ESCOLA NORTE EUROPEIA

13 de Junho de 2004

AS RAÍZES DA ESCOLA NORTE-EUROPEIA

“Quando ia ao estrangeiro e dizia que era islandês, as pessoas tomavam-me por um esquimó e pensavam que eu vivia num iglo!”, Edvaldsson, capitão da selecção da Islândia, anos 80.

O clima é um bom meio para entender os diferentes estilos de futebol. Assim, pensando no continente europeu, á medida que se caminha para o norte e o frio aparece, com um vento gélido que quebra ossos, o futebol vai-se tornando cada vez mais musculado e moldado pela força atlética, predominando o jogo directo, com a bola para cima da área, grandes cabeceadores, altos, loiros, mas cada vez menos toscos, pois mesmo em nações outrora da segunda linha futebolistica, como a Noruega ou a Dinamarca, já ninguém entende o futebol em três formas de fazer sofrer o adversário: 1.ª “taclke” por trás, 2.ª agarrar a camisola, 3.ª cotovelada no nariz. Hoje, o futebol norte-europeu – Noruega, Suécia, Dinamarca e Finlândia – é respeitado no mundo. Ao longo dos tempos o seu grande embaixador vestiu as cores amarelas e azuis: Suécia, profeta de um estilo que basicamente reflecte o de todas as outras selecções norte-europeias: forte fisicamente, de influência britânica, pujante a meio campo na condução da bola e com predilecção pelo jogo aéreo na fase atacante. É o chamado futebol de penetração, como gostava de dizer Egil Olsen, o treinador que criou a reciclada Noruega de final do século.

O tal rapaz “alto, loiro e tosco”...

Neste contexto, muitos ainda recordam uma célebre frase de José Maria Pedroto, após um Benfica-FC Porto jogado em 1982, quando na intenção de criticar o jogo da equipa de Erickson, afirmou que, no seu entender, ela se limitara «a despejar bolas na área para um rapaz alto, loiro e um pouco tosco que por lá andava». O tal rapaz corpulento era Mickael Manniche, dinamarquês de nascimento, decorador de interiores no seu país, mas que, após tantos anos, ainda hoje é recordado na Luz com saudade. O seu futebol não tinha fintas nem bonitos, apenas conhecia a palavra eficácia, mas, ao ser jogado com grande rigor competitivo e forte poder físico, tornou-se temível aos olhos de todos os adversários. Hoje todas as equipas suspiram por ter um jogador daquele tipo na sua frente de ataque. No fundo, a estória de Manniche é como uma parábola no livro do futebol nórdico, onde avultam episódios de outros rapazes altos e quase sempre loiros que partindo de uma corpulento porte físico, souberam ir requintando o seu futebol até se transformarem indispensáveis em muitas equipas europeias que se dizem orgulhosamente de grande nível técnico. Chama-se a isto elevada cultura futebolística. Assim, historicamente dos mais cultos do mundo no plano da leitura do jogo e da ocupação dos espaços, o futebol sueco mantêm, actualmente, o mesmo estilo robusto, táctica e tecnicamente sábio, que o tornou respeitado por todo o mundo. Embora continue sem dispor de grandes criativos, continua a ser um viveiro de excelentes médios-volantes defensivos, como Stromberg, no passado, ou Karlstrom, no presente.

Dinamarca: Os «latinos» do futebol escandinavo

ESCOLA NORTE EUROPEIA invasão escandinava entre a elite do futebol europeu de final século, começou a ser congeminada, no entanto, numa paisagem bucólica, de uma pequena vila chamada Vejle, na província de Jutland, na Dinamarca, onde as planícies vivem rasgadas por extensos campos verdes, nos quais, durante todo o dia, pastam, sob o sol frio, na sua inigualável tranquilidade rominante, manadas de bois e rebanhos de ovelhas, insensíveis ao facto de a poucos quilómetros, estar o parque de diversões da Legoland. Um maravilhoso mundo das construções para crianças, hoje muito visitado por um pequeno dinamarquês, que, apesar da sua baixa estatura, 1,68 metros, liderou, com arte, velocidade e um pouco de insolência com a bola nos pés, a rebelião futebolística norte europeia no inicio dos anos 80, numa altura em que os ecos das proezas dos jogadores suecos até aos anos 60, já começavam a cair no esquecimento. O nome desse pequeno viking da bola era Alan Simonsen, o dinamarquês eléctrico, um jogador em permanente movimento. Concentrando grande parte da sua força na capital Copenhaga, o futebol dinamarquês, erguido num país todo rodeado pelo mar, à excepção de uma pequena faixa de 65km que o liga à Alemanha, é de entre todas as nações escandinavas, o menos fiel ao rígido estilo nórdico. A esse facto não é estranha a sua posição geográfica, em certas latitudes miradouro da Europa dos virtuosos. Devido ao facto do seu futebol, como quase todos da região norte europeia, ter sido amador durante toda a sua história (ainda hoje o profissionalismo continua ténue) tornou-se impossível segurar em casa os maiores talentos, que, depois, quando no estrangeiro, recusavam, muitas vezes, regressar para jogar na selecção.

