GUSZTAV SEBES (1906-1986)

16 de Maio de 2005

A fabuloso história da «Aranyacspat» - a equipa de ouro, em húngaro- que, em 1953, fez cair, em pleno Wembley, o monstro táctico do WM, e iniciou uma nova era dentro do mundo do futebol. Nessa tarde, sob a sumptuosa relva de Wembley, diante do nariz dos altivos ingleses, um grupo de onze húngaros dirigidos pelo mestre Gustav Sebes, iam inventar uma nova forma de jogar futebol, reduzindo a cinzas o velho “WM”, orgulhosamente criado e jogado pelos ingleses, nesse tempo considerado um sistema invencível. Pela primeira vez os números nas camisolas – até hoje uma referência á posição dos jogadores em campo- foram utilizados para confundir os adversários. Nessa tarde, os britânicos, no relvado e na bancada, não entendiam onde jogavam os magiares, com o nº9 na defesa e o nº3 no ataque, inseridos num dinâmico esquema que se desenhava em “MM”, de posse da bola, e em “UM”, sem a bola.

O segredo era um falso ponta de lança, Hidegkuti, que recuando no terreno Sabendo que os laterais ingleses iriam marcar os seu extremos, Budai e Czibor, e o stopper Johnston ia cair em cima do avançado centro, Sebes fez este dar três passos atrás no campo, obrigava o seu marcador a subir para o acompanhar. Era então nesse momento que metia a bola nos espaços vazios, nas costas da defesa inglesa, com esse movimento colocada fora do seu posicionamento habitual, onde, após velozes diagonais, surgiam a voar baixinho Czibor, Puskas, Budai e Kocsis, isolados diante Merrick. Nesse sistema, que no fundo apenas mexia uma peça do “WM”, os húngaros esmagaram, 6-3! a Inglaterra, que assim pedia pela primeira vez em casa contra uma selecção não britânica. Um mês depois em Praga venceram por 7-1! Nos anos 50, pode-se dizer, começou o futebol da era moderna. Pela mão de Gustav Sebes, a Hungria mostrou ao mundo um novo caminho táctico, desmistificando o “WM”. Não podia escolher melhor palco para essa lição táctica: Wembley! Era o nascer do 4-2-4, um estilo sem posições definidas, com os números das camisolas baralhados e os jogadores a movimentarem-se constantemente. Era, pura e simplesmente, o nascer do Futebol Total que, 20 anos mais tarde, o mundo quis atribuir apenas á escola holandesa. Não foi. Os percursores foram os húngaros e, lembrando a Áustria dos anos 30, todo o futebol centro europeu desde 1930 a 1956. Muito do que hoje se fala sobre polivalência dos jogadores já tinha sido feito pelos húngaros 40 anos atrás.

GUSZTAV SEBESA construção da sua Aranyacspat -equipa de ouro, em húngaro- é das mais apaixonantes páginas da história do futebol mundial. Criada pela política e pela força das armas, acabaria por conhecer o seu fim, alguns anos depois, através dos mesmos meios. Para entender a sua filosofia e destino é necessário recuar até meados dos anos 40, quando torturada pela guerra, a nação húngara, invadida pelas tropas de Hitler, vivia mergulhada num profundo sofrimento. Perante o avanço das tropas soviéticas, Budapeste torna-se num autêntico campo de batalha. Em poucas semanas, a bela cidade ficou esventrada pelas bombas da guerra. Terminado o confronto mundial com a vitória dos aliados, a Hungria caiu nas mãos do triunfante regime soviético que, depois de expulsar o monstro nazi, lançou-se na reconstrução da cidade. A paixão pelo futebol resistira a todo este sofrimento e no clima do pós-guerra transformava-se num grande divertimento para todo um povo devolvido á vida. Sábio, o regime comunista transforma então o futebol, numa bandeira política, elegendo para chefe da selecção nacional, o vice ministro dos desportos da Hungria, Gusztav Sebes, um homem com recomendáveis credencias socialistas que tempos antes, em meados dos anos 30, organizara, em Paris, uma manifestação de operários da Renault e que depois fora um dos principais activistas do movimento sindical na Hungria do pós-guerra. No plano futebolístico, Sebes actuara, como jogador, por várias equipas húngaras, como o Haladas, Vasas e MTK, para além de uma curta passagem pelo futebol francês, no modesto Billancourt. Finda a carreira nos relvados decidira tornar-se treinador porque para ele, dizia, o futebol era uma questão existencial. Seriam, no entanto, os seus créditos políticos, apreciados pelo poder stalinista, que o iriam levar, em 1949, até ao banco da selecção húngara.

