HERBERT CHAPMAN (1897-1934)

07 de Maio de 2007

“O Arsenal Football Club está desde hoje aberto
a receber propostas para a posição de Treinador Principal.
Exige-se experiência e altas qualificações para o lugar,
requerendo-se, em ambas, astúcia e grande personalidade”
Anúncio publicado no jornal Athletic News, a 11 de Maio de 1925

Olhamos fascinados para as esbofadas fotografias a preto e branco desse tempo e entendemos o ideal daqueles homens de calções cumpridos. A paixão pelo “sport” em forma de “foot-ball”. Era o tempo em que “os animas falavam” e onde a glória desportiva desconhecia a palavra táctica no seu sentido lato. O segredo repousava na simples vocação de ser melhor, mais virtuoso e artístico. Havia tempo para tudo. Em Inglaterra começaram também, os primeiros desenhos tácticos que descreviam o futebol como um jogo de equipa. Depois dos rudimentares 2-2-6 e 2-3-5, surgiu nos anos 30, o grande fundador da dinastia táctica do futebol mundial: Herbert Chapman.

A história do futebol glorificou Chapman a partir da invenção do WM, mas a vida deste visionário táctico, nascido em 1875, oito anos do Arsenal ser fundado, em Kieveton Park, em Sheffield, começara muito antes, longe dos relvados. Engenheiro mineiro de profissão, com o curso tirado na prestigiada Sheffield Technical College, o jovem Chapman, começou a cativar-se pelo foot-ball já depois dos 20 anos. Jogando como amador, de lanterna na testa á semana e com uma bola de foot-ball nos pés aos sábados, começa também a sonhar abandonar os seus projectos mineiros e dedicar-se á paixão do sport, agora tornada uma profissão. Entre 1897 e 1901, conciliou as descidas ás minas com muitas tardes jogando como amador nos modestos Stalybridge, Rovers, Rochdale, Grimsby, Swidon, Sheppey United HERBERT CHAPMAN 1875 934e Workshop, até que em 1901, assina, o seu primeiro contrato profissional com o Northampton. Dois anos depois, em 1903, transfere-se por 300 libras, para o grande Notts County. A carreira de Chapman como futebolista prosseguiu no Tottenham, em 1905, até que em 1907, após dois anos passados quase sempre nas reservas, regressou ao Northampton, onde se tornou treinador-jogador, depois de Walter Bull, ter decido abandonar o cargo. No primeiro ano, leva o clube á conquista do Campeonato da Liga Sul. Era o seu primeiro feito como treinador, antes de se tornar manager do Leeds, em 1912. Duas semanas após falhar a subida á 1º Divisão, em 1914, abandona o clube para passar grande parte do tempo da segunda guerra mundial como director de uma fábrica de armamento. Numa época em que Londres oferecia ao mundo uma lição de coragem ao enfrentar os bombardeamentos da Luftafe nazi, Chapman retira-se e em silêncio começa a congeminar a táctica que iria mudar o mundo do futebol. Dos seus tempos de jogador ficara-lhe a impressão que existia, por parte de todos os agentes futebolísticos, um total desprezo por estas questões: Nenhuma equipa revelava grandes cuidados na abordagem teórica do jogo, conforme lembra Chapman no livro Chapman, Fottball Emperor: “Nenhuma tentativa era feita para organizar a vitória. O máximo de que me recordo eram ocasionais conversas entre, por exemplo, dois jogadores que iam actuar no mesmo flanco”.

Tornado-se treinador do Huddersfield Town em 1921, Chapman começa a ensaiar novos princípios de jogo, baseados no entendimento inovador que uma equipa se devia começar a construir pela defesa, incutindo um então pioneiro rigor defensivo. Com este sistema base, o Hudersfield vence a FA Cup em 1922 e três campeonatos da Primeira Divisão, o último, em 1925, sendo a primeira equipa na história do futebol inglês a passar toda uma época sem sofrer mais de dois golos por jogo. No fundo, dizem os estudiosos, Chapman tinha descoberto a raiz do contra ataque, grande arma futebolística do futuro. Sábio, porém, também percebera que a eficácia de qualquer sistema dependeria sempre da qualidade dos seus jogadores. Na entrada do estádio do Arsenal, a frase que recebe os visitantes, “Welcome to Highbury- The Home of Football”, Bem vindos a Highbury- o santuário do futebol, poderia estar, da mesma forma, na entrada de Londres. Uma cidade que respira futebol. Corria o ano de 1925 quando Herbert Chapman assumiu o cargo de treinador do Arsenal, no qual se manteria até á data da sua morte, em 1934. Desde o primeiro dia incute uma feroz política de contratações, ao ponto da critica passar a chamar ao clube “Bank of England football Club”. Mais tarde, Goerge Allison, seu sucessor no clube diria que durante os oito ano no Arsenal, Chapman gastar cerca de 101 mil libras em contratações, entre elas as de David Jack, Cliff Bastin, Charlie Buchan, Tom Parker, Jack Lambert e do lendário escocês Alex James, jogadores fundamentais no sistema que visava implementar. Sem gastar muito dinheiro fora, no entanto, a contratação de um jovem de 19 anos chamado Eddie Hapgod, de 19 anos, que tivera como profissão leiteiro antes de começar a jogar no Bristol Rovers. Mal o viu, Chapman quis traze-lo para o Arsenal. Hapgod viria então para Londres. Pouco depois era o capitão do Arsenal.

