Fazer do modelo de jogo um amigo

29 de Abril de 2015

Diz a teoria que não existem jogos iguais mas durante uma semana todo o universo portista acreditou que podiam existir jogos parecidos. O choque e danos que sofrera o Bayern colocava dúvidas sobre em que estado estaria mesmo o grupo de Guardiola. Parecia tocado nas suas bases. Ao mesmo tempo, a exibição do FC Porto na primeira mão (desde a pressão sobre a primeira zona de construção alemã até uma grande segunda parte de controlo táctico e ritmos) levara a equipa ás nuvens. E lá viveu durante 6 dias.

Quando desceu, aterrou na relva de Munique e, de repente, tinha pela frente “outra espécie de Bayern”, o verdadeiro.
O debate sobre fazer pressão alta ou baixar e esticar mais o jogo nem teve hipótese de começar. A equipa, pura e simplesmente, nunca conseguiu pressionar ou fazer os indispensáveis “encurtamentos” (reduzir tempo e espaço de execução ao jogador adversário com a bola) e ficou paralisada junto à sua área.

Não penso que para pressionar bem uma equipa tenha obrigatoriamente de pressionar alto (a pressão média-alta com encurtamentos pode até ser estrategicamente mais eficaz em certos casos) mas, apesar de se ver que a estratégia era esperar mais atrás (com medo de falhar a pressão mais alta e dar logo espaços nas costas do meio-campo) esse debate nem faz sentido lançar tal o onze ficou sem reação ao passar da ilusão para a realidade. Uma defesa com quatro centrais (face aos laterais suspensos) é um primeiro passo para meter a equipa num casulo atrás sem poder sair. O medo entrou no corpo dos jogadores e quando isso sucede a tendência é recuar, recuar.

Entre os dois jogos, várias imagens bipolares: no primeiro, Xabi Alonso extenuado após a substituição, encostando no banco de olhos fechados, suado com pedaços de relva colocados à cara e abanando a cabeça (o Bayern estava a ser surpreendido e impotente para a estratégia e ritmo portista); no segundo, já na segunda parte, quando junto à berma do relvado, Guardiola gritava e gesticulava instruções para Lahm, indicando-lhe a verticalidade pelo corredor (o Bayern estudara o que aconteceu no Dragão, fugira à pressão inicial tirando Xabi dessa primeira saída para dar a bola a Thiago e descaiu Lahm entre interior para ala direito, furando em “jogo exterior” o muro que o FC Porto queria erguer no meio-campo).

Nesse momento, ficava visível a ideia estratégica de Guardiola aplicada ao modelo. Depois, Muller (por dentro) e Lewandovski pareciam isolados mesmo quando rodeados por seis jogadores portistas dentro da área.
Buscar mais explicações táticas para esta queda do paraíso não faz sentido. Nada do que aconteceu no Alianz foi por culpa do FC Porto, o jogo foi sempre o que o Bayern quis. O “manual das goleadas” a este nível tem sempre um guião táctico-emocional tipo.

PENSAR O JOGO “AO CONTRÁRIO”

O FC Porto terá começado a perder pelo excesso de confiança que rodeou a equipa toda a semana e acabou na relva pelo medo que sentiu quando viu que, afinal, o monstro Bayern estava vivo. Do que se pôde pressentir, vê-se o receio que Lopetegui teve das bolas aéreas e duelos mais físicos na área, inventando assim Reyes a lateral no lugar da habitual alternativa Ricardo, com mais saída de bola, mas mais leve fisicamente. A equipa não se preparou para viver a maior parte do tempo sem bola. Só para tentar sobreviver porque nunca se vislumbrou um subprincípio treinado de saída dessa pressão ofensiva alemã (com recuperação de bola e circulação rápida em triangulações).

Para Lopetegui, evitar que o risco do choque emocional e desgaste físico não se sinta na Luz, é o grande desafio. Jogos de “orgulho ferido” nunca são os mais indicados para planos tácticos mais complexos (ou diferentes do habitual). O indicado é não voltar a falar de Munique, afastar esse cenário da cabeça e voltar às bases mais simples do seu modelo.