GUARDA REDES: O JOGADOR SOLITÁRIO

21 de Julho de 2007

GUARDA REDES O JOGADOR SOLITÁRIO

Reza a história que o primeiro grande guarda-redes do mundo do futebol viveu em Espanha: Ricardo Zamora, de seu nome; "EI Divino", de sua graça, estrela dos anos 30. Mas é, mais ou menos, unânime dizer que o supremo mito das redes foi um coronel do exército soviético: Lev leão, em russo - Yashine, a "aranha negra", nome que o imortalizou por equipar sempre de preto. No passado, os jogos entre a selecção da FIFA eram alvo de grande atenção. Nos anos 60, entre as redes, era usual jogar, numa parte, Soskic, e, na outra, Yashine. O jugos lavo era um assombro: voava frequentemente, para gáudio dos fotógrafos.

Depois, vinha o russo e "estragava" tudo. Defendia de pé, sem malabarismos ou voos rasantes, o que o outro defendia com todo o espectáculo.No final, todos ficavam deslumbrados com Yashine, que fazia o mesmo trabalho com metade do esforço. A lenda da "aranha negra" atravessou gerações e, ainda hoje, ele évisto como a referência maior quando se fala em grandes guarda-redes, não tanto pelos seus dotes técnicos, mas sobretudo por ter sido ele o precursor de uma nova forma de estar na baliza. A partir da "era da aranha", os "números 1" deixaram de estar imóveis entre os postes, vivendo apenas nos últimos onze metros do campo. Passaram a ter um papel mais activo, saindo da baliza e tornado-se, de "corpo inteiro", um jogador de equipa.

Icebergs e gatos voadores

GUARDA REDES O JOGADOR SOLITÁRIOAo longo dos anos, a escola de Leste criou o mito do guarda-redes frio, quase glaciar. Um "iceberg" entre os postes. Apesar de a memória abrigar nomes como o checo Grosics e o austríaco Koncilia, só nos anos 80, com Dassaev, o Leste voltou a ter um guarda-redes verdadeiramente digno da herança da aranha. O ponto fraco dos gigantes de Leste acaba sempre por estar fora dos postes, na saída a cruzamentos. Muitas vezes, calculam mal tempo de saída, e as redes ficam desertas. Em terras germânicas, encontramos balizas guardadas por "polvos gigantes" ,, como Sepp Maier, que, quando a bola está longe, parecem guiar toda a manobra da equipa com as suas enormes luvas. Para o alemão Schumacher, ídolo dos anos 80, um bom guarda-redes deverá ter, pelo menos, 1,80 metros de altura. Morfologicamente, os latinos são de baixa estatura. Olhando um guardião italiano ou português, nunca ficamos com a sensação de que ele "enche" a baliza. O recurso só pode ser a agilidade felina. Em 1998, a França conquistou o mundo com o "volant" (o voador) Barthez. O careca gaulês, apesar de algumas saídas suicidas - típicas deste tipo de guarda-redes -, nunca treme antes de voar para uma bola, esteja ela no limite da área ou perto da linha de golo, habituado que está, como todos os "keepers" da sua estirpe, a respirar fora dos postes. Um contraste, por exemplo, com o jugoslavo-croata Ivkovic que quase precisavam de um garrafa de oxigénio antes de sair a um cruzamento.

Para Alex Ferguson, no presente, «os melhores guardiões do Mundo são italianos». Uma opinião com muitos argumentos. A escola italiana abriga um conjunto de excitantes "porTiere", como Buffon, que revelam excelente posicionamento, agilidade, capacidade de orientar a defesa e loucura "q.b".

Atributos que se aplicavam a Zoff, campeão mundial em 1982 com 41 anos. Então, Zoff fazia valer a sua experiência e liderança. Chegava ao fim dos jogos rouco de tanto gritar com a defesa, mas, tal como os "gatos voadores" de hoje, regeu toda a carreira pela utópica busca da perfeição. Digna de registo é também, nos anos 80, a escola belga, que gerou os imensos Pfaff e Preud'homme, homens que caíam com o corpo em cima da bola. Pareciam usar sempre luvas gigantes, tal a forma como escondiam a bola quando a caçavam, nas alturas ou rente à relva.

