E se o jogo tivesse duas bolas?

03 de Dezembro de 2010

E se o jogo tivesse duas bolas?

O mundo divide-se em cinco continentes e sete mares. O futebol tem uma divisão mais simples. Existem as equipas ditas normais, que jogam melhor ou pior, algumas jogam até muito bem e ganham muitos jogos, outras menos, mas com bons jogadores. E existe o Barcelona, vindo de uma galáxia distante com quem ninguém consegue estabelecer contacto. Rouba a bola durante a maior parte dos 90 minutos e faz dela o que quer. Fá-la girar de chuteira para chuteira (domínio do passe) e coloca-a no momento exacto nos sítios certos (domínio do jogo). Tudo isto é mais importante porque em campo, no jogo, só existe mesmo uma bola. Quando esta divisão futebolística se torna clara nos pés de Xavi, Iniesta, Villa, Messi (isto é, a corte dos “baixinhos loucos”) percebemos melhor o que significa a palavra “eternidade”.

Mas, por entre todo este cenário, continua a existir uma espécie de “duende insubmisso”. Mesmo quando subjugado por ele, não esbracejou, sacudiu a poeira do sobretudo, e foi-se embora, em silêncio, recordando que voltará mais tarde. Não duvido disso. Como também não duvido que, quando voltar, surgirá a jogar de forma diferente, com um antídoto táctico poderoso que, como já provou no passado, é capaz de meter, pura e simplesmente, qualquer jogo no “congelado”. É o legado de Mourinho. O seu Real não irá roubar o lugar na história ao “Barça tique-taque” de Guardiola, mas pode roubar-lhe o título. Como, recordou, lhe roubou a época passada a Champions, em pleno Nou Camp, sem precisar de ter a bola para isso.

É outra divisão (ou ameaça), terrena e conjuntural, que o futebol moderno provoca. As equipas já não acreditam em ideologias. Jogam conforme as suas circunstâncias e as exigências competitivas que as envolvem. Esta opção pode causar ilusões de óptica. Passando do centro geográfico do universo futebolístico (o choque Barcelona-Madrid) para o pequeno mundo do futebol português (o choque Porto-Benfica) vemos que falta uma ideia sólida a rodear a forma de jogar. O FC Porto foi o clube que, nos últimos anos, mais se aproximou dessa realidade. Fundar uma filosofia e um estilo. No clube e na(s) sua(s) equipa(s). O Benfica fora-o no passado (como o Sporting em tempos mais remotos). Transpondo esta tese para a época actual, vemos que as circunstâncias ultrapassaram essa dimensão mais global. Mais preocupante do que as derrotas encarnadas dos últimos jogos, é perceber que o edifício de bom futebol da época passada possa ter sido apenas uma “construção na areia”. Ou seja, faltou-lhe o lado filosófico estrutural. Foi apenas realidade de uma época (de um treinador inspirado com os jogadores ideais nos locais certos).

Este Barcelona vale muito mais do que os resultados que consegue. Vale, sobretudo, pela ideologia de jogo que transporta. Só equipas que atingem este nível (falar-se mais de como jogam do que dos resultados) consegue que daqui a 10, 20, 30 anos, continuemos a falar delas como referências (embora inatingíveis) a seguir. Um marco histórico da evolução futebolística. Por isso, este Barça é, ao mesmo tempo, exemplo e excepção.

P.S. Sobre o primeiro parágrafo: há quem acredite que se o jogo se disputasse com duas bolas, as duas também seriam do Barcelona.