Era, portanto, um homem perfeitamente identificado com o pensamento do governo húngaro em manusear o futebol como um instrumento de propaganda. Feroz defensor da ideologia comunista, fazia os jogadores sentir isso todos os dias. Qualquer jogo internacional era transformado num confronto político, entre o capitalismo e o socialismo. Costumava dizer que esse desafio acontecia num relvado de futebol, como em qualquer outro sector da sociedade. Para construir uma grande selecção de futebol, Sebes tinha um plano, onde era fundamental que os jogadores jogassem juntos durante o maior tempo possível. Como a selecção só se reunia de tempos a tempos, restava a solução de reunir a maioria deles, a base do onze, num mesmo clube. O maior clube húngaro dessa época era o Ferencvaros, mas no seu passado morava já várias atitudes de exacerbado nacionalismo, abrigando no seu seio alguns dissidentes do regime comunista, ao ponto de ter sido, após a guerra, adoptado pelo sindicato dos trabalhadores da comida.

GUSZTAV SEBES3Existia um pequeno e obreiro bairro chamado Kispest, onde morava um modesto clube com o mesmo nome, que, fundado em 1909, passara quase anónimo até ao inicio da Segunda guerra mundial, período no qual apenas vencera uma Taça, em 1926, e, tivera, como melhor proeza no Campeonato, um honroso segundo lugar. Para Sebes este seria o clube ideal para construir o seu grande projecto futebolístico. Assim, por imposição estatal, o modesto Kispest AC, passa a ser controlado pelo exército, mudando o seu nome para Honved, isto é, Defensores da Pátria, em húngaro. Quando escolheu o modesto Kispest para incorporar o espírito futebolístico húngaro, Sebes teve a sorte de encontrar já nesse pequeno clube do lado sul de Budapeste, os grandes jogadores Puskas e Bozsik, amigos de infância que não tinham conhecido outra equipa na vida. Partindo deles, começou a construir a grande equipa, requisitando para o clube, em nome do Estado, os melhores jogadores do país, que assim adquiriam patentes militares, visto que o Honved era a equipa do exército húngaro, como foram os casos de Czibor, vindo do Csepel, e do guarda redes Grocis, o defesa Lorant e os avançados Budai, Kocsis e Czibor, vindos do Ferencvaros, praticamente desmantelado.

