De Boa Morte a Hugo Viana, verdade ou consequência

26 de Julho de 2007

De Boa Morte a Hugo Viana, verdade ou consequência

A velocidade é uma boa forma para entender um jogador. A capacidade de entrar nos vários ritmos de jogo, acompanhar as suas mudanças e adaptar-se a novas realidades. Se tudo isto pode acontecer dentro de um único jogo, mais evidente se torna quando se muda de país e trocam-se os cálidos relvados portugueses pelas vertigens dos estádios espanhóis ou, sobretudo, ingleses. É o momento chave para entender a dimensão internacional de um jogador. As últimas épocas proporcionaram muitos casos de estudo. Uns bem sucedidos, outros nem tanto.

Pensemos no futebol inglês para lá de Cristiano Ronaldo. Antes dele, há um jogador que também saído de Portugal ainda muito novo, 19 anos, mas quase incógnito, conquistou na «Velha Albion» um respeito imenso: Luís Boa-Morte. Hoje, perto dos 30, não é exagero dizer que Boa Morte é mais, no estilo e no carácter, um jogador inglês do que…português. Para o bem e para o mal. A sua adaptação ao tradicional estilo tradicional inglês, no qual cresceu desde a chegada ao Arsenal até ás 7 épocas passadas no kick and rush -chuta e corre- do Fulham é tal que, quando chega à selecção, quase parece desenquadrado do ritmo mais apoiado e técnico do futebol lusitano.

O seu jogo sente, claramente, a falta da agressividade competitiva que o inspira e molda durante todo o ano em Inglaterra. Em vez de toque e desmarcação, Boa Morte gosta de passada larga, velocidade e lances divididos. Nesse habitat, é um jogador fantástico. Fora dele, parece viver o jogo quase com indiferença. Vários aspectos contribuem para o processo de adaptação de um jogador a outro país, cultura social e futebolística, no plano humano e no táctico. Petit, médio francês campeão do Mundo em 98, conta que quando chegou a Inglaterra, ao Arsenal, vindo do Mónaco, ficou assustado no primeiro impacto. Na sua memória ainda está a dura entrada do gigante Carlton Palmer num dos seus primeiros jogos contra o Southampton.

Quando à noite, com a perna toda marcada, regressou ao hotel, a sensação que tinha era a de ter jogado contra Jackie Chan, o especialista em artes marciais das tartarugas ninja. Com o passar do tempo, aconselhado por Wenger, mais psicólogo que treinador, e analisando a atitude de Paul Ince ou Roy Keane, foi adquirindo o fighting spirit, espírito lutador, segredo das grandes equipas britânicas. A capacidade de entender os diferentes ritmos de jogo, mais rápidos, e ocupação dos espaços, mais curtos, é, no entanto, o grande factor de decisão nessa adaptação a outro futebol. São também, desde logo, factores cruciais no processo de aculturação do jogador sul-americano ao futebol europeu.

De Boa Morte a Hugo Viana, verdade ou consequênciaNo pólo oposto a Boa Morte, existe o caso de Hugo Viana, médio cerebral que quando despontou no Sporting parecia destinado a ser um dos grandes médios do futebol português na década seguinte. Visão de jogo, passe e remate. Um estilo que cativou o Newcastle. Em Inglaterra, porém, todo aquele jogo deixou de ter tempo para pensar. Sem conseguir acelerar os seus processos de recepção, leitura e passe, os jogos começaram a passar-lhe ao lado. O seu futebol nunca «encaixou» na cultura e nos novos rimos e espaços do futebol inglês, acabando por partir sem glória. Em Espanha, embora em menores proporções, o problema repete-se. Numa posição semelhante, mas com outra astúcia e decisão a gerir a posse de bola, passe e desmarcação, Pedro Mendes é um caso de sucesso em Inglaterra. Tottenham e Portsmouth. Conservou os seus traços lusos e acrescentou-lhe intensidade competitiva. Vê-se quando recebe a bola como o seu corpo está sempre em tensão. Não relaxa um segundo. Como se de cada bola, de cada jogada, depende o destino de jogo. Custa-me entender como a selecção continua sem explorar as suas qualidades.

De Boa Morte a Pedro Mendes, passando por Hugo Viana, cada jogador de futebol tem o seu habitat próprio. Quer em termos de posição, quer, sobretudo, em termos de estilo de jogo. Por isso, os jogadores multiculturais são verdadeiras «pedras preciosas» dentro do cenário de globalização do futebol moderno. Entender os diferentes ritmos e espaços. O resto, é fazer a bola correr.