HELÉNIO HERRERA (1916-1997)

16 de Maio de 2005

"Classe + Preparação atlética + Inteligência = Scudetto"

Frase escrita por Herrera na parede do balneário do Inter nos anos 60. Recuemos até Milão no inicio dos anos 60. Após conhecer 12 treinadores em 5 anos, o Inter começava a acordar para o seu dourado ciclo de domínio no Calcio. Vivia-se o reinado daquele que seria o grande presidente da sua história, Angelo Moratti, empresário do ramo petrolífero, cujo legado permanece hoje com o seu filho Massimo, presidente neroazzuro no final dos anos 90. Com ele chegou a Itália, com um contrato fabuloso para a época, vindo de Barcelona, o treinador mais amado e odiado da história do futebol europeu. Nenhum outro suscitou tanta polémica: Helénio Herrera. Para uns era “El mago”, para outros era “El diablo”. Com 30 anos de avanço, ele foi o primeiro treinador-director desportivo da história do futebol. Nascera na Argentina, em 17 de Abril de 1916, mas fez-se homem em Marrocos. Jogou em França e foi treinador em Itália, Espanha e Portugal (Belenenses 57/58).

Um viajante que no mundo do futebol esteve sempre décadas avançado no tempo. Um trajecto de astúcia e inovação, que misturou com mestria todos os ensinamentos das várias escolas de futebol que o trota mundos Herrera conheceu, e que começaram nas ruas de Casablanca, que foram “uma bela escola da vida. Joguei com árabes, italianos, portugueses, espanhois, etc.” Nos movimentos puros dos miúdos da rua, o “mago” descobriu as características inatas de cada futebol. Depois, quando treinador soube colocar todos esses talentos ao serviço dos seus discutidos conceitos tácticos.
HELÉNIO HERRERA1Discípulo do francês Gabriel Hanot, com quem esteve na selecção francesa em 1947 e 1948, o seu famoso percurso técnico começou em Espanha, onde foi campeão pelo At.Madrid, com os golos de uma “pérola negra” que descobrira, em final dos anos 40, nos “pelados” de Casablanca”: Ben Barek. Depois do Málaga e do Corunha, esteve ainda no Sevilha, que transformou junto com o mítico presidente Sanchez Pijuan, numa das melhores equipas do país. No Barcelona, durante a década de 50, introduziu pela primeira vez numa equipa os médios alas e os defesas laterais, sendo o percursor da utilização, no futebol, do nacionalismo catalão: “Toda a Catalunha está atrás de nós!”, costumava gritar nos jogos e nos treinos. Venceu duas vezes o campeonato e com Kubala, o seu jogador de eleição durante os tempos que passou no Nou Camp, bateu o Real Madrid de Di Stefano, que, para Herrera, foi simplesmente “o melhor jogador do mundo de todos os tempos, melhor que Péle!”. Em 1960, o grande impulso para a contratação de Herrera pelo Inter, surgiria, porém, num jogo da velha Taça das Cidades com Feiras, quando com um venenoso esquema, o chamado “futebol de contenção”, o seu Barcelona derrotou o clube de Moratti, administrando o resultados das duas mãos, 4-0 e 2-4.

HELÉNIO HERRERA2Foi ele que ficou com a suprema imagem de mentor do “Cattenacio”, que depois do pioneiro ensaio no “WM” de Chapman, no Arsenal dos anos 30, inventou, na sua plenitude táctica, o posto de “líbero”, cujo termo diz dever-se “ao meu colega Angelo Grizzetti”. A invenção do libero fora no entanto obra de outro homem. A história começa em final dos anos 40, quando no banco do Inter se sentava então um homem que a história consagraria como uma das primeiras grandes raposas tácticas da escola transalpina: Alfredo Foni. Nessa mesma época ecoava por toda a Itália o feito de um velho técnico chamado Gipo Viani, que com uma ardilosa táctica defensiva, levara o modesto onze da Salernitana á Serie A. Corria a época de 47/48. Basicamente, Viani, num tempo em que os números nas camisolas correspondiam fielmente á posição dos jogadores em campo, alinhava um nº9, Piccinini, avançado centro por excelência, como um médio que logo após o inicio do jogo, recuava no terreno, até á defesa, para marcar individualmente o avançado centro adversário. Ao mesmo tempo, o médio Buzzegoli, colocava-se atrás da linha de defesa. Assim, quando o avançado contrário pensava, depois de fugir á marcação ao homem de Piccinni, encontrar o caminho para a baliza todo o livre, nele surgia Buzzegoli que, dobrava todo o sector, e varria a bola para longe da zona de perigo. Nascia assim o primeiro libero da história do Calcio. Em sua homenagem chamou-se a este sistema “Vianema”.