As transferências passariam a ser decididas em função do interesse nacional. Com a morte do pai de Puskas, que fora treinador do Kispest nos primeiros anos, Gustav Sebes apontou Janos Kalmar como o técnico incumbido de fazer o grande Honved. Considerado um dos melhores treinadores do futebol húngaro, Kalmar fez carreira no MTK Budapest, Ferencvaros, Csepel e Dorog. No Honved, reunindo uma grupo de sonho, Kalmar formou uma equipa invencível, que deslumbrou pela sua fantasia técnica e talento táctico, conquistador de cinco títulos de campeão húngaro (50, 52, 54 e 55). Uma autêntica máquina de bom futebol. Durante toda a primeira metade da década de 50, não houve, na Europa, uma equipa tão brilhante como a do Honved.
GUSZTAV SEBES4No seu livro de memórias, intitulado Alegrias e desilusões, Gusztav Sebes, confesso admirador de Meisl e Pozzo, explica que para formar uma grande equipa não basta reunir jogadores com grandes dotes técnicos. Essas qualidades só serão decisivas se forem acompanhadas de uma inteligência de jogo especial e um comportamento forte nos treinos e, sobretudo, no modo de vida. Por isso considerava obrigatório conhecer a personalidade de todos os seus jogadores fora de campo. Como grande exemplo de um jogador completo sob todos esses aspectos, citava o nome de Josezf Turay, avançado centro do Ferencvaros, um dos melhores jogadores da história do futebol húngaro. Em campo era a inteligência personificada a jogar futebol. Fora deles, não sabia ler nem escrever. Quando, porém, se tornou famoso em todo o país, teve a humildade de revelar aos seus dirigentes que era analfabeto e que isso lhe fazia sentir um enorme complexo de inferioridade, pelo que queria aprender a ler e escrever. Já era um jogador de nível internacional quando terminou os sus estudos. Para Sebes, ele era o exemplo do carácter que teriam de ter todos os jogadores da equipa que estava a construir. A sua selecção iria basear-se, assim, em dois blocos. O principal era, naturalmente, o do Honved, com Puskas, Bozsik, Kocsis, Grosis, Czibor e Lorànt. Os restantes elementos vinham do Voros Lobogo, antigo MTK, e eram Hidegkuti, Lantos e Zakarias. Seria esta a base da sua Aranycsapat, que entre 14 de Maio de 1950, derrota na Áustria por 5-3, e o 4 de Julho de 1954, data da dramática final do Mundial-54, ficaria quatro anos sem perder, somando, em 32 jogos, 29 vitórias e 3 empates, 143 golos marcados e 33 sofridos. GUSZTAV SEBES5O primeiro grande momento desta equipa de ouro aconteceria com a conquista do Jogos Olímpicos de 1952, em Helsínquia. Para além da magia técnica dos seus jogadores, o onze revelava, tacticamente, uma nova concepção de jogo que partindo do clássico WM, revolucionou todo o mundo do futebol a partir da histórica vitória sobre a Inglaterra na sagrada relva de Wembley. O curioso é que Sebes confessa que esta revolucionária ideia táctica nascera a partir do momento em que deixara de poder contar na equipa com o poderoso avançado centro Bamba Deak, um goleador sensacional que na época de 45/46 marcara 66 golos em todo o Campeonato húngaro, mas que por ter contestado o regime comunista fora politicamente afastado da selecção. O seu substituo seria, em principio, Palotas. Era um avançado razoável, mas em toda a carreira nunca demonstrara ser dono de dotes técnicos e tácticos muito de acordo com os exigentes critérios de para Sebes. É nesse momento que o seleccionador húngaro resolve adaptar um virtuoso médio ala direito ao posto de avançado centro: Nandor Hidegkuti, um artista, é certo, mas sem qualquer estilo para o novo lugar designado por Sebes. O golpe de magia táctico surgiria com o seu recuo no terreno, mal se desse o inicio do jogo, deixando, o centro do ataque aparentemente deserto, apenas com os Puskas e Kocsis, encostados sobre os flancos, por perto. Quando a bola começava a rolar, no entanto, o espaço seria ocupado, em flecha, por vários elementos, lançados por mestre Hidegkuti, que nunca na vida fora, ou seria, avançado centro.

