Como construir uma equipa, em busca de novos heróis

07 de Julho de 2008

Como construir uma equipa, em busca de novos heróis

Bastava falar pouco tempo com ele, para perceber que Barbosa era o que chamava um “homem bom”. Mesmo assim, passou os seus últimos anos, décadas mesmo, caminhando lentamente todos os dias junto á praia grande de Santos com o olhar nostálgico de quem parecia ter vivido duas vidas, Muitas vezes, vertia lágrimas de desgosto, olhos nos olhos com a tristeza. Ele era o guarda-redes do Brasil no jogo final do Mundial de 50. Em pleno Maracanâ a onze minutos do fim, o uruguaio Gigghia entrou na área pelo lado esquerdo e com um remate bateu Barbosa, roubando o título ao “escrete canarinho”. Os anos passavam e Barbosa recordava sempre o golo como se o tivesse sofrido ontem. Quando procurava abstrair-se, surgia sempre que o fazia recordar. Uma vez, já nos anos 80, uma velha mulher com o seu pequeno neto pela mão reconheceu-o numa loja e disse-lhe, meia curvada, apontando para ele de dedo em riste: “Olha, foi aquele homem que fez chorar milhões de brasileiros...”.

O treinador dessa equipa, curiosamente, passou à história quase incógnito. Esta constatação diz muito de como o futebol mudou, no sentido de hoje as equipas, ao contrário de antigamente, serem mais dos treinadores do que dos jogadores. Falava-se no Brasil de Zizinho ou no Real de Di Stefano. Agora fala-se no Brasil de Parreira ou no Chelsea de Mourinho. Mas, o treinador da derrota de 50 era Flávio Costa. E sobre o sucedido, perder em casa do Mundial quando ninguém esperava, teve uma explicação lapidar: “Foi o imponderável que liquidou todas as nossas pretensões”. Acho que é das explicações mais fantásticas da história do futebol. Tácticas, falhas de marcação, mérito do adversário, o guarda-redes? Não. O imponderável. Mas existem formas de dominar o imponderável? Talvez.

Tudo isto lembra-me outra história, sobre outro velho treinador brasileiro, o “pretão” Tim, que um dia pegou numa equipa que não jogava nada e andava pelo fundo da tabela. Pois bem, o velho Tim pegou na equipa e ela salvou-se. Sofreu muito, é certo, mas salvou-se. No ano seguinte, então, até jogava bem. Tão bem que chegou ao primeiro lugar. Os analistas ficaram loucos com a proeza. Procuraram Tim e perguntaram-lhe ávidos de descobrir o segredo. –“Tim, como é possível ter pegado numa equipa com mais de 80% de jogadores “pés-tortos” e só 20% com alguma qualidade e dar esta volta fantástica de um ano para o outro?”. Tim coçou a cabeça e respondeu: “ Simples. Limitei-me a trocar as percentagens de pés-tortos por jogadores de qualidade”.

Muitas equipas, por toda a Europa, também estão a fazer agora as suas equipas. A escolher jogadores. Seja como for, a única estratégia que eu conheço para combater o “imponderável que liquida as nossas pretensões”, é seguir o conselho do velho Tim. E o guarda-redes é muito importante nisso. Mas não ao ponto de o manter, quando falha, pendurado numa corda o resto dos seus dias.

Tudo isto são realidades puras. Tudo isto são metáforas sábias. Na moral de todas estas histórias, de heróis e vilões, está o segredo para construir uma boa equipa e saber reagir aos dois grandes impostores que, no futebol como na vida, nos seguem por toda a parte: o êxito e o fracasso.