ESCOLA INGLESA

23 de Junho de 2004

“A velocidade, a técnica e a força são o triângulo da vida do futebol” Sven Goran Eriksson, em 1982, ao chegar a Portugal para treinar o Benfica.

Quando chegou a Portugal, em 1982, para treinar o Benfica, muito novo, tinha apenas 34 anos, com um tímido ar de professor de matemática, trazendo na bagagem a aura da conquista da Taça UEFA á frente do modesto IFK Goteborg frente ao colosso germânico Hamburgo SV de Hrubesch e Magath, poucos acreditavam que estava ali um moderno revolucionário do futebol europeu. Contratado para substituir o velho húngaro Lajos Baroti, surpreende nas primeiras entrevistas ao confessar-se um grande admirador do futebol inglês. Embora sabendo-se da influência britânica na evolução histórica do futebol norte-europeu, a forma como brilhavam os olhos do homem que pouco tempo depois seria famoso com um chapéu da Macieira na cabeça, surpreendia pela admiração que revelava pela, digamos, fórmula-britânica, então no topo da Europa de clubes, de encarar o futebol. A sua admiração pelo futebol inglês e pelos métodos de trabalho anglo-saxónicos já vinha, no entanto, de anos atrás. Há vários anos, durante a sua progressiva formação e maturação como treinador, que visitava constantemente Liverpool ou Birmingham onde apreciava os padrões de organização, a mentalidade, o profissionalismo, os métodos de treino e a forte preparação fisíca tipicamente britânica. É essa ideologia, base do seu surpreendente Goteborg de inicio dos anos 80, que traz na bagagem para Lisboa. Quando fala em transpor para Portugal o perfil britânico não estava, obviamente, a atrever-se em ensinar-lhe nada ao nível técnico. O seu trabalho iria, sobretudo, incidir sobre a velocidade, a força e a criação de uma mentalidade vencedora de dimensão internacional.

Sir Eriksson

ESCOLA INGLESAVinte e dois anos depois, encontrámo-lo passeando pelas artérias de Londres e pelos belos e míticos Estádios britânicos com a autoridade professoral de um mestre do futebol. Está mais velho, é claro, mas mantêm, nos traços essenciais, a mesma personalidade afável, elegante, altivo de fato e gravata, com a expressão dos seus olhos azuis amansando mesmo as palavras mais duras que, desde o assumir do cargo de seleccionador da Inglaterra, em 20001, tem sido ciclicamente alvo. Fala calmamente e a autoridade emerge paradoxalmente da tranquilidade com que expressa as suas ideias. Futebolisticamente multicultural, psicologicamente muito forte a entrar na cabeça dos jogadores, aberto ao debate, muito do sucesso de Mister Eriksson, no caldeirão dos clubes italianos, na rivalidade lusitana Porto-Lisboa, ou, agora, no comando da Inglaterra, resulta, essencialmente, da sua sublime capacidade em estudar, entender e integrar-se em cada novo mundo onde trabalha. A actual selecção inglesa tem, no entanto, a sua assinatura própria. Acusam-no de estar tacticamente hipotecado ao 4x4x2, mas, embora a metamorfose estilística das bases do futebol inglês já se tivessem começado a desenhar antes da sua chegada, a verdade é que foi ele, com a sua ideologia, que lhe deu um rosto mais definido, adaptou os jogadores aos novos tempos, e desenhou, táctica e tecnicamente, a nova Inglaterra, distante do tradicional, kick and rush, chuta e corre, mas, apesar dos novos ventos, sempre fiel ás suas raízes emocionais, o grande suporte, desde fins do Séc.XIX do altivo orgulho inglês.

