«Conta-quilómetros» na bola

26 de Novembro de 2007

«Conta-quilómetros» na bola

Cada vez existem mais tentativas para decifrar os segredos mais profundos de um jogo de futebol. A informática não descansa nessa cruzada. Terminam os jogos da Champions e surge uma série de dados estatísticos. Remates, cantos, posse de bola… e, nos últimos tempos, um novo dado: os quilómetros que durante os noventa minutos cada jogador correu! É difícil encontrar dado estatístico mais absurdo e inócuo do que este. Em vez de quanto correu o jogador o que devia surgir era quantos quilómetros correu a bola impulsionada por acção desse jogador. Entre correr mais e correr melhor vai uma diferença abismal.

Dentro de um campo de futebol a velocidade adquire uma forma de vida muito específica. Nos anos 80, o grande ícone da velocidade no atletismo foi o americano Carl Lewis. Ao mesmo tempo, nos relvados, passeava um poeta dinamarquês, Laudrup. Quem era mais veloz Lewis ou Laudrup? Numa pista de atletismo, Lewis, sem dúvida. Num campo de futebol, Laudrup, claramente. A questão deverá ser, portanto, a que máxima velocidade consegue um jogador correr tendo a bola dominada ao mesmo tempo. Laudrup foi dos jogadores mais rápidos que vi em toda a minha vida. Nos treinos, porém, em corridas em linha recta com os colegas, era quase sempre dos últimos a chegar. De que serve, portanto, a potência, velocidade e resistência, sem qualidade, precisão e inteligência? Um atleta chega à meta e acabou. Para o futebolista a meta é a bola. E é a partir daí é que começa a jogar. Confesso que assisti com mágoa à queda da Inglaterra frente à Croácia, na passada semana.

A razão era simples: o Euro-2008 ia perder dos jogadores que melhor fazem essa união entre a velocidade e a bola. Rooney, um metralha do futebol, e Walcott, este um litle boy que jogou pelo onze Sub-21 contra Portugal. A sua capacidade de conduzir a bola em velocidade, tocando-a, tocando-a, à medida que vai serpentando pelo campo, confundindo adversários que não descobrem o timing certo de meter o pé para o desarme pois quando pensam ser o momento de o fazer, ele dá-lhe mais um toquezinho e segue acelerando, é um tratado de conexão bola-jogador. Depois, trava na hora certa. Na história do futebol há outro lance que espelha divinamente essa união ente um homem e uma bola em velocidade. É o arranque de Eusébio desde o meio-campo no lance que dá o penalty do quarto golo de Portugal contra a Coreia no Mundial 66. No futebol, portanto, velocidade só a da bola e a dos jogadores com ela em posse. Mais do que colocar um conta-quilómetros num jogador, devia-se colocá-lo na bola e, no fim, ver qual das equipas a fez correr mais. Um dado para perceber o que é jogar bem. Aqui fica o meu supremo desafio para os meios tecnológicos.

A arte do fora-de-jogo

«Conta-quilómetros» na bolaO bom futebol tem várias formas de expressão. Para lá dos passes de morte, tabelas e dribles, existe um gesto colectivo que, sem a bola, simboliza um dos momentos mais inteligentes. É quando a linha defensiva lê os movimentos (passe-desmarcação) do adversário e, subindo no terreno, coloca-os astutamente em fora-de-jogo. É quase um bailado com os jogadores a ir em sentido inverso. Tem tanto de maquiavélica como de bela. Historicamente, esta reflexão remete-nos para o Milan dos anos 80/90 sob a batuta de Baresi. Olhava para o lado e quando os laterais estavam de perfil, dava a ordem e todos avançavam sincronizadamente. Na linha lateral, uma bandeirinha erguia-se: Fora de jogo! De cada vez, nos grandes planos, quase que se via um discreto sorriso trocista do catedrático libero italiano. São cada vez menos as equipas que o fazem com essa qualidade no futebol de top. Tal diz muito da sua forma de defender. Para fazer o fora-de-jogo é preciso jogar com o bloco subido, defender alto. Tal implica correr mais riscos.

Nesse sentido, saber fazer o fora-de-jogo, usando-o como arma para travar o adversário, em vez de choques e marcações apertadas, é o corolário máximo do principio de defender bem para atacar melhor.