No nevoeiro de LondHERBERT CHAPMAN 1875 9341res, o futebol começava a tornar-se uma notável força social. Em 1926, a alteração da lei do fora de jogo, que passava a exigir a presença de apenas dois jogadores atrás da linha da bola para o avançado estar em jogo, quando antes eram três, muda a sua consciência táctica. Estudioso e sagaz, Chapman criaria então o famoso WM, assim chamado porque a formação dos jogadores em campo lembrava as pontas de ambas as letras, o sistema que serviria de base a toda a evolução táctica que ciclicamente marcou o século do futebol. Basicamente, o novo sistema alicerçava-se no recuo de dois dos cinco jogadores do ataque, que assim passavam a ocupar postos que seriam designados por interiores. Ao mesmo tempo, com o recuo de um médio centro para o meio da defesa, criando o stopper, enquanto os dois médios ala flectiam no terreno, ficava desenhado um quadrado a meio campo que garantiria todo o equilíbrio da equipa, pelo que também chamaram ao sistema o “Quadrado Mágico de Chapman”. Passava-se a jogar em 3-2-2-3, a grande figura permanecia o avançado centro, mas pela primeira vez na história do futebol havia equilíbrio entre o número de defesas e avançados. O onze tornava-se um bloco mais coeso. No centro da defesa passava então a existir um novo elemento. Muitos estudiosos quiseram-lhe atribuir a invenção do líbero, mas tal parece, no entanto, exagerado, pois no sistema de Chapman, este novo jogador defensivo tinha apenas uma missão específica de marcação e não era um verdadeiro chefe da defesa. Por isso chamou-se Stopper, o defesa central de marcação da actualidade. Em campo, o criador deste sistema seria o jogador do Arsenal, Charles Buchan. No passado já existira, porém, um ensaio táctico semelhante, quando no decorrer da FA Cup final de 1922, Tom Wilson, do Hudersfield, jogara quase todo o jogo como terceiro defesa, entre os full-backs, defesas centrais. Com este sistema, que inspirou todas as nações do Velho Continente, Chapman venceu 4 Ligas em 5 anos e acreditou que ele seria definitivo. Na época de 30/31, a equipa do Arsenal fariHERBERT CHAPMAN 1875 9342a 127 golos durante toda a Liga. Num dos seus escritos, no Sunday Espress, Chapman dissera, em inícios dos anos 30, que “no futebol existem quatro jogadores chave: os dois alas e os avançados interiores. Se tivermos um bom guarda redes e um bom stopper, tudo o que é necessário são dois bons extremos e um grande avançado centro. O resto é indiferente”.

Quando morreu, em 1934, o seu sucessor Gerorge Wilson segui-lhe os passos mas hoje a memória futebolística apenas retêm o nome de Chapman como o grande Imperador táctico de finais dos anos 20 e inicio dos 30. Quando, em 1953, após sobreviver á segunda guerra mundial e aos três primeiros campeonatos do mundo, o WM caiu de velhinho frente ao MM ou 4-2-4 húngaro, muitos passaram o obituário táctico a Chapman mas a verdade é que o mestre inglês morrera cedo demais para combater, através dos tempos, a evolução táctica. Se tivesse vivido mais tempo, muito provavelmente o seu WM teria evoluído e o futebol inglês nunca o teria tornado quase num dogma com pés de barro. Charles Buchan acredita que o segredo da grandeza de Chapman era o de ouvir os outros técnicos e aproveitar as suas ideias para aperfeiçoar o seu sistema. Amigo íntimo de Hugo Meisl, o famoso treinador austríaco, Chapman foi um inovador também noutras áreas como por exemplo no uso em treinos e jogos de uma bola branca, números nas camisolas, campos molhados para a bola rolar mais depressa e a previsão de que existia um grande futuro para o futebol jogado á noite sob luz artificial. Disse-o em 1930, após ver algumas experiências, então desprezadas, na Holanda e na Bélgica. A todas estas propostas, a Federação Inglesa dissera-lhe sempre, como resposta, que HERBERT CHAPMAN 1875 9343estava louco. Noutro ponto, incentivou sempre o contacto com outros países, numa época em que os ingleses desprezavam qualquer contacto internacional. Em 1921, o seu Hudersfield jogou e venceu, 2-0, o campeão francês Red Star, em Paris.

