COMO CONSTRUIR UMA PERSONAGEM EM 90 MINUTOS

05 de Junho de 2007

Pensando no protagonista de um filme com noventa minutos… A construção de uma personagem, missão criativa

Leio uma entrevista de Penélope Cruz onde ela fala de como construir uma personagem, dar-lhe alma e captar bem a sua essência. Como o papel era de uma mulher de aspecto vulgar. Teve de construir a sua forma de andar. Como se trata uma emigrante albanesa em Itália, teve de estudar o idioma e o sotaque. Para o captar melhor, gravava tudo numa fita e ouvia, ouvia, repetia, repetia. É uma construção conjunta com o realizador, mas tem muito de trabalho isolado. Solitário. Só buscando interpretações mais complexas e extremas é possível evoluir. Um jogador de futebol também passa por processos semelhantes na construção da personagem que representa em campo. Trabalha com o treinador, mas depois há o trabalho solitário. Como ficar, após o treino, sozinho, a ensaiar remates. Livres, em arco ou no ângulo. Robert de Niro também dizia que na construção de qualquer personagem, primeiro era selvagem e excessivo. Só depois, preciso e controlado. O futebolista cada vez mais se afasta destes princípios. Altera-os, mesmo. E, com isso, deixa de fazer sentido, quer o papel que representa em campo, quer a sua essência individual. Em ambos os casos, fala-se em criar hábitos sem os tornar mecânicos. Fala-se em colocar a criatividade na tarefa que se tem de cumprir. O treinador ou o realizador definem o guião. O jogador ou o actor descobrem o caminho.

O futebol de Simão: Penso, logo existo

COMO CONSTRUIR UMA PERSONAGEM EM 90 MINUTOSNo futebol actual, há um aspecto que cada vez se torna mais evidente no decorrer dos jogos: os jogadores deixaram de pensar. Preocupam-se apenas em cumprir a sua missão. Terminar os 90 minutos sem cometer muitos erros, marcar e passar bem, mas sem muitos porquês. “Jogo onde me manda o treinador”, costuma dizer o jogador como se isso fosse um prova de fidelidade e profissionalismo. Pura ilusão. Quanto mais um jogador se afastar do porquê que está a jogar daquela maneira, porquê o treinador optou por aquela solução, quanto mais se afasta do jogo. Para pensar está o treinador. Para jogar, está o jogador. Errado. Jogar bem futebol é saber que cada gesto em campo tem subjacente uma ideia colectiva do «jogar». O bom futebol começa na cabeça e acaba nas chuteiras. É por isso que quando se encontra em campo um jogador que sabe sempre colocar as questões e dar-lhe as respostas certas, o relvado parece que se ilumina. É por isso que quando vejo jogar Simão, os jogos logo parecem melhores. O principio do bom futebol: Penso, logo jogo bem.

Pauleta: Sem mexer no cabelo

COMO CONSTRUIR UMA PERSONAGEM EM 90 MINUTOSO melhor marcador da selecção portuguesa de todos os tempos nunca jogou no principal campeonato português. Não é, convenhamos, uma situação normal. O próprio também pensa assim. Quando João Alves o descobriu no Estoril, esteve quase a levá-lo para o Belenenses, mas, como o «luvas pretas» foi para Salamanca, logo levou consigo o então anónimo açoriano goleador. Nunca mais voltou. Não é daqueles avançados que empolga multidões logo ao primeiro olhar. Não usa cabelo comprido, brincos, bandoletes ou outros adornos. O mesmo penteado, curto, toda a carreira. O mesmo discurso. Sempre com sotaque dos Açores. Sempre a mesma pose. Tranquila. Quer caminhando isolado para a baliza, quer com uma bola de queijo na mão num anúncio televisivo. Há várias formas de construir uma carreira, mas esta discrição choca com as estratégias de imagem do presente. Posto isto, só restava uma outra estratégia para dar nas vistas. Marcar golos. Foi o que Pauleta fez. Era bom que, pelo menos o último, fosse num relvado mais perto de nós.