A defesa impossível

GUARDA REDES O JOGADOR SOLITÁRIOGordon Banks. Sóbrio, mas com um poder de impulsão invulgar, ele fez a mais famosa defesa de todos os tempos, no Mundial'70, ao defender, junto à relva, um forte cabeceamento, de cima para baixo, executado por Pelé. Nesse dia, o «keeper» inglês Banks fez a chamada "defesa impossível", dando uma sapatada na bola, enviando-a por cima da barra, quando ela parecia entrar junto ao poste. «É engraçado que, ainda hoje, as pessoas, quando vêm ter comigo, me falam desse jogo com a Inglaterra, mas não falam do resultado. Só falam dessa defesa do Banks», conta, intrigado, Pelé. A carreira do monstro da "Velha AIbion" foi interrompida em 1972, depois de um grave acidente de viação que lhe roubou a vista num olho. Mesmo assim, ainda voltou a jogar por algum tempo, até 1977, nos EUA. Um homem que serviu de modelo aos seus sucessores Clemence, Shilton e Seaman - que, apesar de cultivarem o mesmo estilo, nunca alcançaram a sua dimensão.

Higuita, «escorpião louco»

GUARDA REDES O JOGADOR SOLITÁRIOPode-se admitir, em rigor, que em vez de 4x4x2, deve-se falar de 1x4x4x2, mas, vendo bem, há quem desminta essa teoria. René Higuita, o louco guarda-redes colombiano que, entre os anos 80 e 90, assombrou todos pela forma como saia da baliza com a bola dominada, tentando o drible e lançaando o ataque. Se calhar, para fazer o esquema rigoroso daquela Colômbia de Maturana devia falar-se até num... 5x4x2. Era mais do que um guarda-redes libero. Cada saída era uma aventura. De alto risco. Como Roger Mila explicou no Mundial 90, roubando-lhe a bola e fugindo sozinho para a baliza deserta. Higuita nem pestanejou. No jogo seguinte, fez o mesmo. A defesa do escorpião em Wembley atingiu a perfeição da loucura. «Quando deixar de jogar, as pessoas lembrar-se-ão sempre de mim como alguém que trouxe alegria ao jogo» - diz o colombiano. Numa definição ainda mais exótica, ele era um jogador de campo que às vezes recuava para a baliza.

 

GUARDA REDES O JOGADOR SOLITÁRIOHistoricamente, em termos de estilo, a América do Sul preconiza uma forma diferente de sair da baliza. A partir dos anos 60, todos os guarda-redes europeus saem em queda aos pés do avançado, colocando lateralmente o corpo. Na América do Sul, saem de joelhos com o corpo na vertical. Um contraste consagrado, por exemplo, pelos argentinos Filiol e Pumpido. Hoje, esta diferença menos evidente. A escola africana vive da conceptUal colonização estilística que, em cada região, se faz sentir. É curioso notar que, para Buffon, o guarda-redes idolatrado seja o camaronês N'Kono. Foi no Mundial'82 que este gigante africano se tomou famoso. A sua originalidade estava na forma imóvel como ficava, de braços caídos, quando um avançado lhe aparecia pela frente isolado. Apesar de não inspirar confiança total, N'Kono defendia bolas incríveis, para depois deixar escapar outras inofensivas. Com ele, nasceu, nos Camarões, uma tradição de grandes guarda-redes, como Bell e Songo'o. Todos de calças e braços que "nunca mais acabam", parecem ter um íman nas luvas. Os adeptos das suas equipas ganharam mais cabelos brancos, mas também ficaram com histórias para, mais tarde, contar aos netos...