A sua morte, no inicio dos anos 30, deixou o futebol inglês numa encruzilhada táctica. Essencialmente, ninguém soube recomeçar o seu trabalho e, desta forma, a Inglaterra estagnou os seus conceitos sobre o jogo, convencida de uma superioridade que, como se iria em breve provar, deixara de existir. Homens como Major Frank Buckley e Jimmy Seed, no Charlton tentaram seguir a sua obra mas nenhum deles adquiriu a sua aura. Dona de um ego desmedido, a Federação Inglesa recusava-se a seguir o exemplo italiano ou austríaco de ter um seleccionador nacional, pelo que a convocação dos jogadores para a selecção inglesa era feita por um comité nacional reunido para o efeito. Chapman sempre fora um feroz critico desse sistema. Com essa postura só ganhou inimigos nas cúpulas do Association britânico. Em 1933, apesar das objectes desses senhores de cartola, Chapman actuou como um não oficial manager da selecção inglesa que viajou por Itália e Suíça com relativo sucesso. Nesse tempo, as suas prelecções tácticas valeram uma sensacional vitória sobre a forte selecção Suíça por 4-0 e um honroso empate, em Roma, com a Itália de Vitório Pozzo, que um ano depois visitaria Londres, como campeã do mundo. Foi então que, em 14 de Novembro de 34, a HERBERT CHAPMAN 1875 9346selecção inglesa, orientada por Cooch, alinhando sete jogadores do Arsenal, venceu a Itália por 3-2, na chamada Batalha de Higbury, onde ficaram célebres as constantes cargas feitas pelo possante avançado centro inglês Ted Drake sobre o guarda redes italiano Ceresoli, perante a complacência do árbitro sueco Olson, mantendo assim a Inglaterra, durante mais algum tempo a sua falsa convicção de superioridade futebolística mundial, o que, no futuro, iria durante anos minar a evolução e o real sucesso do futebol inglês.

Em 1933, oito anos depois da sua chegada a Higbury Park, Chapman sofria a desilusão de ver o Arsenal ser eliminado na terceira eliminatória da Taça de Inglaterra por um modesto clube da Terceira Divisão chamado Walsall, que batera os gunners, nome que se deve ao clube ter sido fundado por funcionários de uma fábrica de armamento, por 2-0. Seria o ultimo jogo de Chapman na Taça de Inglatera. A 6 de Janeiro de 1934, cerca das três horas da madrugada, seria vitima de um súbito ataque de pneumonia que o levaria á morte em pouco tempo, no dia em que o Arsenal se preparava para receber á tarde o Sheffield Wednesday. O seu funeral seria uma profunda manifestação de dor, com a urna a ser carregada por muito dos seus jogadores de eleição como Hapgod, Hulme, Lambert, Bastin e James. “Havia nele uma aura de grandeza, poder e inspiração que mercdiaHERBERT CHAPMAN 1875 93425m inclusive maiores recompensas. Ele deveria ter sido primeiro ministro”, disse então em discurso emocionado Bastin. Seria só em 1946 que, no clima do pós-guerra, quando a Inglaterra começava a ponderar a possibilidade de participar no Campeonato do Mundo de Futebol é que, por fim, a Football Association convidou Walter Winterbottom para ser o primeiro seleccionador da história do futebol inglês. Era, porém, um cargo ainda desprovido dos reais poderes que só mais tarde, já nos anos 60, iria ganhar a sua verdadeira dimensão, com Alf Ramsey, fazendo com que o posto de seleccionador nacional fosse definido como The second most important job in the contry, “o segundo mais importante cargo da nação”. Para Terry Venables, seleccionador de final do século, era mais que isso. Representava o maior orgulho que poderia ser concedido a um treinador: “Um cargo fantástico, até...a bola começar a rolar.” Bob Wall, o assistente de Chapman em Highbury durante oito anos, insistiu sempre, que o seu espirito nunca abandonara Highbury Park. Durante muitos anos ele jurou ter ouvido os seus passos caminhando pelos corredores. Para tornar mais credível estas palavras, diga-se que Wall era um verdadeiro homem do Arsenal, que conhecia todos os cantos á casa e não tinha nada o estilo de quem gostasse de brincar com estas coisa, antes as respeitava.