Existe um verdadeiro estilo de futebol português?

17 de Junho de 2006

Já passaram 22 anos mas para quem viu aquele jogo as emoções continuam intactas. Era a meia final do Europeu-84, decidida a favor da França de Platini com um golo no último minuto do prolongamento. Apesar da desilusão, Portugal, depois da solitária epopeia dos magriços, regressava finalmente á elite do Velho Continente. O mapa da Europa mudou muito desde então. O seu futebol, também. Desapareceu o glacial estilo de leste, desmembrou-se a velha Jugoslávia, o futebol nórdico lapidou-se tecnicamente, nações outrora fortes (Bélgica, Austria…) perderam força, os anglo-saxónicos abriram-se ás novas culturas (a Alemanha alinha hoje com polacos e ganeses naturalizados e na Holanda, em vez de longos cabelos louros, surgiu a tez negra do Suriname). É, de facto, outro futebol europeu.

Ainda fiel ás suas raízes, mantendo o mesmo estilo que atravessou o tempo, só o futebol latino. Itália, França, Espanha e Portugal continuam, no essencial, a conservar os mesmos traços estilísticos que os consagraram nos relvados europeus: toque a meio campo, jogo apoiado, de pé para pé, estruturalmente curto e uma especial devoção pelo contra-ataque. A actual selecção de Portugal, na sua essência, continua a espelhar essa tradição no seu jogo.

Independentemente do sistema, há uma filosofia superior ás variantes tácticas. Tacticamente cínico, o futebol latino foi dos primeiros a mostrar ao mundo que para ganhar um jogo, mais importante do que o dominar, é antes saber controlá-lo. Parece a mesma coisa, mas não é. Dominar o jogo implica incutir-lhe uma postura essencialmente ofensiva, avançando e jogando quase sempre sobre o meio campoExiste um verdadeiro estilo de futebol português adversário sempre que se tem a bola, saltando linhas. Implica, pois, correr maiores riscos a nível do posicionamento e transição defensiva. Controlar o jogo é sobretudo gerir tempos e espaços em relação ao posicionamento da bola, independente da sua posse, mantendo-a longe da zona de risco, procurando depois manejar com inteligência os diferentes timings de passe e transição rápida, abrindo o jogo a toda a largura do terreno, até, com perfeito entendimento de que cada zona do terreno tem a sua velocidade própria, invadir as imediações da área adversária com triangulações desequilibradoras e mortífero sentido de golo.
Por definição, Portugal, geneticamente latino, não procura dominar os jogos. As características dos seus jogadores, e a sua capacidade para segurar a bola, fazendo-a circular, de pé para pé com critério por todo o campo, são a base de um estilo que sabe manejar os diferentes ritmos de jogo sem nunca perder referências posicionais atrás da linha da bola. É, afinal, esta a raiz da noção controlar o jogo. O romantismo quixotesco como, em 84, acompanhávamos as fintas de Chalana ou os gestos felinos de Jordão atacar a bola entre os defesas, marcaram uma clivagem no crescimento futebolístico de toda uma geração que, desde o primeiro abrir de olhos, se habituara a ver o nosso futebolzinho à imagem da inolvidável selecção dos homens pequeninos, como lhe chamaram os ingleses em meados dos anos 70, após um onze luso composto pelos tais jogadores roda-baixa (Óctavio, Alves, Oliveira…) ter calado Wembley num então histórico empate sem golos. Nas últimas duas décadas, Portugal aumentou muito o nível internacional do seu futebol.

O grande ponto de ruptura dExiste um verdadeiro estilo de futebol portuguêseu-se, em termos de mentalidade, em finais dos anos 80, com a chamada revolução de Queiroz. Embora longe de se tornar uma máquina goleadora, foi descobrindo como ocupar os últimos trinta metros. A nossa capacidade de controlar um jogo também. Olhando o presente da selecção na Alemanha, elementos como Costinha e Deco são, nos pés e no cérebro, a personificação dos jogadores que entendem e interpretam essas definições como poucos outros no nosso futebol. Também, ou sobretudo, por isso, são fundamentais para o equilíbrio táctico-emocional da equipa num palco como o Mundial onde a pressão supera qualquer outro cenário competitivo.
Primeiro, sabem gerir a posse de bola, tocar curto, colocar gelo no jogo quando é preciso ou dar-lhe mais intensidade noutros casos. Depois, com Deco, surge o tal passe de morte que ilumina os últimos 30 metros, antes zona de trevas do nosso futebol onde era preciso entrar quase de lanterna em punho para encontrar um avançado com espaço para rematar. Hoje, essa zona já não vive na obscuridade e ilumina-se a cada toque de Deco, no carácter de Figo assumir o jogo sem medo, nas arrancadas de C. Ronaldo, ou nas desmarcações de Pauleta. É um novo Portugal. Só falta, portanto -e não é pouco- equilibrar tacticamente essa nova ordem em função dos valores e momentos de forma que compõem a actual selecção portuguesa, sempre geneticamente latina mas com traços caracterizantes que a distingue das outras nações latinas. Não temos o cinismo defensivo dos italianos, nem a garra dos espanhóis ou a multicultural alma dos franceses, mas, neste momento histórico, temos uma incomparável maior capacidade para unir fantasia e potência física, incutindo-lhe bruscas mudanças de velocidade em triangulações por todo o campo. Ou seja, o talento necessita de moldura táctica adequada. Quando a encontra costuma retribuir sempre com bom futebol.