a teoria da nova vaga de treinadores em oposição aos da velha guarda. Há os querem aprender mais sobre futebol e há os que, não acompanhando o pensamento vanguardista, sem data, inventam divisões entre intelectuais deChoque de gerações, um mito futebol, em geral licenciados sem passado como jogadores, e os chamados homens do balneário, saídos do campo para o banco. Não faz sentido. O futebol é um ecossistema onde cabem todos. Capello diz que o melhor treinador do mundo é o maior dos ladrões. “Porque esforça-se sempre em aumentar os conhecimentos. Vejo jogos ou treinos e procuro sempre roubar qualquer coisa. Quando era jogador, roubei e aprendi com todos os treinadores. Roubei a Herrera a ideia de intensidade do treino, a Liedholm que nunca se sabe tudo sobre técnica” É contactando com estes homens, directamente ou pelos seus escritos, que se aprende a pensar futebol. Ou seja, no fundo, os que, enquanto jogadores, tiveram consciência disso, acabaram, indirectamente, também por se licenciarem, na Universidade da relva e do balneário. Ter sido jogador é importante, mas só como base para construir o conhecimento.

No livro Futebol Total (1975), Kovacs dizia que, no inicio, perguntava se era necessário aprender pedagogia, fisiologia, biologia, etc, quando tudo não passava de dar pontapés numa bola. O tempo iria o esclarecer: “Hoje afirmo que o faz o treinador moderno e lhe permite julgar os diversos aspectos do futebol, é o valor e força da sua bagagem e não a qualidade do jogador que foi”. A modernidade não perde actualidade mesmo com a distância de 30 ou 70 anos.