O Testamento de Ramsey

ESCOLA INGLESA1Em 44 anos, desde 1946, data da nomeação do primeiro treinador, até 1990, apenas cinco homens dirigiram a selecção inglesa. Walter Winterbottom (1946-1963) Alf Ramsey (1963-1973), Don Revie (1973-1977), Ron Greenwood (1977-1982) e Bobby Robson (1982-1990), não contando com a passagem interina de Joe Mercer, presente em sete jogos. Dez anos depois, no ano 2001, esse número já tinha subido para onze: Graham Taylor (1990-1993), Terry Venables (1994-1996), Glenn Hoddle (1996-1999), Kevin Keagan (1999-2000) e Eriksson, o primeiro estrangeiro da história, a partir de 2001. Isto é, em apenas uma década, a Inglaterra conheceu tantos seleccionadores como em quase meio século. Apesar do seu prestigio secular, a história internacional da selecção inglesa tem sido, porém, nos grandes momentos, um verdadeiro manual de sofrimento, ao qual apenas Al Ramsey figiu através da conquista do Mundial 66, com o seu chamado winglesss sistem, sistema sem alas, explanado em 4x4x2 que tinha a sua principal arma no facto de jogar apenas com um extremo, sendo este inclusive resultante dos movimento de um interior que abria na ala ou da subida dos laterais, não para se limitar a fazer cruzamentos para cima da baliza, como era hábito no futebol inglês, mas antes para, sobretudo, executar passes em profundidade para os espaços vazios para os vértices da grande área, onde surgiam em corrida os avançados. Olhando os Mundiais de tempos remotos, e analisando á luz dos conceitos contemporâneos as equipas míticas do passado, até finais dos anos 60, pode-se dizer que, no plano táctico e competitivo, esta selecção inglesa é que está mais próxima dos dias de hoje e que não teria, até, grandes dificuldades em sobreviver nele, ao contrário de outras mágicas vitoriosas selecções do passado, cujo sistema e ritmo de jogo estão hoje, apesar do seu enorme valor, completamente ultrapassado.

A Velha Albion segundo Bobby Robson

ESCOLA INGLESA2Embora, no presente, o design táctico da selecção inglesa de Eriksson também se baseie no mesmo clássico 4x4x2, a fonte de estilo que inspirou, em 1966, o sucesso do onze de Ramsey, foi, no entanto, diferente. Assim, na década dos beatles, os pilares estavam, indiscutivelmente, numa preparação física fora do comum nesses tempos. Era a consagração do futebol atlético, que também teria, nesse ano, aplicação com a poderosa selecção germânica, a outra finalista. Viva-se um tempo de realismo competitivo alimentado por um cada vez maior aumento da dinâmica colectiva da equipa. Hoje, a qualidade técnica é muito maior. A revolução que recolocou a Inglaterra entre as potências do futebol mundial começou, no entanto, com um treinador que nem sempre, ou quase nunca, foi compreendido e bem aceite pelo status futebolístico da Velha Albion: Bobby Robson. Com ele, a selecção recuperou o espirito de vitória, a alegria de jogar e as individualidades reencontraram espaços para se destacarem do secular estilo anterior de passes longos. O que distingue o jogo da actual selecção inglesa das que a precederam nos passados trinta anos, é a sua capacidade para segurar e trocar a bola. No Mundial de 90, Robson tinha ao seu dispor um must de individualidades com uma fibra e uma capacidade técnica como nunca o futebol inglês conhecera na mesma geração. Reparem no meio campo: Bryan Robson, Paul Gascoigne, John Barnes e David Platt. No ataque, Gary Lineker, Beardsley, e Chris Waddle. Até os defesas sabiam tratar bem a bola. Num sector tradicionalmente dominado por gigantes da marcação, foi o swepper Wright a assumir-se como o grande patrão, impecável no tackle e no passe. Após um período de recessão que se deu, depois da saída de Robson, com a entrada de Graham Taylor, um conservador que resgatou o velho estilo inglês de passe longo, culminado com a não qualificação para o Mundial-94, o futebol inglês regressaria ao caminho da evolução técnico-táctica, com Terry Venables, resgatando, em campo, uma mentalidade mais continental, no plano defensivo e da troca de bola a meio campo, aprendendo também a jogar em contenção.

Roma, 1997: Itália-Inglaterra ou o mundo ao revés

ESCOLA INGLESA3O renascimento para as novas tendências tácticas deu-se, novamente, a partir da chegada do jovem Glenn Hoddle em 1996. Trabalhando já com outra geração, Hoddle, que como jogador se celebrizara como um tecnicista e alinhara em França, no Mónaco, sob orientação de Wenger, continentalizou o futebol inglês que durante muitos viveu um terrível dilema em face dos maus resultados da sua selecção: qual é o futebol mais eficaz, o que em três ou quatro passes chega á outra baliza, ou o que domina e conduz a bola pelo relvado, calculista, desmontando assim as duras e cerradas defesas contrárias? Hoddle utilizou sempre, nos jogos contra adversários fortes, uma defesa de cinco jogadores -três centrais e dois laterais- num sistema que, dependendo da acção dos flancos, tanto poderia ser explanado em 5-3-2 como em 3-5-2. Ironicamente, teria a grande consagração para estas suas ideias calculistas no país tacticamente mais emblemático: Itália. Até ai, no passado, sempre que a Inglaterra defrontara a selecção italiana no seu reduto, em jogos decisivos, perdera sempre.

