FUTEBOL DE LESTE

05 de Junho de 2004

FUTEBOL DE LESTE(RÚSSIA-CROÁCIA-REPUBLICA CHECA) 1945. Vivia-se o eufórico tempo do fim da guerra. A Grã-Bretanha era vista, em todo o mundo, como uma das grandes nações vencedoras. Noutro quadrante, o inverno russo e as suas destemidas tropas também tinham vergado o monstro nazi. Neste clima, a digressão do Dínamo de Moscovo por terras britânicas, mais do que um evento desportivo, era vista como um acontecimento político, num tempo em que os britânicos viam nos soviéticos os aliados de leste que haviam travado a invasão teutónica. Envolta em grande expectativa, ela foi o inicio do prestigio internacional do futebol soviético e o nascer de uma série de mitos e lendas que, por entre um clima de glacial e reverencial mistério, passou a moldar a imagem do seu estilo de jogo, projecção futebolística dos hoje eclipsados regimes de Leste, onde as vitórias das suas equipas eram vistas como uma bandeira do socialismo e da forma ultra-disciplinada como os seus jogadores se exibiam e comportavam em campo e fora dele, um exemplo do modelo de sociedade avançada que diziam construir em oposição á individualidade sem valores do ocidente.

Em plena guerra fria, o regime comunista procura, por todos os meios, impor os seus ideais. Entre as diferentes regiões que viveram ao lado da grande Rússia, sobressaiu, aos olhos do mundo, a nação ucraniana, que apesar das repressões, sofrimentos, tumultos políticos e desastres nucleares que a assolaram através dos tempos, permaneceu sempre como a orgulhosa e temperamental Ucrania, encruzilhada obrigatória nas rotas que ligam o báltico ao mediterrâneo. Apesar de manter sempre a sua identidade própria, a sua história recente confunde-se com a da URSS. Por isso, a vida e obra do seu futebol, personificada num homem de uma inteligência superior, futebolisticamente avançado no tempo, Valery Lobanovsky,, apenas faz sentido se interpretada no contexto do futebol soviético. Para muitos não existem grandes dúvidas que os maiores génios do temido futebol da URSS eram, na sua grande maioria, produto da escola de futebol ucraniana, (Blokhine, a flecha de Kiev, acima de todos) dona de um génio criativo superior ao da escola russa. Juntas, elas eram, o método e o génio.

futebol de lesteFoi nos anos 70 que, inspirado no futebol total, Lobanovsky, o homem que nunca sorri, finda a carreira nos relvados, começou a congeminar, nos laboratórios de Kiev, o chamado futebol científico, obra táctica sistematizada para deter o menos tempo possível a posse da bola, reduzindo o tempo a pensar com ela nos pés, preferindo o passe ao primeiro toque, com velocidade e eficaz ocupação de espaços vazios em lineares jogadas de contra ataque. O ideal colectivista em forma de movimento táctico futeblistico. Um estilo que foi, durante décadas a imagem das equipas de leste, mais ou menos cotadas, que incutiam grande respeito nos anárquicos adversários do ocidente. Era raro um jogador destacar-se num onze tipicamente de leste, pelo que os eleitos teriam mesmo de ser jogadores de grande dimensão. Também o futebol era obrigado a construir a nova e superior noção do chamado hommo sovieticus, á imagem do homem socialista, regido pelos ditames do colectivo.

