HELMUT SCHON (1915-1996)

09 de Maio de 2000

"O que actualmente conta é a técnica dinâmica, a perícia em movimento, na luta pela bola. É por isso que devemos acentuar esse aspecto durante o treino especifico. Reside nesse ponto o futuro do futebol!"
Helmut Schon, em 75, durante um discurso a treinadores no congresso da UEFA

Aos poucos a Alemanha recuperava o seu prestígio. Passado o existencialismo do pós-guerra, era tempo de solidificar posições. Finda a era de Seppberger, foi tempo de Helmut Schon tomar as rédeas da NationalManschaft. Aliando essas componentes ao poderio físico e mental moldado por Herberger nos anos 50, Helmut Schon congeminaria a fabulosa selecção alemã dos anos 70. Conciliando as distintas sensibilidades que emergiam das duas grandes escolas do futebol alemão, a de Munique e a de Monchengladbach, ambas inspiradas nos livros de Colónia, Helmut Schon definiu as bases do êxito a curto prazo e lançou as bases sobre as quais o futuro do futebol germânico iria construir o seu poderio nos 20/30 anos seguintes.

Como jogador, Schon fora um médio de destaque no famoso Dresden SC, tendo jogado 16 vezes, entre 1937 e 1941, pela selecção alemã, onde fez 17 golos em 16 jogos. A segunda guerra mundial e uma grave lesão no joelho impediriam, no entanto, um maior carreira nos relvados. Com a pátria teutónica dividida, deixou o seu legado futebolístico na região leste e rumou para Ocidente. Com os ensinamentos do Tio Sepp na bagagem, do qual fora adjunto, ergueria, com a segurança dos predestinados, a grande selecção que reconquistaria em 1974 o titulo mundial para a nação germânica.

HELMUT SCHONNatural da Saxónia, ou seja de Dresden, Schon personificou o típico espirito saxão: ambicioso, activo, mas sem carácter guerreiro, preferindo sempre soluções pacificas. Acusaram-no de ser conservador e tradicionalista, mas, na realidade, seria ele a revolucionar todo o futebol alemão. Curiosamente, dizia, após abandonar os relvados, querer ser tudo menos técnico de futebol: "Como jogador verifiquei, muitas vezes, como a profissão de professor de futebol pode ser difícil e como ela depende de muitas circunstâncias.”

O destino tinha, no entanto, reservado para ele algo de diferente A decisão de deixar Dresden não fora, no entanto, fácil. A guerra determinara também o fim do Dresden Sopr Club, seu clube de jogador. Forçado a encerrar a carreira em 1951, aos 36 anos, Schon descobre a sua vocação como treinador no dia em que recebe uma bolsa de estudos na Escola uperior Alemã dos Desportos. Aí ele foi aluno de Herberger.

No inicio, durante um breve tempo, foi seleccionador do Estado independente de Saarland, até que se tornou membro do quadro técnico da Federação alemã, onde se tornou, a partir de 1955, no fiel adjunto de Sepp Herberger e, em 1974, o seu sucessor. Na base do seu pensamento estava, já nos anos 70, num tempo em que o futebol força conhecia os seus dias de glória, na importância da técnica no futebol moderno e seu papel decisivo nas tendências do futebol em função do futuro. Estes seriam os seus temas em dois trabalhos apresentados, em 1977 e 1980, no 7º e 8º curso da UEFA para treinadores nacionais.
HELMUT SCHON2A forma como em finais dos anos 70, numa era em que o futebol do Velho Continente vivia hipotecado á condição atlética, desconfiando da eficácia solista da técnica, apresentou, perante uma plateia composta pela nata dos técnicos europeus, a sua teoria técnico-táctica revelou muito do mestre da bola que se escondia atrás daquele homem que costumava caminhar com o corpo levemente inclinada para a frente, sempre de boné, cultivando uma postura reservada e distante que depois encontrava eco no seu olhar penetrante.

Dizia ele nesses escritos: “Em muitos países, não somente no meu, a regra seguida na ultima década foi a de que a condição física era tudo, ou o trabalho de equipa é tudo. Esta actuação esquece que a beleza e atracção do futebol dependem largamente do nível de aptidão técnica individual dos jogadores. Uma equipa que atinge o auge no futebol moderno tem de basear o seu sistema de jogo de harmonia com as aptidões dos seus jogadores e tem de possuir jogadores capazes de aplicar a sua técnica mesmo debaixo das mais diversas condições e grande velocidade do principio ao fim do jogo. Nada há de novo em dizer que os treinadores de Futebol pertencem a diferentes escolas de pensamento. Assim:

1. Alguns consideram a condição física perfeita como a panaceia de acordo com o lema: o físico acima de tudo. 2. Outros preferem um treino menos puxado, acentuando a melhoria da técnica. 3. Outros pensam encontrar a solução em exercícios e teorias tácticas. O treino moderno postula., portanto, a prática de três elementos básicos: 1. Obtenção de óptima condição física. 2. Obtenção de boa técnica de competição. 3. Elaboração de táctica judiciosa. O sistema de jogo deve adaptar-se ás faculdades dos jogadores. (é desnecessário lembrar que nos últimos tempos o comportamento táctico das equipas sacrifica todas as outras qualidades do jogo) (...) Consequentemente, o treino deve incluir três directivas básicas 1. O assunto central do treino é o próprio jogo, isto é, a bola. 2. Aptidão físico-técnica e táctica; Três elementos diferentes mas nos treinos e nos jogos interpenetram-se.

