«Disneylandia» do futebol

08 de Abril de 2007

Em 1983, no grande Hamburgo campeão europeu, havia um ponta-de-lança que assustava só pelo seu poderio físico. Hrubesch, um panzer que arrombava as defesas adversárias. Era um gigante (1,91m.) mas ao lado de outro monstro dos tempos modernos até pareceria normal. Tem menos onze centímetros que Zigic, a girafa sérvia de 2,02 metros que joga em Espanha, no Santander.

O motor do sucesso tanto pode ser o talento por si mesmo como a capacidade de ser diferente em campo. Na atitude, na inteligência ou apenas, pela lei da natureza, na constituição física. É preciso, no entanto, aprender a manejar essa condição atlética quase só ao alcance de um cartoon. Em Aaalesund, na Noruega, habita outro bom gigante. É Tor Ogne Aaroy, ponta-de-lança do Aalesunds FK. Mede 2,04. O jogador mais alto da Europa. Passeia pelo relvado falando com os pássaros mas nunca lhe deram muita importância. Já tem 30 anos e nunca teve grande intimidade com a bola. Sem isso, a diferença é apenas de banda desenhada. Ainda esta semana, vimos outro gigante desengonçado que, nas últimas épocas, encetou um processo de lapidação corporal notável: Peter Crouch. 1,98m. Quando recebe a bola abre os braços, pernas largas, cobre a bola, arranca com ela, domina e remata. O mais impressionante deixou de ser a sua compleição física por si só, para ser a sua impressionante coordenação de movimentos com a bola, algo invulgar para um jogador tão alto. Ou seja, aprendeu a explorar a sua diferença física em campo e tornou-se um avançado capaz de assustar não só velhos e crianças como também o mais duro e credenciado defesa-central. Estes homens, Zigic ou Crouch, chegam ás bolas que parecem impossíveis.

«Disneylandia» do futebolTodos os centros até parecem bem feitos. Há dias, Michel, médio do Real Madrid nos anos 80 que se destacou pelos passes de morte, dizia que “não, eu nunca fiz centros assim tão bons. O segredo é que na área tinha Butragueño e Hugo Sanchez que moviam-se tão bem e chegavam sempre à bola. Isso é que fazia parecer sempre os meus centros bem feitos.” Embora seja perigoso misturar um génio como Hugo Sanchez a gigantes como Zigic Crouch, o princípio da qualidade de movimentação na área é o mesmo. Os gigantes utilizam, no entanto, a qualidade/diferença que lhes está inata no corpo. Ambos jogam hoje numa dupla de ataque em 4x4x2, provando como mais do que o físico por si só, já é a mescla com a sua movimentação que faz a diferença em campo. Ao lado, um avançado mais esquivo. Bellamy ou Kuyt, em Liverpool. Munitis, em Santander, este o caso mais estranho de conexão física. 2,02 metros em combinação com 1.67. Viram os princípios tradicionais do futebol ao revés e fazem do relvado uma espécie de Disneylandia do futebol.