Em 1978, no apuramento para o Mundial 78, por 2-0, e em 1980, durante o Campeonato da Europa, por 1-0. Em ambos os casos a Velha Albion jogou tipicamente á inglesa e caiu na armadilha transalpina. Desta vez, porém, bastava á Inglaterra um empate para ser apurada. Nunca ninguém vira até essa data uma selecção inglesa administrar um resultado, jogando para o empate. Esse inolvidável jogo de Roma, em Novembro de 1997, foi, por isso histórico, com a linha defensiva de cinco homens, com os lutadores trincos Paul Ince e David Batty á frente, num meio campo onde Beckham jogava encostado á direita, travando as combinações um-dois entre Zola e Maldini. Na mente de todos eles uma ordem de Hoddle: segurar a bola, trocá-la, e não apenas afastá-la para longe. Jogando com a cabeça, quase á italiana, a Inglaterra , dominou o jogo e chegou ao apito final com o chamado resultado perfeito: 0-0. Nessa noite quase deu vontade mandar todo o mundo do futebol de volta para a escola. Era mesmo questão, depois desta contradição histórica, de começar tudo outra vez do principio, como se estivéssemos nos anos 30.

Treinadores estrangeiros em Inglaterra: o nascer de uma nova era

ESCOLA INGLESA4A inspiração para o novo design inglês situa-se, essencialmente, no meio campo, zona do relvado que antes a bola só conhecia desde as alturas quando era impelida no longo passe em profundidade da defesa até ao ataque, expressão do mais rudimentar “jogo directo”. Com outra atitude técnica perante a bola, a Inglaterra, suas equipas e por inerência a selecção (visto quase todos os grandes jogadores ingleses, tirando Beckham, continuarem a jogar na Premier League) continentalizou, em muitos aspectos, a sua filosofia de jogo. De importância decisiva para este novo conceito estilístico foi, após longos anos de orgulhoso isolamento técnico-táctico, a sua abertura ao resto da Europa. Esta nova postura teve dois vectores: Por um lado, a crescente contratação de jogadores estrangeiros com maior índice técnico, sobretudo latinos, que incutiram maior tecnicismo no trato da bola em relação aos tradicionais guerreiros britânicos que, dizia-se, tinham mais lesões nos dentes do que nas pernas. Por outro, a chegada de muitos treinadores estrangeiros, algo antes pouco comum no futebol inglês, ao ponto de até há oito anos, em 1996, apenas nove técnicos fora das ilhas tinham orientado equipas inglesas e, mesmo nesses casos, tirando o checo Venglos e o suíço Gross, eram quase todos em equipas de segundo plano ou, como Ardiles, Gullit, Viali ou Molby, antigos jogadores que após cativarem no relvado foram convidados, dado a sua identificação com os supporters, a ficar como treinadores. Só em setembro de 1997 iria chegar um fleumático francês com verdadeira intenção e capacidade para influenciar a forma dos ingleses abordarem tecnicamente o jogo: Arsene Wenger. Mesclando um tradicional geração herdada do antecessor George Graham (sobretudo a defesa, com Dixon, Adams, Boulsd e Kewon) com requintadas estrelas além-fronteiras, como Bergkamp, congeminou um sedutor e híbrido estilo de jogo, mescla do toque apoiado continental com os passes longos britânicos, e, sete anos depois, pode-se dizer que muito do que mudou na forma dos ingleses entenderem táctica e tecnicamente o jogo se deve á professoral acção de Wenger, que, ironias do futebol, ainda não teve reflexo em termos de grandes conquistas nas competições europeias.

Quais os treinadores ingleses de referência para o futuro?

