Ciência, Utopia e Instinto

06 de Fevereiro de 2006

Ciência, Utopia e Instinto

Futebol: Desporto ou Ciência?

A um líder exige-se que nos leve por caminhos e a destinos que só ele conhece. Mais do que uma equipa de futebol, o Chelsea é hoje uma máquina conduzida por um homem que mudou a face do futebol inglês. A superior cultura táctica revelada em relação aos adversários, cavou um abismo entre o onze de Mourinho e os seus mais directos rivais ainda presos aos seculares desequilíbrios defesa-ataque do tradicional futebol britânico. Numa análise sintética, a base para este demolidor domínio de Mourinho no futebol inglês resume-se em duas palavras: ensinou-os a defender! Foi esse o caminho que só ele conhecia e desbravou, com o seu Chelsea, no desequilibrado mundo do chuta e corre dos relvados ingleses. Realista, o futebol moderno já provou que as verdadeiras equipas de top são acima de tudo aquelas que sabem defender melhor, fundindo as duas fases defesa-ataque, até que elas sejam apenas uma só, quase impossíveis de distinguir. É o que faz o Chelsea de forma perfeita.

O facto de o fazer num país ainda preso a conceitos tácticos desenquadrados desta realidade, deu-lhe rapidamente uma vantagem esmagadora sobre os adversários. Como prova desta ideologia que mecaniza a imaginação, Mourinho resolveu, neste mercado de Inverno, contratar mais um jogador que sabe como poucos colocar em prática este conceito: Maniche. Em vez da criatividade que por vezes a segunda linha do seu meio campo carece perante adversários mais fechados, Mourinho optou antes por adquirir mais um queima-linhas que joga de área a área. Em vez de imaginação, mais táctica. Existem, naturalmente, outras formas de tentar ganhar, mas mais nenhuma terá uma base tão científica como a de Mourinho e da sCiência, Utopia e Instintoua empresa técnica, onde estão, sempre a seu lado, o fiel Rui Faria que desmontou o mito dos picos de forma e o espião André Vilas Boas a quem só falta ler a alma dos adversários. Por isso, Drogba dizia, há dias, que Mourinho era quase como um Deus do futebol que adivinha as coisas que se iriam passar logo a seguir. Quando entram em campo, os jogadores do Chelsea mais do que o seu sistema táctico, conhecem o do adversário talvez até melhor do que eles próprios. Futebol, talvez seja um desporto. Para Mourinho, é uma ciência.

Barcelona: A utopia dos mitos

De um lado, Puskas, Gento e Di Stefano; Do outro, Deco, Eto`o e Ronaldinho. O Real Madrid dos anos 60, e o Barcelona de 2006. A ligar estas duas épocas tão distantes, um feito só ao alcance de equipas do outro mundo. O maior número consecutivo de vitórias na Liga espanhola. Um record na posse do Real desde a longínqua época de 60/61 quando venceram 15 jogos sem parar. Agora, 45 anos depois, o onze de Rijkard ficou a apenas uma vitória de atingir a mesma marca.

O feito poderia ter acontecido na noite de domingo, frente ao Atlético de Madrid. Perdeu. Mas, teria sido justo este encontro com a história? Num futebol feito de treinadores e jogadores submissos, o actual Barca é quase como um grito de iCiência, Utopia e Instintoronia que atravessa o tempo. Tudo é visão, técnica, imaginação e inteligência. Quatro elementos que são a matéria prima da táctica. O instinto e a coragem de tentar ganhar jogado sempre bem. Alguma vez então a beleza poderá ser perdedora? A pergunta faz sentido vendo como o futebol moderno se tornou, muitas vezes, quase como um cemitério de sonhos. Ronaldinho é um talento fascinante que faz da bola o que quer. Messi tem a elegância intemporal dos esquerdinos. Eto`o inventou outra dimensão do espaço e do remate. A tarefa de Rijkaard será a de tornar útil toda esta beleza. É onde entra a táctica que protege a técnica. Há tempos, Di Stefano dizia que dantes as equipas defendiam e atacavam. Agora, defendem e defendem. Uma reflexão nostálgica e fatalista que este Barça, mais do que qualquer outra equipa da actualidade, contraria a cada noventa minutos. O bom futebol depende, no fundo, da velocidade de pensamento.

A defender e a atacar. O equilíbrio nasce, então, dos jogadores tácticos que protegem os mágicos. O Barcelona entendeu por fim essa diferença. Por isso, Ronaldinho ou Eto`o (que não jogaram frente ao At.Madrid…) são hoje muito melhores jogadores do que antes porque têm nas suas costas relógios da recuperação e passe como Deco ou Xavi. Há quem acredite que o futebol começa na técnica. Outros crêem que começa na táctica. Eu creio que começa na inteligência. Como diria Cruyff, é um jogo para ser jogado com a cabeça. Por tudo isto, teria sido justo este encontro com o mítico Real dos anos 60.

África: Uma paixão proibida

Na entrada para as meias-finais da Taça de África, não restam dúvidas que as mais fortes selecções africanas não vão estar presentes na fase final do Campeonato do mundo. Entre os mundialistas, depois da eliminação de Angola, Togo e Ghana logo na primeira fase, caiu a Tunísia e só resta a Costa do Marfim. O império de Drogba derrotou o exército de Eto`o, o craque dos Camarões com orelhas grandes e dentes de coelho que, tal como a Nigéria e o Senegal, também não irá estar no próximo verão na Alemanha. Mais do que indicar uma maior igualdade no cenário do futebol africano, esta fatalidade prova afinal como foi a fraca aplicação e até arrogância dos mais poderosos a abrir caminho ás surpresas. Habituadas aos luxos dos relvados europeus, as grandes estrelas africanas desprezaram as viagens para joCiência, Utopia e Instintogar em terrenos de terra revolta de muitos estádios do continente negro. Os traços europeus são cada vez mais evidentes na forma de jogar das mais fortes selecções africanas, mas, em termos estruturais, elas continuam encurraladas numa galáxia distante. De todos os choques entre os clubes europeus e as selecções africanas uma certeza fica: África tem identidade própria. Por isso, terá de ser dona do seu destino. Para progredir, a todos os níveis, nunca mais poderá ser comandada do exterior.

Entre as surpresas mundialistas, Angola, muito longe do chamado ritmo internacional, passeou no Egipto a leveza do seu futebol. Tecnicamente interessante, mas tacticamente pobre. No pólo oposto, a Costa do Marfim provou como África é um lugar ideal para emoções. O seu jogo tem filosofia própria e disciplina táctica importada de França, mas os movimentos de Drogba, Kalou ou Dindane são ainda ditados pelo instinto Há quem pretenda descobrir todos os segredos do futebol. É uma missão impossível. Fala-se de África como se fala de uma mulher por seduzir, de uma paixão proibida. Fala-se do seu futebol como um diamante em bruto, finalmente a ser lapidado. Como dizia John Fashanu, «Dá-se a bola a um miúdo branco e diz-se-lhe: ok, vamos treinar-te. Dá-se a mesma bola a um miúdo negro e diz-se-lhe: Joga!»