GUSZTAV SEBES6Para além de saber jogar com o comportamento humano, Sebes passava também muitas horas pensando em pequenos detalhes do jogo. Da memorável vitória e exibição de Wembley todos falam do resultado e da táctica, mas, como confessa na suas memórias, para ele, esse histórico triunfo só fora possível devido a dois pormenores por ele verificados alguns meses antes, em Novembro de 1953, quando, já estando marcado o encontro com os ingleses, se deslocara a Wembley para assistir a um jogo entre a Inglaterra e uma selecção do resto do mundo, que terminaria 4-4. Amigo de Stanley Rous, presidente da Federação inglesa, de quem recebera pessoalmente o convite para o encontro de 1954, Sebes desceu ao relvado pouco antes do inicio do jogo e reparou que a bola nunca saltava mais de um metro. Ficou curioso e na manhã seguinte regressou ao Estádio. Calçou umas chuteiras e, de fato e gravata, correu com a bola no relvado, fez uns remates e observou os ressaltos que ela fazia. Mediu a largura e o cumprimento do campo, perante o olhar espantado dos tratadores de relva e antes de partir de regresso a Budapeste pediu ao amigo Stanley Rous que lhe oferecesse três bolas de marca inglesa. Na Hungria, alargou o campo de treinos para 110 por 70 e, três vezes por semana, os jogadores treinavam com as bolas inglesas, simulando situações de jogo, um exercício que nessa altura ainda era muito pouco vulgar na maioria dos países. Quando meses depois a selecção magiar entrou no Wembley já nada lhe era estranho. Sebes tinha reproduzido, num simples campo de treinos de Budapeste, todos os importantes pormenores do fantástico cenário inglês. O resto da história resume-se á exibição sobrenatural e á sensacional vitória por 6-3!
GUSZTAV SEBES7Na Hungria, a derrota despertou a fúria dos adeptos que já davam como certa a conquista do titulo mundial e de imediato culparam Sebes pelo desaire. Uma das acusações tácticas era a de ter colocado, na final, Czibor a jogar na direita, onde o seu pé esquerdo não poderia funcionar na plenitude. Sebes explicou que a intenção era aproveitar a debilidade do lateral esquerdo alemão Kohlmeyer, mas ninguém o queria ouvir e a sua casa era assaltada. Na ala esquerda jogara então Toth, de quem se dizia ser casado com uma filha de Sebes e só por isso é que alinhava. Quando, á chegada á Hungria, o ministro Zoltan Vas recebeu o seleccionador com a família e só viu com eles duas crianças perguntou por essa outra filha. Foi quando Sebes soube do boato e ficou estupefacto.

Aquelas eram, na verdade, as suas duas únicas filhas. Tinham dez e onze anos. Enfurecido, Sebes exigiu o desmentido e no dia seguinte o Esti Budapest publicava uma fotografia da miúda com a seguinte legenda: “A filha de Sebes que segundo muitos é casada com Toth, está perto de completar onze anos.” A contestação em torno de Sebes tornou-se enorme. Pouco importavam as suas explicações e a certeza de que o árbitro invalidara um golo limpo a Puskas que daria o 3-3. Orgulhoso, recusou sempre demitir-se apesar da mulher, insultada na rua, suplicasse que o fizesse. Acabaria por ser afastado apenas dois anos depois desse maldito jogo de Berna, em 1956, após uma derrota com a Bélgica, sendo substituído por Bukovi no cargo de seleccionador nacional. Aos poucos a sua fabulosa selecção começava a desaparecer. Grocis fora preso acusado de espioGUSZTAV SEBES8nagem contra o Estado e, ao mesmo tempo, da mesma forma que fora formado, o Honved também era desfeito pela força das armas e da política. Tudo sucederias consumaria em 1956.

Com a subida ao poder, na URSS, de Krushchev, opositor de Staline, morto em 1953, crescia, pelas ruas de Budapeste, o descontentamento popular para com o duro e repressivo regime estalinista de Rakosi. Futebolisticamente, o sorteio da Taça dos Campeões ditava um jogo entre o Honved e o At.Bilbao. Foi então que, em meados de 1956, no mesmo dia em que os campeões húngaros se preparava para jogar em Espanha, o povo de Budapeste revoltou-se contra o regime comunista. A revolta alastrou a toda a Hungria e ameaçou estender-se aos países vizinhos. Foi então que os tanques soviéticos invadiram a cidade e esmagaram a revolução. A aventura do grande Honved e da Aranycsapat, equipa de ouro, terminava sem glória. Com o passar dos anos, a história viria, no entanto, a fazer justiça a Sebes que tornaria-se adorado por todo o futebol húngaro. Treinaria ainda o Honved, o Ujpest e, nos anos 70, a selecção sub-23. Entretanto, a memória da sua equipa de ouro entraria no abrigo das lendas do futebol. Morreria a 30 de Janeiro de 1986, uma semana depois de completar 80 anos.