ESCOLA INGLESA5Este sucesso e atracção por técnicos estrangeiros têm, no entanto, um lado lunar no cenário do futebol inglês. Repare-se: Entre 1977 e 1984, por sete vezes, em oito épocas, uma equipa inglesa tinha se sagrado campeão europeia orientada por um treinador inglês: Liverpool: Paisley e Fagan; Nottingham Forest: Brian Clough: Aston Vila: Barton. Muita coisa mudou, no entanto, desde esses tempos, ao ponto de, para além de tal nunca mais se ter repetido no contexto europeu, a última vez que uma equipa inglesa se sagrou campeã sob as ordens de um treinador inglês já foi há 12 anos, com Howard Wilkinson, no Leeds de Cantona. Trata-se, essencialmente, de uma questão conjuntural. O futebol inglês vive, uma fase de transição, mas este simples facto, para além do facto da selecção ser orientada por um estrangeiro, é suficiente para as consciências mais orgulhosas da Velha Albion se questionarem quais os seus verdadeiro valor dos seus treinadores de referência do presente. Situemos a análise da situação no período pós-Heysel, findo o castigo que durou desde 1985 a 1991. Após cinco anos fora da UEFA, as equipas inglesas sofreriam para readquirir o ritmo certo de contrariar os onzes continentais. Uma nova geração despontara sem competir fora das ilhas. A nível de treinadores, a última década e meia, também sentiu essa encruzilhada temporal, condicionada, por outro lado, pela invasão estrangeira.

Apesar da paradoxal lição táctica dada no nariz dos tacticistas transalpinos no apuramento para o Mundial-98, Hoodle era, no entanto, como mais tarde também seria Keegan, um treinador como que apanhado entre dos tempos. É, por isso, muito devido a este cruzamento de eras e ideologias que da geração que jogou nos anos 80 e hoje se senta nos bancos, nota-se uma clara indefinição estilística, da qual os conceitos expressos por Hoodle e Keegan quando á frente da selecção, respeitados por todos o status britânico, mas incapazes de encontrarem a consistência defesa-ataque susceptível de equilibrar o onze. Neste contexto, se, perante o olhar de Eriksson, partirmos em busca de nomes de referência para a construção do futuro táctico do futebol inglês, três treinadores, respeitadores do passado e astutos com o presente, emergem como principais destaques: Alan Curbishley, 45 anos, treinador Charlton, Sam Allardyce, 49, treinador do Bolton, que assiste sempre á primeira parte dos jogos na bancada falando por telemóvel com o adjunto no banco, e, sobretudo, Steve McClaren, 42, do Middlesbrough, antigo adjunto de Ferguson e Eriksson, mas já treinador desde os 30 anos, quando se iniciou nos juniores do Oxford. É, ao mesmo tempo, um inteligente arquitecto táctico, liberto dos dogmas britânicos, elegante no discurso, afável e excelente condutor de homens, sem ser um disciplinador. Tem tudo para, no futuro, triunfar na selecção inglesa, tal a forma como consegue entrar na cabeça dos jogadores.

A técnica no futebol inglês

ESCOLA INGLESA6Falar com treinadores ingleses, velhos ou novos, sobre futebol continua, no entanto, a ser fascinante. Ninguém como eles têm uma visão tão cativante e saída das mais profundas entranhas do jogo. Numa dessas conversas, há cerca de cinco anos, Bobby Robson dizia que a nível de condição física no futebol, chegou-se ao máximo, o jogador não pode correr mais do que já corre hoje. O futebol inglês entendeu isso. Após longos anos fechado no seu castelo, que, ao mais alto nível competitivo, como Mundiais e Europeus, perante adversários muito fortes, cedia perante o maior índice técnico destes, também já donos de maior preparação atlética, o futebol inglês adquiriu maior qualidade técnica. Continua aguerrido, com o tradicional fighting spirit, o espirito lutador, a moldar-lhe a alma, mas em termos de trato da bola, o velho de estilo do passe longo está a ceder para o jogo apoiado a meio campo. Basta olhar para Beckham, Owen, Rooney, Scholes, Jenas, Dyer, entre muitos outros, para se perceber esses novos sinais dos tempos. Eriksson, pelo seu saber acumulado, experiência, astúcia táctica e inteligência de relacionamento profissional e, até, humano, é o treinador ideal para liderar este processo de metamorfose estilista do futebol inglês, sem correr ao mesmo tempo o risco de perder a sua verdadeira identidade, pois na sua essência emocional, o futebol inglês permanece, no entanto, o mesmo.. Os seus adeptos nunca o conseguiram entender de outra forma, mas hoje já não cometem o erro dos altivos e orgulhosos antepassados dos 40 e 50, que se achavam avançados em relação ao resto do mundo.