De Van Gaal a Adriaanse

21 de Abril de 2006

De Van Gaal a Adriaanse

A partir desse momento, a construção da equipa – e do plantel- deverá ser feita tendo em conta essa referência, de forma a permitir por em prática a sua filosofia de jogo, sistema e táctica. Não faz sentido, um treinador alterar o seu modelo de jogo de equipa para equipa em função dos jogadores. Tal só significaria falta de personalidade táctica e, até incoerência ideológica.

Aceitando uma realidade dessas, o treinador, no caso de insucesso, seria condenado sem defender as suas ideias, mas sim por aplicar as dos outros, esses sim os principais responsáveis –dirigentes ou administrações- que, impunes, limitam-se a despedir o treinador, fugir ás suas responsabilidades, e contratar outro técnico, quase sempre com um modelo completamente diferente. Este cenário sucede todas as épocas, em vários clubes e nele está a razão para a maioria dos incussesos de muitas equipas de quem até dizem ter bons jogadores. É verdade, até, muitas vezes, só que esse talento não existe no vazio, para ser aplicado necessita de moldura táctica-técnica –modelo de jogo- capaz do potenciar. A confusão de competências que cruzam os actuais departamentos de futebol – presidente da SAD, director desportivo, treinador- impede muitas vezes, sem uma articulação correcta, a construção de uma ideologia comum que respeite os princípios atrás referenciados. No fundo, a ultima palavra deveria pertencer sempre ao treinador, e isso, na maioria das vezes, não acontece. Como é possível então julgá-lo depois pelos resultados se ele não teve condições para por em pratica o seu modelo? Ou seja, é condenado pelas ideias dos outros. Muitas vezes, porém, mesmo com sintonia de ideias desde o primeiro dia, não é possível encontrar todas as condições –entenda-se jogadores- para colocar em prática esse modelo de jogo. Nesses casos, o treinador terá de procurar novos equilíbrios, capaz de conciliar as suas ideias com as limitações presentes.

De Van Gaal a AdriaanseProcurando um caso particular, esta situação é clássica quando treinadores rumam a países com culturas tácticas muito diferentes. É o caso dos treinadores holandeses. Sucedeu, por exemplo, com Van Gaal em Barcelona, sucedeu, esta época, com Adriaanse no Porto. Quer um como o outro sempre preconizaram o 3x4x3 como modelo preferencial. Chegaram a trabalhar juntos nele, aliás, no Ajax, entre 92 e 96. Van Gaal na equipa principal. Adriaanse no centro de formação. No final, o Ajax tornou-se um modelo do jogar em 3x4x3, ganhou a Champions com esse sistema, com um golo marcado por um miúdo saído, poucos meses antes, da escola de Adriaanse, Kluivert. Passaram onze anos desde essa data, e ambos continuam, em locais diferentes, fieis aos seus princípios de jogo e opções tácticas. Pode-se discordar, amar ou odiar, mas é isto que faz, na essência, um grande treinador: a coerência com um modelo de jogo. Ganhar ou perder com ele, mas defendê-lo e aplicá-lo com convicção.

De Van Gaal a AdriaanseQuando rumaram a Espanha e Portugal ambos tiveram, no entanto, dificuldades em colocar em prática o seu modelo logo de inicio. Van Gaal viu que o seu sistema não tinha de imediato aplicação em Barcelona pois necessitava que todos os jogadores estivessem educados para jogar nele, interpretando as suas dinâmicas de transição defesa-ataque-defesa. Face a isso recuou estrategicamente, aproveitou o que o seu sucessor –nesse caso Bobby Robson- tinha feito, e, ao mesmo tempo, foi educando os jogadores para, mais tarde, jogar no seu modelo. Como? treinado princípios de jogo que embora primeiro apontados para ser usado no sistema, digamos, intermédio, também pudessem ser, mais tarde, aplicados no seu 3x4x3. A grande nuance esteve, então, na acção dos laterais. Ferrer, Reiziger, Bogarde, Sergi. Antes, na defesa a «4» podiam atacar até á linha adversária. Depois, com defesa a «3», limitavam-se a quase nem passar do meio campo, só se aventurado, esporadicamente, um deles.

De Van Gaal a AdriaanseFoi um pouco o que também fez Adriaanse no Porto. Nas suas anteriores equipas (Az, Ajax, Willem II) também jogara sempre neste sistema. No Porto, treinou esses princípios de jogo desde o inicio, mas como viu não ter jogadores educados para o interpretar na pleinitude desde o inicio, fez o mesmo recuo estratégico. Todas as dinâmicas e princípios treinadas nesse período já tinham subjacente, porém, educar os jogadores para, mais tarde, aplicar o 3x4x3 (ou 3x3x4) e seu verdadeiro modelo. Pensem nas permanentes subidas do lateral esquerdo César Peixoto, que também deixava a equipa na transição ofensiva só com três defesas, e como a então debatida posição de Postiga, falso 10 atrás do ponta de lança, reflecte exactamente os mesmos princípios de movimentação hoje feitos por Adriano e McCarthy Para um treinador, mesmo após despedido, sair com a consciência tranquila, só se antes tiver perdido com as suas convicções e não com as dos outros. O argumento demolidor das vitórias calou os críticos e Adriaanse ganhou duas vezes. Antes de jogar e depois de jogar. Faz lembrar uma história de Sacchi, quando um treinador, pressionado pelos resultados e decisões, desabafou com ele: “Decidi tirar um jogador que era intocável para o público e a imprensa. Agora, se perder, perco duas vezes. No campo e fora dele”. Sacchi escutou e disse-lhe: “É verdade. Mas se fizeres o contrário do que pensas, perdes antes de jogar!...”