O futebol, uma equipa e o desejo de “coisas impossiveis”

25 de Junho de 2015

No inicio das conquistas europeias foi Juande Ramos e um sistema de aproveitamento da verticalidade do contra-ataque. No presente, é Unay Emery e um conceito de jogo que tem algum contacto na velocidade ofensiva dos últimos 25/30 metros, mas que se revela também forte no ataque posicional embora com entradas desde trás. É esse o grande segredo deste atraente Sevilha de Emery: a saída/inicio de construção e como, na frente, transforma laterais em extremos e extremos em interiores. Princípios de jogo surpreendentes/desequilibradores. A base está na saída desde trás que diz como quer começar a jogar.

É o ponto onde mais se nota a evolução tática de Emery nas últimas épocas. Em relação aos tempos no Valência, é hoje muito “mais treinador”. A todos os níveis.

Na Final com o Dnipro, essa já chamada inovadora “saída emeryana”, traduzia-se (em 4x2x3x1) no recuar de todo o seu trio do meio-campo (duplo-pivot e nº10).

O primeiro recuo é do pivot (Krychowiak) para sair a jogar entre os centrais que alargam. O segundo recuo é mais surpreendente, porque não é o outro pivot (neste caso Mbia) que baixa mas sim o 10, Banega, ficando nesse momento/espaços quase como um nº8 de frente para o jogo.

Emery coloca assim o seu médio tecnicamente e com maior visão de jogo a organizar o inicio da construção. (M`bia, mais combativo, fica na meia-direita). Assim, para sair seguro pelo corredor central, Krychowiak tinha três linhas de passe para ultrapassar a pressão alta dos avançados do Dnipro (o ponta-de-lança Kalinic e o falso, Rotan).

Na segunda fase de construção, para colmatar o vazio que fica no centro da segunda linha ofensiva do meio-campo com o recuo de Banega, surgem os movimentos interiores dos alas (Reyes-Vitolo) que passam a jogar por dentro, nas costas de Bacca (notável o passe de Reyes para o 2-1 de Bacca) dando toda a faixa à subida dos laterais Trémoulinas e Aleix Vidal, que se projetam logo no primeiro momento de saída de Krychowiak.

Começar a jogar conseguindo superar as zonas de pressão do adversário é dos maiores desafios de um treinador ao preparar o jogo, cruzando os seus princípios de jogo (e jogadores ao dispor) com o estudo do adversário. Sabendo como estrategicamente ultrapassar a pressão. Penso que este factor é hoje dos mais fortes que definem o treinador Emery.

Como último elo do modelo, Bacca, um ponta-de-lança que inventa movimentos de desmarcação, mas em quem sinto sempre ter o faro daqueles nº9 que cheiram o erro adversário, ou onde a bola vai cair, e surgem, como saídos do alçapão na relva, no espaço vazio para atacar a baliza e marcar. Parece sempre na berma da exaustão física. É nesse momento que descobre o... erro. E culmina todo o “processo de jogo emeryano” com a bola nas redes.

COMO CARRIÇO É UM PILAR DO ONZE

Perceber como Carriço se fixou como um elemento-chave neste Sevilha ao mais alto nível internacional é observar como um treinador deve explorar ao máximo aquilo que um jogador faz bem e nunca lhe pedir aquilo que... não sabe fazer.

Nesta Final, jogou a central, mas em muitos jogos tem jogado à frente da defesa, como médio trinco/pivot, em dupla ou sozinho (perdido no passado ficou a critica feita a Paulo Sérgio quando apostou nele nesse lugar num jogo em Paços Ferreira). Nesse espaço, porém, não melhorou tecnicamente em construção. Antes afinou o seu sentido posicional e intensidade de corte e recuperação em bolas divididas. Por isso a combinação entre trinco e pivot (por esta ordem).

O seu futebol pode, neste cenário, parecer rudimentar (estilisticamente um “pica-pedra”), mas tudo isto deve ser entendido para além do traço individual, obrevando sim sua influência no coletivo. E, nesse sentido, Carriço (também perigoso nas bolas paradas ofensivas) tornou-se um pilar do onze.