ESCOLA ALEMÃ

16 de Junho de 2004

Em qualquer um dos muitos «manuais da bola» há sempre um capitulo que suscita temor rverencial. O do futebol alemão, o Império do «futebol força«. Uma imagem temivel que se celebrizou ao longo das décadas até cair, no final do século, numa relativa crise geracional. Estas são as suas atmosferas.

Uma forma de atenuar a nostalgia dos relvados são os jogos de veteranos que, perante um público ora divertido, ora a bocejante, por vezes se disputam. Conta Valdano que há anos num desses jogos, estava no banco ao lado de outro mito dos 70, Kempes. No relvado, Rummenigue corria alegre. Pegou na bola, fintou dois gorditos e entrou isolado na área, descaído sobre a direita. Tinha tempo para pensar, reduziu a velocidade, que já não era muita, e olhou em volta. Foi quando Kempes gritou: “Não penses!” Segundos depois Rummenigue resolveu centrar. Não era má ideia, mas como hesitou antes de o fazer a bola saiu sem direcção. Kempes então abanou a cabeça, encolheu os ombros e disparou “ Eu não disse? Os alemães não tem nada que pensar”. O futebol é, por definição, um jogo colectivo que cruza diferentes factores físicos, técnicos e culturais. Do cruzamento entre todos estes elementos resulta um estilo próprio, que varia de país para país.

Observando a história, a Alemanha foi quem melhor realizou a síntese entre todos eles e gerou um estilo que fez-se grande usando a condição atlética e, pela primeira vez no mundo do futebol, colocou força na técnica e impôs o poder dos músculos ao virtuosismo dos dribladores. Era o fim dos tempos românticos. Uma ideologia futebolística que, ao longo dos anos, inspirou os grandes clubes que fizeram a vida e glória do Império do futebol força. Franz Beckenbauer e Karl Heinz Rummenigue. Cada qual na sua época, anos 60/70 e anos 70/80, respectivamente, foram, dois grandes símbolos do futebol alemão. Força e técnica unidas pela classe de dois fabulosos jogadores, no Bayern Munique e na selecção germânica. Juntos hoje na direcção do grande clube da baviera, continuam autorizadas consciências criticas do futebol alemão. De semblante preocupado, não se escondem atrás das glórias do passado quando chega a hora de analisar o presente do futebol teutónico, como confessaram, há meses, num corredor da FIFA, a Michel Platini, velho Astérix francês da bola nos anos 80: “É triste e preocupante Michel, mas a verdade é que desde há dez anos que o futebol alemão não produz um grande jogador de verdadeira classe mundial como os craques do passado!” O último, é fácil identificar, foi Lottar Matthaus e mesmo esse jogou quase até aos 40 anos e no Euro-2000 foi titular da selecção, como pretenso motor do meio campo, com 38! Por isso, hoje, fala-se de uma geração perdida, sem líder, órfã de talentos como os que fizeram a glória do gigante germânico. Ainda recentemente, uma revista germânico elegeu a melhor Nationalmanschaft dos últimos 40 anos: Maier; Kaltz, Beckenbauer, Kholer, Breitner; Netzer, Matthaus, Hassler: Libuda, Muller e Voller. É uma hipótese. Outros nomes seriam Schumacher, Augenthaler, Littbarski, Seeler, Rummenigge.

A nova relação força-técnica

ESCOLA ALEMÃAs razões para a queda e crise de valores do futebol germânico são múltiplas. Em primeiro lugar, a condição atlética deixou de ser exclusivo dos alemães. Hoje, todas as nações trabalham afincadamente a componente física, pelo que, nesse campo, o futebol força germânico já não encontra a vantagem de choque de outrora. A par disso, a qualidade técnica do jogador alemão baixou. Concentrada excessivamente na resistência física e na força mental, a escola germânica perdeu o virtuosismo que também era comum encontrar em, sobretudo, muitos dos seus médios. O contraste entre dois jogadores de diferentes gerações, como por exemplo Hassler e Jeremis, é evidente. Enquanto o primeiro solta o seu perfume técnico mesclado com o músculo, o segundo, apesar de ter um pulmão infinito, revela imensas limitações técnicas. Ora, neste momento, o futebol moderno vive uma nova encruzilhada, onde a técnica, face á crescente igualdade física entre todas as nações, surge como o único factor capaz de, no futuro, provocar desequilíbrios. A força, por si só, já não ganha jogos. É, no fundo, um regressar ás raízes do futebol. Estas preocupações de relacionamento força-técnica já existiam, no entanto, desde há muito em alguns quadrantes do futebol alemão, como sublimemente se pode concluir da leitura de uma palestra dada por Helmut Schon, na passagem dos anos 70 para os 80, num curso de treinadores da UEFA, quando, a certo ponto, o treinador campeão europeu em 72 e do mundo em 74 afirma que “em muitos países, não somente no meu, a regra seguida na ultima década foi a de que a condição física era tudo, ou o trabalho de equipa é tudo. Esta actuação esquece que a beleza e atracção do futebol dependem largamente do nível de aptidão técnica individual dos jogadores. Uma equipa que atinge o auge no futebol moderno tem de basear o seu sistema de jogo de harmonia com as aptidões dos seus jogadores e tem de possuir jogadores capazes de aplicar a sua técnica mesmo debaixo das mais diversas condições e grande velocidade do principio ao fim do jogo.

