Futebol até à eternidade

12 de Abril de 2007

- “Você só pensa em futebol. Vai ver que já nem lembra do dia do nosso casamento”, diz a esposa. - “Claro que me lembro, meu amor. Véspera de um Santos-Corinthians, jogaço, ganhou o Santos, 4-1”, responde o marido apaixonado. Recordo-me hoje desta passagem de um livro de Alain Fontan, o Divino Futebol. A razão são os jogos europeus e por, ao mesmo tempo, ter estado num programa de rádio sobre que jogos e jogadores inesquecíveis que marcaram as nossas vidas. A memória sorri com esse exercício. Pergunto-me se, com o passar do tempo, irei recordar da mesma forma algum dos jogos que vi nos últimos anos.

Fala-se hoje de uma equipa mecanizada e pressente-se uma equipa que, embora pouca imaginativa, sabe sempre o que fazer em campo. A mecanização do futebol, quase feita com um controlo-remoto pelo técnico no banco, tem, no entanto, diferentes faces. É que existe a, digamos, mera «mecanização mecânica», e, por outro lado, a chamada «mecanização criativa», que implica também a presença da arte. Mescla duas formas de entender o jogo, talvez a ideal para conciliar dois segredos do bom futebol. A diferença entre o Chelsea da primeira para a segunda parte em Valência é um bom exemplo para entender o cruzar destas duas realidades. Quando colocou Joe Cole a meio-campo, Mourinho deu criatividade à máquina, mas manteve activa a mecanização musculada com a passagem da locomotiva Essien para lateral-direito. Mas, claro, neste caso, uma vitória tangencial vale tanto como uma goleada estratosférica por 7-1. Nunca o termo Teatro dos Sonhos terá sido tão bem aplicado a Old Trafford. A Roma de Totti caiu espelhando na perfeição o que é hoje o esqueleto do futebol italiano.

Corroído até às raízes, a todos os níveis. Em contraste com esta depressão transalpina, o futebol inglês vive hoje no Olimpo. Conserva a paixão pelo jogo e acrescentou-lhe, um entendimento vanguardista dos ditames do futebol moderno, dentro ou fora do relvado. No Manchester, a mecanização tem a bênção artística de Cristiano Ronaldo. Ter um génio na nossa equipa facilita de facto muito as estratégias. No Chelsea, salvo as devidas proporções, Joe Cole veio dar ao meio-campo o traço de maior leveza e imprevisibilidade com bola. A mecanização, isto é, conseguir prever o que a equipa tem de fazer em campo, por acção ou reacção, é o sonho de qualquer treinador. Tal objectivo não tem, no entanto, de implicar obrigatoriamente, como se viu, o prescindir do lado criativo ou artístico do jogo e seus jogadores. Se as conseguir unir, descobriu a poção mágica do futebol perfeito, no plano colectivo e individual. Por isso, voltando ao inicio do texto, nunca esquecerei o Manchester United-Roma. A arte tem alma. As máquinas, não.

Chelsea-Valência: A segunda bola

Futebol até à eternidadeDurante a primeira mão do Chelsea-Valência, em Stanford Bridge, viu-se Mourinho por vezes a folhear um dossier sobre a colocação dos seus jogadores e do Valência em várias situações de jogo. Nessa abordagem científico, saltou-me à vista a relevância dada a um aspecto: a chamada segunda bola e a importância de ganhar esse ressalto. Mourinho colocava a zona chave para a conquistar na aproximação das imediações da área. O jogo foi, assim, um duelo intenso pela segunda bola tal a força, também, do Valência de Quique Sanchez Flores nessa acção, através da combatividade de Albelda e Albiol, apoiados pelas subidas de Ayala. O Chelsea reagiu bem, com o meio-campo liderado por Lampard e, noutro capítulo, através da maior destreza no jogo aéreo, sobretudo quando Drogba recuava para ganhar a primeira bola nas alturas. Só depois surgia a segunda bola, ou melhor, a segunda luta pela sua posse. Na capacidade de ganhar estes duelos está inserida um elixir do novo futebol: a intensidade de jogo e a capacidade das equipas suportar o seu aumento. É algo que vive para lá da técnica, mas que também cruza a táctica no sentido posicional para estar no local certo para atacar e ganhar a tal segunda bola. Porque, em rigor, só há mesmo uma bola em campo….