No futuro ficaria famoso como treinador do Milan onde, durante os anos 50, conquistaria dois títulos de campeão italiano. Com essa ideologia táctica, inspirada no velho “ferrolho” suíço, Alfredo Foni conquistaria, no Inter, dois scudettos consecutivos (51/52 e 52/53). Nesse tempo, o libero era Blason. Com Herrera, o libero seria Pichi, antes um discreto defesa esquerdo. A estratégia baseava-se num frio esquema defensivo, que depois usava o contra ataque como uma mortífera arma secreta, expresso num sistema mordaz que se esquematizava em 1-3-3-3, 1-3-4-2 ou 1-4-3-2. Depois do ferrolho helvético dos anos 30, obra do austríaco Karl Rappan, surgia uma nova proposta táctica baseada num sistema defensivo. Só que ao invés do “ferrolho”, utilizador de dois trincos, reconhecimento de que o adversário era superior, o “Cattenacio” era uma arma para vencer, posta em prática por um adversário teoricamente superior. onde a condição atlética dos jogadores era decisiva para o sucesso.

HELÉNIO HERRERA3Herrera nunca criticou aqueles que atribuíam a invenção do sistema a Viani e Foni, mas lembrava que antes já ele também o tinha utilizado. “Enquanto jogador, actuei como lateral esquerdo do Stade Français. Foi então que num jogo importante que vencíamos a ganhar por 1-0, eu, que era o capitão, perante as dificuldades que estávamos a sentir para segurar o resultado, resolvi, em pleno campo, mudar o sistema WM em que jogávamos. Coloquei-me atrás da defesa, á frente do guarda redes e disse a um médio para fazer o meu lugar no flanco. Quando mais tarde me tornei treinador da mesma equipa lembrei-me daquela experiência e passei a adoptar o sistema nos jogos fora ou nos encontros mais importantes ou difíceis. Os meus jogadores chamavam-lhe o sistema-cimento, porque o posto de líbero garantia um defesa quase impenetrável.” Se o WM ficara famoso por ter criado o stopper, o defesa central de marcação clássico, o Catenaccio, tornou-se uma referência de ruptura por ter inventado o líbero, que em italiano significa livre , isto é liberto de tarefas de marcação directa).

HELÉNIO HERRERA4Por toda a Itália soaram as vozes de desagrado por este triunfo táctico, que, no fundo, se limitava a tirar uma unidade ao ataque para a acrescentar na defesa. A génese ofensiva do futebol estava ameaçada. Um sistema defensivo era utilizado não apenas como um meio para não perder, mas sobretudo como uma arma para vencer. No entanto, apesar das criticas estilísticas, o Cattenacio criara raízes e desde esse tempo, até hoje, colou-se ao futebol italiano como sua imagem de marca. No seguinte, Foni, talvez ferido pelas criticas, altera o sistema e retira o libero fixo. Blasson passa muitos jogos no banco. Em troca, implanta um sistema de compensações defensivas, onde todos dobram todos, de forma a existir sempre um último homem, espécie de libero volante. Na fase decisiva do Campeonato, porém, Foni sentiu o perigo com a Juventus a um ponto e lançou na defesa um picolo ragazzini vindo da Serie D, Vincenzi. Com ele todo o sector ganhou coesão, o Inter conquistou de novo o Scudetto e, pouco depois, Vincenzi estreava-se também na squadra azzurra.

A consagração internacional do Cattenacio chegaria, na sua total dimensão, com Herrera: “Na época todo o mundo me criticou, mas hoje quase todos os treinadores me copiam e jogam com um líbero. Diziam que era ultra-defensivo, mas esquecem-se que fui o primeiro a transformar os defesas-laterais em médios-ala. Com Facchetti, era o extremo adversário que tinha de marcar o meu lateral! Mas é verdade, no meu sistema, o coração da equipa estava na defesa.” Com efeito, olhando para o pensamento e para o sistema de Herrera nele detectámos as grandes base do futebol moderno. Nele lá estão os três centrais, os laterais ofensivos, três médios na zona central, um ponta de lança e outro falso, situando-se mais atrás e cuja movimentação se situa entre o meio campo e o tal jogador mais adiantado.

