HUGO MEISL (1881-1937)

16 de Maio de 2005

Viena. Uma cidade que é uma partitura de música clássica. Altiva, elegante e sempre vestida como para uma noite de gala. Pensamos na capital austríaca e logo na nossa mente desfilam imagens de grandes compositores como Mozart, Strauss, Beethoven e Schubert, todos seus habitantes, amantes e confessores. Para os mais românticos amantes da bola, seria toda esta volúpia musical a inspirar, nos remotos anos 20, um novo e sedutor estilo de jogar futebol, percursor pela forma ardilosa como táctica e tecnicamente se desenvolvia em campo, como que levitado por uma envolvente valsa, desenrolando-se como uma maravilhosa renda ou um tecido bordado á mão. Tudo nascera da mente de um jovem nascido na Morávia, região central da futura Checoslováquia, que durante os anos 10 jogara futebol, sem grande destaque no FK Austria: Hugo Meisl, um jovem judeu nascido a 1881, membro de uma abastada família banqueira na Viena do inicio do século. Grande apaixonado do futebol, o seu grande legado seria construído á margem das quatro linhas, onde se tornaria árbitro internacional e secretário geral da Federação Austríaca de futebol. Estávamos no inicio dos anos 20.

HUGO MEISLNascido em berço de ouro, Meisl era um homem culto, poliglota, falava cinco línguas, gostava de discursar e fazia-se sempre apresentar com o seu inseparável chapéu de coco. Interessado em descobrir todos os segredos do futebol, conhece, numa das suas viagens a Inglaterra, a pátria fundadora do foot-ball, um treinador inglês chamado Jimmy Hogan com quem faz amizade. Passam dias a falar de futebol. Muito falador, Hogan conta-lhe, com autoridade, todos os conceitos do futebol inglês, considerado o mais evoluído. Astuto, Meisl ouve-o atentamente mas cedo percebe que se a esses conceitos lineares e herméticos, acrescentar o perfume técnico dos jogadores austríacos, poderia conceber uma equipa nunca antes vista. Persuasivo, Meisl convence Hogan a visitar a Áustria e junto com ele começa a congeminar uma fabulosa selecção austríaca, da qual se torna seleccionador em 1931, e que ficará eternizada como o nome de Wunderteam, a equipa maravilha. A base da escola austríaca era a técnica, mas incutida num sistema de jogo que se baseava no ataque em bloco, mediante um constante pressing ofensivo. Num tempo em que o WM começava a ser falado, Meisl manteve-se sempre fiel ao método, o WW, esquematizado em campo num 2-3-2-3 moldado por um precursor sistema de pressing

HUGO MEISL1Repare-se no que escrevia Meisl nos anos 30: “Os onze jogadores devem estar em permanente movimento para impedir o adversário de adivinhar as suas intenções. Mesmo um médio, se tiver oportunidade, deve avançar no terreno e surgir, de surpresa, na área adversária, mas, nesses mesmo instante, um seu colega deve imediatamente ocupar o seu posto em campo subitamente vazio pelo seu adiantamento no ataque. O meu sistema, em suma, é não ter nenhum sistema. Inteligência, velocidade e surpresa são os factores de sucesso”. Foi do visionário treinador austríaco a célebre frase: “A melhor defesa é o ataque”. Era a alvorada do sobrenatural futebol centro europeu que nos anos 50 atingiria o êxtase com a selecção da Hungria. As bases estavam, porém, nos anos 30, na escola austríaca, ao ponto de hoje não ser exagero afirmar que muita da evolução do futebol ao longo dos tempos até ao presente, se baseou, nos seus pilares essenciais, nos ensinamentos colhidos da maravilhosa Áustria de Meisl. Por tão avançada no tempo, pode-se dizer que a cultura futebolística austríaca está para a história do futebol como a civilização egípcia está para a história universal.

Atentem numa transcrição retirada de um livro com data de 1919, tinha Meisl 30 anos, intitulado Manual para os treinadores de futebol em Viena: “Todos os exercícios que o jogador faz no treino com bola contêm em si mesmo um certo perigo. O perigo de poder adquirir uma forma de controlar a bola que nunca poderá por em prática no jogo real. Há muita gente que pode ser vista praticando nos campos desportivos, impecável na sua técnica, sendo capaz de dominar a bola, chutá-la, etc, na perfeição. Mas quando enquadrados num jogo real, são inúteis. Nunca conseguem ter a bola em boa posição para um dos seus remates, frequentemente falham o mais simples dos passes. É certo que tal pode ser devido ao nervosismo. Mas, mais frequentemente, a razão deve procurar-se no facto de que, no treino, todos os remates são feitos a partir de uma posição estática. Quando metidos num jogo de competição, vêm-se confrontados com dificuldades impossíveis de transpor pelo facto de que, num jogo real, raramente um jogador se pode permitir ao luxo de estar parado enquanto joga a bola. Num jogo, quase todas as movimentações são feitas em corrida, frequentemente com mudanças bruscas de direcção, rodopiando, transpondo um adversário, acelerando, saltando, sendo carregado, etc.”

HUGO MEISL2Percursor, Meisl não se limitou a desenvolver o futebol austríaco, como também impulsionou a criação, em 1927, da primeira competição internacional: a Taça Mitropa, que colocava frente a frente clubes dos países da Europa central, sobretudo húngaros, austríacos e checoslovacos, fomentando, ao mesmo tempo, os confrontos internacionais entre selecções. Desses remotos inícios dos anos 30, apenas resistem algumas pálidas fotografias a preto e branco. A memória da equipa maravilha austríaca repousa, assim, no domínio das lendas e na frieza de resultados assombrosos, todos no campo do adversário: Bélgica: 6-1; Escócia: 5-0; Hungria: 8-2; França: 4-0; Alemanha: 6-0 e 5-0; Suíça: 8-1; Suécia: 4-3 e Itália: 2-1. A única derrota sucedeu em Chelsea, frente á Inglaterra, em 1932, que sabedores do valor de Sindeler, lhe moveu uma implacável marcação individual –das primeiras da história do futebol mundial- e venceu por 4-3. Para obter esses fabulosos resultados, Meisl teve no entanto ao seu dispor um fabuloso grupo de jogadores. Foram os casos do guarda redes Rudi Hiden, os defensores Karl Sesta e Frank Wagner, imponentes no centro da defesa, os médios Josef Bican e Karl Zischek, maestros do meio campo e os perigosos Johan Horvath e Rudolf Viertl no ataque, onde, como avançado centro, alinhava um sobrenatural Mago do Danubio, dono de um domínio de bola nunca antes visto em todo o mundo: Matthias Sindeler.

Anexado pelos nazis, a Áustria e a sua equipa maravilha foram desfeitas pela Segunda guerra mundial. Quando esta terminou, após a morte de Meisl um ano antes, vitima de uma crise cardíaca, a sua escola futebolística perdera grande parte da sua identidade. Nostálgicas, muitas das suas equipas partiram á procura do tesouro e do espírito da Wunderteam. Entre elas, o filosófico Rapid de Vienna. Com o passar do tempo, porém mais se intensificou que era uma busca inglória. Influenciados pela cultura germânica, morfologicamente semelhantes, o futebol austríaco tornara-se como que uma extensão estilística dos conceitos teutónicos. Para o bem e para o mal. Visitar a história da sua selecção e dos seus grandes clubes corresponde hoje a uma nostálgico passeio pelo maravilhoso museu do futebol á moda antiga.