Dançando com a bola, o futebol como ballet

31 de Maio de 2007

O futebol é uma linguagem universal com vários dialectos corporais. Cesc Fabregas e Tamara Rojo vivem os dois em Londres. Espanhóis famosos na capital da Velha Albion. Ele é futebolista do Arsenal. Ela é primeira bailarina do Royal Ballet. Podem parecer que vivem em mundos muito distantes. Futebol e dança. Mas estarão estes dois universos assim tão separados? O que faz do futebol a sua linguagem universal é a expressão corporal dos seus intérpretes.

Cada qual com o seu estilo. Quando Cristiano Ronaldo arranca desde a sua área até à adversária, a sua cumplicidade em velocidade com a bola, combina dança, força, alma, técnica e instinto. Fabregas, mais cerebral, em vez da velocidade pura, esquiva-se ao choque. Dança mais com pensamento do que com o instinto. Nunca tinha visto um espectáculo de ballet na sua vida. Tamara também nunca vira um treino de futebol. Quando o fazem, conhecendo balneários e diferentes equipamentos, entendem como são mundos que se tocam. Os dois baseiam todo o seu trabalho com o mesmo instrumento corporal, os pés. O futebolista com chuteiras.

A bailarina clássica com umas sapatilhas próprias. Em ambos os casos desenhadas em modelos personalizados, para os seus pés. Tamara treina nove horas por dia. Cesc, menos, hora e meia. Diferente, o tratamento das lesões. Para uma bailarina partir o metatarso, não é nada. Para um futebolista afasta-o por meses. Rooney ia perdendo o Mundial por causa disso. Nessa altura, nos vestiários do Royal Ballet, conta Tamara que as bailarinas riam-se da gravidade dessa lesão. Toda esta história faz-me viajar ainda mais pelas belezas secretas do futebol. Mozart, Simply Read ou Pixies. Cada jogador terá sua banda sonora. Aí está a dança. Com a bola. O maior elogio que vi fazerem a Cruyff foi quando o definiram como «Nureyev do futebol».

Dançando com a bola, o futebol como balletHá pouco tempo, conversando sobre Cristiano Ronaldo com figuras destacadas do nosso futebol, falou-se forma estranha dele correr. Com os pés meios para fora, quase como Chaplin jogando futebol em projecção ainda mais acelerada, como um pato gigante com bola. Faltou ensinar-lhe a correr quando miúdo para ser ainda melhor, ouvi. Estranho. Garrincha era o desequilibro perfeito a jogar futebol.

Um enigma para muitos médicos para quem ele nem devia poder andar, quanto mais correr e fintar. Era a negação do corpo de atleta. Mas ninguém fintava melhor do que ele. Existe uma forma cientificamente correcta de correr? Só existe uma forma certa de dançar? Talvez, mas cada um fabrica a sua, cada um descobre a sua fórmula certa. Única. De forma selvagem. Não se trata aqui de movimentos tácticos ou cenográficos. Fala-se de dançar com a bola, onde os impulsos corporais devem fluir cruzados com o atrevimento individual e o instinto do talento. Garrincha tinha o joelho esquerdo virado para o lado de fora e o direito virado para dentro. Oscar Scaglietti, médico desse tempo opôs-se ferozmente a que ele fosse operado: “Eu até recomendo uma cirurgia, mas só depois dele abandonar o futebol. Antes isso, tal só poderia comprometer seus dribles maravilhosos”. Recordo esta história e penso no nosso mágico. Ok, ensinem Cristiano Ronaldo correr, mas só depois de deixar de jogar. Agora, essa correcção só podia comprometer o seu futebol maravilhoso.