Quando, nos anos 80, conseguiu, finalmente, recuperar para a selecção muitas das estrelas que abandonaram o país, a Dinamarca, dirigida pelo sábio técnico Sepp Piontek, formou um onze de sonho: a fabulosa “Selecção Dinamite”. No leme desse movimento de renovação estava Alan Simonsen, que junto de figuras como Eljkaer Larsen, Arnensen, Lerby e Laudrup, entre outros, assombrou a Europa quando, em finais de 1983, venceu em Wembley a Inglaterra, com um penalty apontado por Simonsen, e qualificou-se sensacionalmente para o Europeu-84, onde, com um futebol vistoso e ofensivo, chegou até á meia-final. Mais do que na tradicional força norte-europeia, essa Dinamarca sabia tratar a bola com classe e técnica invulgar nas paragens nórdicas, ao ponto de Eriksson os descrever como “os latinos do futebol escandinavo”. Esta geração explosiva transformou-se numa fonte de inspiração para toda a juventude dinamarquesa, geneticamente louca por futebol, que desde esses dias nunca mais deixou de ter um onze capaz de surgir sempre com uma aura atraente nos grandes palcos do futebol mundial.

O poeta-Laudrup

ESCOLA NORTE EUROPEIA2O seu romântico futebol elevou-se à categoria de lenda em 1992, quando, num momento em que a maioria dos jogadores estava de férias na praia, foi chamado de surpresa, após o afastamento da Jugoslávia, para disputar o Europeu, que viria a vencer. Do dinamite do Euro-84 já não restava nenhum jogador. Do ponto de vista táctico, o onze dinamarquês seguiu as tendências pouco imaginativas da época e jogou num clássico 4-4-2. As estrelas principais foram Schmeichel, Jensen, Vilfort, Poulsen... Nem sequer estava o melhor jogador da sua história, Michael Laudrup, pois claro, um poeta com a bola nos pés, a quem, como disse Cruyff só faltou nascer no Brasil e jogar na rua descalço quando menino, passando fome, para ter sido o melhor jogador do mundo da sua década. Desentendido com o seleccionador Richard Moller Nielsen, não foi ao Europeu, jogou o seu irmão mais novo, Brian, mais veloz, menos cerebral e, num ápice, a renovada Dinamarca fazia a Europa abrir os olhos de espanto.

O viveiro Sueco

ESCOLA NORTE EUROPEIA3É o grande berço do futebol escandinavo, país, onde, até aos anos 80, se concentrou a maior expressão competitiva do futebol jogado sob os ventos gélidos a norte da Europa. Ao longo do tempo, o futebol sueco deu ao mundo belas equipas compostas por grandes jogadores. Após o eclipse dos anos 80, a Suécia soube entender que o futebol mudara. Reestruturou-se, e com uma renovadora elegância viking, agora mais técnica, embora conservasse sempre os mesmo poder atlético-muscular, resgatou o seu lugar ao sol. Durante esse período de renovação, a selecção esteve quase como congelada, tendo o movimento de mudança parido sobretudo dos clubes, no seio dos quais mas surgiu um jovem técnico, com um óculos grandes e ar de professor de Matemática, arquitecto do IFK Goteborg, como uma grande equipa europeia, honrando o nome do principal clube da historicamente mais emblemática cidade sueca a nível de futebol. O treinador era Sven Goran Ericksson. A nível de clubes, porém, o futebol nórdico nunca fora historicamente temível. Nos últimos anos, o Rosenborg e o Brondby conquistaram respeito internacional, mas a grande equipa da sua história é ainda o Malmoe, equipa da cidade portuária do Sul da Suécia onde o futebol sueco começou a sua história no inicio do século, situa-se a meia hora de barco da costa dinamarquesa, e onde, desde sempre, se concentrou o verdadeiro poder do futebol sueco. Inspirado na selecção que esteve nos Mundiais de 74 e 78, o Malmoe atingiria, em 78/79,a final da Taça dos Campeões, onde seria derrotado pelo Nottingham Forest por 1-0.

Os anos 90 consagrariam por fim, a nível de selecção, a nova geração sueca, dirigida agora por um educado e calmo treinador chamado Tommy Svensson, que partindo do tentacular guarda-redes Thomas Ravelli, contruíu uma atraente equipa onde brilhavam Brollin, Dahlin, Schwartz, Thern, Andersson, entre outros, mentores do brilhante terceiro lugar no Mundial dos EUA em 1994. Apesar destes feitos, o trio Gre-No-Li, iniciais dos lendários jogadores que fizeram a grande selecção dos anos 50, Gren, Nordhal e Liedholm, continua vivo no coração do futebol sueco como símbolo da sua época mais bela e empolgante. Em qualquer era, porém, continuam claras duas grandes armas do futebol norte-europeu: capacidade atlética e inteligência para jogar sem bola. A estes dois atributos, que têm implícitos a desenvolvida cultura táctica, juntou-se, a partir da década de 90, a maior capacidade técnica das suas principais estrelas, ao ponto de hoje quando perguntarmos quais as características de determinado jogador norte-europeu a resposta não seja meramente a da sua altura e peso.