Ao longo dos tempos, a máquina de futebol de Kiev teve sempre um principio básico: a disciplina táctica unida ao estudo do comportamento físico e da disciplina mental. Um conceito que interpretado por jogadores talentosos, ofereceu ao mundo um futebol feito de rápidas triangulações ao primeiro toque, com a bola a ser sempre jogada nos espaços vazios e onde o drible era considerado uma estéril lateralização de jogo. Um estilo que foi, durante décadas, a imagem das equipas de leste, sobretudo, nos anos 70 e 80, as soviéticas, polacas e checas, que faziam tremer os anárquicos adversários do ocidente. Era raro um jogador destacar-se num onze tipicamente de leste, pelo que os eleitos eram mesmo grandes estrelas: Blokhine e Zavarov na URSS, Nehoda e Panenka na Checoslováquia, Lato e Boniek, na Polónia. Ver jogar essas selecções, nos anos 70 e 80, era ver jogar a perfeita coordenação entre a capacidade técnico-atlética e a velocidade com bola. Hoje, findo o Pacto de Varsóvia, o estilo do futebol de leste mudou, no design e no temperamento. Na Rússia, por exemplo, jogadores como Mostovoi, Iszmailov ou Karpin são já, no génio e carácter, um produto da nova geração do futebol russo. Por toda a região leste, o estilo passou, então, a ser mais curto e apoiado, com maior número de passes a meio campo, e, ao contrário do passado, a bola não é solta tão rapidamente. Embora sedutoras, as suas equipas já não possuem a mesma inteligência de movimento colectivo. Não é, fácil, porém, criar uma nova identidade futebolística. Socialmente, toda as nações de leste ainda vivem uma profunda crise existencial. O futebol, em campo, ressente-se disso.

O Danúbio, as Balcãs: diamantes da técnica

Futebol de leste1Embora alinhada pela cortina de ferro do leste europeu, a antiga Jugoslávia, a velha pátria unida de Tito, utopia territorial que os ventos de final de século desmembraram, criou dentro de si, no entanto, outro estilo de futebol. Mais tecnicista, com valores individuais que emergiam sobre os outros pela magia do seu futebol, definido pelos especialistas como “O Brasil da Europa”, pela beleza dos seu adornos técnicos e malabaristas, interpretados, ao longo dos tempos, por magos eslavos como Sekularac,Mitic, Bobeck, Savicevic, Stojkovic... Dentro da velha Jugoslávia, a Croácia viveu e cresceu desassombrada, nas margens do Adriático, diferente e rebelde. Antropologicamente, a maioria dos croatas, morenos e de alta estatura, pertencem á raça adriatica, intermediária entre os eslovenos e os sérvios. Na encruzilhada da memória, mesmo antes do desmembramento da união, descobriu no futebol uma suprema forma de reconhecimento internacional. É assim a alma croata. Em poucos anos, da guerra civil ao terceiro lugar no Mundial de futebol França-98, num onze inolvidável onde brilhavam Prosineski, Boban e Suker, entre outros.. Comparativamente com, por exemplo, o futebol sérvio, os croatas cultivam um estilo consistente no equilíbrio técnico-Táctico, fruto talvez da maior valia individual desta primeira geração de talentos já toda formada no pós-guerra, á luz de conceitos menos rígidos na abordagem colectiva do jogo. Produto da divina escola centro-europeia que dominou o futebol do Velho Continente nos anos 30/50, a Checoslováquia foi, junto com a Áustria e a Hungria, um dos vértices do mágico triângulo danubiano que assombrou o mundo do futebol durante a primeira metade do século. Apear da enorme influência da comunidade alemã, depois da pioneira influência britânica, o futebol checo não se deixou moldar pelos rígidos ditames físicos da concepção futebolística germânica ou inglesa. Fortes fisicamente, os checos desenharam um jogo algo duro na defesa, mas eminentemente técnico a meio campo e criativo na frente de ataque, onde tiveram sempre jogadores que repugnavam o choque e, dizia-se nos anos 60, tempo do fantástico Masopust, tinham medo de lesões. Depois do Mundial de 62, onde foi finalista, o futebol checo desapareceria, porém, dos grandes palcos do Mundial.

Em 1990, na Itália, a Checoslováquia faria a sua ultima aparição, como selecção unida, num Mundial. Era a equipa de Chovanek e Skuravy que, na linha táctica e técnica das suas antecessoras, atingiria os quartos-de-final. A 1 de Janeiro de 1993, na sequência do terramoto de fim de século que desmembrou toda a Europa de leste, a velha união dos checos e eslovacos desintegrou-se e a Checoslováquia desapareceu do mapa dando origem a duas novas nações: a Republica Checa e a Eslováquia. Em termos futebolísticos, o herdeiro legitimo da velha herança checoslovaca, é a selecção da Republica Checa. O estilo que hoje se vislumbra em talentos como Nedved, Rosicky, Poborsky ou Smicer, é o mesmo que fez a história do futebol checo. Disciplina táctica, resistência e técnica.