HELÉNIO HERRERA5Nas paredes do vestiário, Herrera tinha escrito: classe + preparação atlética + inteligência = Scudetto. Uma fórmula vencedora materializada no campo por uma promessa que fora buscar ás camadas jovens, Sandro Mazzola, filho de Valentino do Torino dos anos 40, Suarez, o nº10 espanhol, os médios Corso e Bedin, e Jair, que descobrira no Chile, vendo um treino do selecção canarinha: “O papel dos médios era sobretudo o de anular os movimentos do meio campo contrário, povoando o miolo do terreno, para onde, silenciosamente, se incrustava um dos extremos, mas sempre preparado para, quando os adversários adormeciam, avançar em grande velocidade no contra ataque. Esse homem era Jair”, recorda Suarez. O grande suporte do onze estava, no entanto, na defesa alicerçada em torno de Picchi, com Burgnich e Facchetti como laterais ofensivos, Guarneri, central de marcação, e Tagnin, “trinco”. É curioso notar que Herrera, no inicio, começou por tentar impor um jogo ofensivo, mas as primeiras derrotas logo o levaram a recuar e a converter-se á escola transalpina, adoptando o venenoso 5-3-2 com “líbero” á italiana. Conta Suarez que “Quando cheguei a Itália estranhei que me colocassem a jogar tão recuado. Meses depois, já entendia a razão. O futebol italiano é bom tecnicamente, é hábil, rápido e sabe improvisar, mas não gosta de treinar muito, como se faz em Espanha, para nem falar nos alemães.

O carácter anárquico dos italianos sempre se reflectiu no seu jogo e, sobretudo, no treino. Procuravam o maior rendimento com o menor esforço. Sábios, descobriram que para isso o jogo defensivo era o ideal, com o que salvaram muitos resultados e como era realizado por jogadores vivos e dotados logo se converteu no sistema que melhor se adaptava ao tipo de treino e ao estilo dos seus futebolistas”. A superior visão de Suarez sobre as raízes do “calciatore” italianas, embora correctas ao tempo, não se vislumbram, porém, no presente, onde o dolce fare niente insinuado, atropelado por centenas de jogos por época, deixou á muito de ter lugar. Mas na génese descrita pelo espanhol estará a ratio que, para muitos, melhor permitirá analisar evolução táctica do futebol “azzurro”.

HELÉNIO HERRERA6A última época no activo de Helénio Herrera foi em 80-81, de novo no Barcelona, onde numa altura em que comandava a Liga, aconteceu o incrível rapto do goleador Quini. Foram momentos de sofrimento, durante os quais Herrera se recordou do conselho médico que ouvira poucos anos antes em Roma: “O cardiologista disse-me para parar com o futebol. Ouvi-o, mas...”. A força do futebol foi a única coisa que superou sempre o “mago”, mas no inicio dos anos 80, sentiu que era o momento de parar. Herrera continuou a seguir o futebol, escreveu as suas memórias e tornou-se um critico deste futebol do final de século: “Vejo o futebol actual pouco espectacular. O meio-campo está sobrecarregado. Não é raro ver sete, oito jogadores aglutinados em poucos metros de terreno.

Se hoje ainda treina-se utilizaria um sistema de marcação mista, zona-marcação individual. Os avançados têm de ser marcados em cima. Era uma loucura deixar só Van Basten ou Maradona!”. O ultimo conselho futebolístico que deu ao presidente do Inter, Massimo Moratti, filho do homem que o contratara há meio século atrás, foi a aquisição de Suker, que então considerava o melhor avançado dos anos 90, antes de este se mudar de Sevilha para Madrid. Nunca foi um admirador de Baggio: “Não o queria numa equipa minha. Quando é em marcado por um adversário deixa de existir. Os meus preferidos são Vialli e Ravanelli”. Herrera morreria em 1997, com 81 anos, passaria os seus últimos dias em Llanes, nas Asturias e quando partiu todos sentiram que com ele desaparecia um homem sem o qual a história do futebol seria totalmente diferente. Um perfeccionista, como o definiria Stefan Kovacs, para quem “se devo reconhecer-me um mestre, em toda a justiça digo que ele foi Helénio Herrera.”