3. O jogo determina tudo. É o começo e o fim de um ciclo que se inicia no final de cada jogo e se inicia com o treino e conclui no jogo seguinte. Em todas estas três directivas, seja qual for o método de treino, deve sempre estar presente uma especial atenção para o trabalho com bola, e eu acentuo a palavra trabalho e não jogo.
Actualmente, o que define a boa aptidão técnica é a capacidade de dominar a bola a alta velocidade com pouco tempo para o fazer estorvado pelo adversário. Havia um ditado que dizia: pára, olha e chuta! Esta época pertence a um passado recente. No futebol actual são raras as ocasiões em que um jogador tem tempo de controlar calmamente a bola, olhar á sua volta e decidir a quem passá-la.

Existem jogadores que driblam maravilhosamente e que são terríveis durante mis de 20 metros, correndo e batendo uma série de defensores, mas quando são obrigados a trazer a bola controlada com um adversário á ilharga nunca fazem boa figura. Tendo pouco espaço perdem metade do seu valor. O que actualmente conta é a técnica dinâmica, a perícia com a bola em movimento, e que deve ser alvo de especial atenção durante o treino. Todos nós já topámos que esse tipo de jogadores que são campeões mundiais nos treinos, dando shows, dominando a bola no ar com a cabeça, fazendo o que raramente se vê num jogo, mas no desafio a sério, não há remates fulminantes a 20 metros como os eu antes tinham feito. Uma vez iniciada a partida tem de acabar as fantasias. Então, é a perícia competitiva que conta e esta só pode ser adquirida através de um esforço sistemático. Cada vez mais a técnica dinâmica, isto é, a técnica em movimento, na luta pela bola, desempenha um papel determinante. É por isso que devemos acentuar esse aspecto durante o treino técnico especifico. Convêm voltar a dar prioridade aos exercícios individuais, nomeadamente para os jogadores jovens.

Qual será, no futuro, a imagem do jogo ideal que reuna a sede de vencer e a beleza e a atracção? Não esqueçamos que é mais fácil para o treinador elaborar um treino de condição física do que ensinar técnica ou táctica em condições de competição. Estou convencido que as nossas melhores equipas do mundo não progredirão a curto prazo no plano da condição física. É verdade que também é muito importante para que se associem os exercícios técnico tácticos à melhoria da procura de jogadores universais, mas o treino desmesurado da força pode ter repercussões negativas no comportamento técnico do jogador, incitando-lhe um empenhamento excessivo, por vezes brutal, conducente a lesões para o adversário.

Trata-se em absoluto de jogar bem e de maneira diferente e isso só é possível se não se omitir a aspecto técnico do futebol. É por isso que continuarei a insistir na necessidade do controlo da bola, pois ela constituiu o factor principal para conservar as qualidade e o poder de fascinação do nosso jogo. Hoje, como amanhã, o domínio da bola em pleno movimento, pressionado pelo adversário e o tempo, reveste-se de uma importância maior. O tempo resolve onde se pode parar, controlar, olhar á volta e executar um passe. Há jogadores brilhantes, de boa técnica e dribladores que perdem brilho quando marcados de perto. São, então pressionados pelo tempo. A técnica estática, do mesmo modo que cem toques de cabeça ou malabarismos parados são inúteis. Há muita gente, não pertencente ao futebol, que está tentando investigar o jogo com toda a espécie de métodos científicos, com vista a mudar o seu aspecto e exercer controlo sobre ele. Podemos, no entanto, estar descansados porque ninguém vai conseguir dissecar o futebol com a ajuda da ciência ou, caso o consiga, terá de tomar uma atitude de compreensão para com ele.”

HELMUT SCHON3Quando formou as fabulosas selecções germânicas dos anos 70, Helmut Schon teve sempre presente este conjunto de pensamento que tinha como grande pilar a simbiose força-técnica. Para isso reuniu-se de um portentoso grupo de jogadores imbuídos, até ao tutano, desse espirito quase, digamos, supra terreno.