O drama brasileiro

GUARDA REDES O JOGADOR SOLITÁRIOPodemos, em traços largos, distinguir, no futebol europeu, quatro escolas diferentes de guarda-redes: a latina, a de Leste, a britânica e a do Norte da Europa, cada uma com o seu estilo, mas todas distantes do exotismo da escola sul-americana. Nas "peladas" de rua, quem vai para a baliza, normalmente, é sem. pre aquele que exibe menores dotes técnicos. Um destino traçado desde menino. O Brasil é dono do futebol mais admirado em todo o Mundo, mas os seus guarda-redes sempre foram alvo de piadas. Na Europa, diziam que eles cresceram com as galinhas. Depois do "gato Félix" em 70, o "escrete canarinho" viveu de Leão, atéque a partir dos anos 80, com Valdir Peres e Taffarel, o problema se tornou sério. É caricato notar como os jogadores brasileiros ficam admirados quando, na Europa, assistem à forma de os guarda-redes europeus blocarem a bola. Embrulhando-a com os braços, quase como se segura um bebé, com firmeza, em oposição à leveza com que os sul-americanos a agarram com a palma das mãos.

Tudo traços que definem diferente'ir formas de estar no futebol. Contava o malogrado Barbosa, o guarda-redes do Brasil batido pelo Uruguai no Mundial'50, que «já revi esse golo milhares de vezes na minha cabeça. Todas as noites, sonho com essa bola na minha direcção, e eu deixo-a escapar. Já passaram quase 50 anos, mas ainda há pouco uma senhora, quando me viu numa loja, disse para um menino que trazia pela mão: «Vês, meu filho, foi esse homem que fez chorar milhões de brasileiros...» Entendem agora do que se está a falar? Guarda-redes: onde eles pisam, a relva deixa de crescer...

Em rigor, o guarda-redes é um solitário. Não tem companheiros directos de sector, apesar da tentativa de Camilo José Cela que num fantástico e disparatado conto de futebol inventou uma equipa, treinada por um cavalo, que jogava com dois guarda-redes. O guarda-redes direito e o guarda-redes esquerdo. No mundo real, ele ainda continua, porém, único dono da baliza, mas há muito que a sua importância do guarda-redes em ternos de participação e influência no jog cresceu para lá das defesas milagrosas. O facto de passarem a ser obrigados a jogar com os pés forçou-os, desde logo, a ter outra base técnica. Durante algum tempo, notou-se a diferença entre aqueles que fizeram toda a carreira podendo receber com as mãos passes de colegas, e outros, da nova geração, desde o inicio limitados às novas regras. Jongbloed, na Holanda de 74, foi o precursor nesse aspecto. Tacticamente, existem três sectores numa equipa. Defesa, meio-campo e ataque. A noção de bloco que o jogo moderno trouxe, impondo em nome da coesão táctica que os sectores se devam manter unidos em campo, obriga, muitas vezes, a defesa, na tentativa de acompanhar a dinâmica desse bloco, a subir no terreno, aumentando então a distância que a separa do guarda-redes. Um dos perigos que resulta daqui são, por exemplo, os passes em profundidade que colocam a bola nas costas da defesa então subida.

Para preencher esse espaço vazio impõe-se o adiantamento do guarda-redes para perto da entrada da área, de forma a antecipar qualquer bola que surja nessa área. Tal exige leitura de jogo atenta, velocidade e bom jogo de pés, para chegar primeiro à bola que o avançado, numa zona onde é proibido jogar com as mãos. É uma espécie de guarda-redes libero. Outro dos grandes atributos dos guardiões do presente é reposição da bola em jogo. Rápida e precisa, lançando o contra-ataque com as mãos. Schmeichel era prodigioso nesse gesto, mas o primeiro a fazê-lo de forma sistemática foi, em 70, o brasileiro Félix. No presente, Helton é dos que marca a diferença nessa acção. Como definir, então, um guarda-redes moderno? Quando a equipa tem a bola, é mais um jogador. Quando a perde, tem de lhe conseguir dar pelo menos 20 metros de risco para estar subida, pois, nesse momento é ele quem lhe protege as costas. Tornou-se um jogador de equipa de corpo inteiro. Quem não tiver um com estas duplas características, fica desde logo muito limitado, não a defender, mas sobretudo a atacar!