Em busca de novos profetas musculados

ESCOLA ALEMÃ1A grande contradição de toda esta reflexão é que, mesmo nesta pretensa crise de valores individuais e colectivos, a selecção alemã do futebol frio, feio e sem preocupações estéticas, chegou ainda há dois anos, em 2002, á final do Campeonato do Mundo. Um enigma? Não. Trata-se, pura e simplesmente, da mais perfeita expressão da relação entre o discurso e o método como segredo dos grandes gurus triunfantes dos tempos modernos, na vida, nas empresas, como no...futebol. Apesar dos problemas geracionais que os afectam, os alemães continuam a saber para que jogam. Não têm problemas existenciais. Mesmo sem os monstros do passado, o conceito centrifugador do seu futebol continua activo. Só devido a essa superior mentalidade, é possível, nestas condições, manterem-se, inteligentemente, no topo do futebol mundial. Enquanto seleccionador, Rudi Voller cultivou os mesmos princípios de jogo musculado. Manteve o discurso, mas alterou o método, passando, tacticamente, a adoptar o 4x4x2, relegando para segunda opção o sistema que historicamente os consagrara, o 3x5x2 com laterais e alas poderosos. A actual selecção vive, no entanto, sufocada por uma grave crise de valores individuais. Vendo-a jogar, no presente, vislumbramos, na maioria dos jogos, um onze desequilibrado, com mais elementos no flanco direito do que na faixa esquerda. A meio campo, onde a criatividade de Jeremis é nula, faltam homens que metam técnica e velocidade na força. O único jogador de classe, é Ballack, mas, jogando muito recuado, parece faltar-lhe carisma para se assumir como um verdadeiro líder e, fiel á história germânica, disparar os famosos pontapés de 30 metros que outrora tanto aterrorizavam o mundo. Dentro do onze, só ele tem hoje capacidade para os executar, mas jogando tão recuado raramente lhe surge essa oportunidade. Entre os ténues os sinais de renovação saltam vários nomes: os laterais Friedrich, Lahm, Hinkel e Rau; os médios Freier e Kehl; os avançados Lauth e Kuranyi. Nenhum deles parece, no entanto, possui a classe imperial para ocupar, com o mesmo espirito dos panzers do passado, os chamados postos-chave: libero, médio-centro, ponta de lança. Falta-lhe um grande libero, estilo Beckenbauer ou Augenthauler, um grande médio, como Rumenigge ou Mathaus, e um grande ponta de lança, como Klismann ou Muller.

Futebol sem dilemas estéticos

ESCOLA ALEMÃ2Muitos chamam-lhe uma geração perdida. É, no entanto, impensável aplicar esse termo ao futebol alemão, tal a força física e mental de todas as suas castas de jogadores. Uma herança musculada e cultural (é difícil imaginar, por exemplo Kahn ou Beckenbauer a jogarem no seus tempos de meninos futebol de rua.... ) que compensa, como sucede actualmente, a crise técnica que, ciclicamente, atinja as suas principais estrelas. É a cultura germânica. Nunca ninguém viu um alemão preocupado, como os latinos ou sul americanos, com a beleza estética do jogo. Nunca riem durante os 90 minutos. Quando falham um golo raramente deitam as mãos á cabeça e muitas poucas vezes os vemos a protestarem com o árbitro. No Mundial 2002, quando na conferência de imprensa antes do jogo com a Coreia para as meias-finais perguntaram a Kahn como reagiria se, tal como sucedera nas eliminatórias anteriores á Espanha e Itália, invalidassem um golo limpo, ele apenas respondeu que, pura e simplesmente, teriam de marcar outro até por fim marcarem um válido e ganhar o jogo. Quando Ballack fez o golo decisivo, perto do fim, apenas três jogadores o foram abraçar, os outros viraram costas e regressaram ao seu meio campo. Há algo de, digamos, competitivamente cínico em tudo isto que só o destino poderá explicar, sobretudo se daqui a dois anos, mantendo-se o cenário, virmos, em 2006, no relvado de Munique, onze montanhas de calções e chuteiras, com duas pernas, a passearem, equipadas de branco e preto, com a Taça do Mundo na mão.