Chegados a 1974, da formação que jogara a final de 66, restavam apenas Overath e Beckenbauer. Seria o Kaiser a definir como uma equipa de ferro e com jogadores de grande classe, o onze campeão europeu em 72 e do mundo em 74. Nele espelhavam-se os potentes blocos dos dois grandes clubes alemães da época: o Bayern Munich, com Maier, Beckenbauer, Breiner, Schwarzenbeck, Houness e o bombardeiro Muller, todos no onze titular campeão do mundo em 74, e o Borussia Monchengladbach de Weisweiler, com Netzer, Wimmer, Vogts, Stielike, Overath e Heynckes.

Na hora da verdade, Schon verificou, no entanto, que a coabitação, no relvado e no balneário, entre os dois blocos era impossível face aos egos indomáveis que regiam ambos os lados. No final, a opção recairia sobre o núcleo de Munique, conduzido, pois claro, por Beckenbauer, líder incontestado da geração dos 70, que, nascida e crescida no pós-guerra, tinha a ambição de construir o futuro esquecendo um passado que envergonhava a nação alemã. Convencido que era importante manter a coesão da equipa, Schon opta, também, por deixar de fora do onze titular Wimmer, Heynckes e Flohe, monstros de Monchengladbach. Eram decisões técnicas e políticas de gestão do grupo. Embora fossem opções exclusivamente suas, Schon sabia que não podia arriscar em ir contra as opiniões de Beckenbauer, o líder da equipa, no relvado e, sobretudo, no balneário.

As pressões sentidas por Schon eram, no entanto, imensas. Uma delas tinha a ver com o visual de Paul Breitner. Pensou, pensou até que decidiu ir falar com o jogador: - Paul, tenho um grande problema. A Federação quer que eu te tire da equipa pelo aspecto do teu bigode enorme. Que podemos fazer?, explicou Schon muito preocupado. - Nem pensar, não vou rapar o bigode para essas pessoas, não têm nada a ver com isto, respondeu de pronto Breitner. Schon olhou-o e saiu. Passou-se algumas horas, até que quando o técnico se encontrava a caminhar pensativo pelos jardins da concentração, Breitner, mais preocupado por ele do que por si, foi ao seu encontro e disse-lhe: - Não tenha problemas, mister. Rapo bigode, mas não todo, só a parte debaixo, ok?, - Fantástico Paul. Agora vão deixar-me em paz, suspirou liviado Schon.

Todos os ensinamentos, escritos e triunfos de Helmut Schon estavam longe de revelar o verdadeiro homem que se escondia atrás de uma postura pouco cordial com os jornalistas, dos quais sempre desconfiou. Casado há mais de 30 anos, levando uma vida tranquila ao lado da sua mulher Annelies numa casa recatada de Wiesbaden, onde passava tardes e noites a ler, a brincar com o seu cachorrinho Axel, a ouvir a sua colecção de discos de ópera e a admirar as peças de porcelana Meissner que também coleccionava. A porta estava sempre aberta para receber os amigos. Schon manteve sempre um relacionamento fantástico com os seus jogadores.
Durante o Mundial 70, no estágio da selecção, foi uma vez agarrado de surpresa pelos jogadores e atirado á piscina completamente vestido. O episódio terminou com uma gargalhada geral. Esta não era, até então, a postura que estávamos habituados a ver nos treinadores germânicos, antes sempre esfinges de dureza. Ao invés, Shon era um conhecedor do comportamento humano que, dizia, tinha o lema de nunca esperar dos outros mais do que ele próprio poderia dar.

HELMUT SCHON4Comandou a selecção germânica em 139 jogos, vencendo 87, empatando 31 e perdendo 21. O seu ultimo fôlego foi no Mundial 78, na Argentina, onde após perder a final do Campeonato Europeu em 1976, contra a Checoslováquia, surgiu, pela primeira vez, com uma selecção sem o carisma e a força de Beckenbauer. Era o fim do ciclo de Helmut Schon.

Tinha 63 anos quando decidiu abandonar o futebol. Sentia-se cansado e doente. Em pouco tempo o seu corpo começaria a ser minado pelos terríveis sintomas de Alzheimer. Aos poucos foi-se ouvindo cada vez menos falar dele. Todos o recordavam mas temiam abordar o seu sofrimento solitário. No dia em que fez 74 anos, os seus rapazes que compuseram a grande equipa do Mundial 74 foram visitá-lo a sua casa. O choque seria terrível. Sentado numa cadeira, com uma manta a cobrir-lhe as pernas, Schon olhou-os e nada disse. Já não os reconhecia. Com os olhos cheios de lágrimas, a sua mulher Annelies, companheira de toda a vida, apenas lhes pediu então um ultimo favor àqueles que foram os seus grandes jogadores: “Por favor, não voltem mais..”.

Entre esse grupo, apenas Seeler manteve-se sempre perto dele até o seu último suspiro, a 23 de Fevereiro de 1996. Tinha, então, 81 anos. Fechava os olhos para a eternidade o homem que, dizia, desconfiava sempre da solução mais fácil. Um como ele nunca mais voltaremos a encontrar na vida, comentou Gerd Muller.