Intimidade do balneário

18 de Novembro de 2006

O futebol é um microcosmos social onde cabem diferentes personagens e emoções. Na intimidade de um balneário, escondem-se medos, esperanças, conflitos e motivações com códigos de comportamento e comunicação muito particulares. Neste universo, o treinador, mais do que um estratega táctico, é um gestor de emoções. Muitos acreditam que é exactamente nesse ponto prévio, no tal domínio do balneário, que mora o segredo do seu sucesso ou fracasso. É um pouco verdade. O técnico deve ser, assim, acima de tudo, um sedutor. Há, porém, várias formas de seduzir. Depende da personalidade de cada um. Naquele espaço de mistério para o publico, os líderes nascem, crescem e morrem a partir da capacidade de percepcionar e domar as emoções antes dos outros. Perguntando a Futre, o que dizia e fazia Baresi para liderar o balneário do Milan por 10 anos seguidos, a sua resposta foi lapidar: “O Baresi não diz nada. Apenas olha para ti!”.

A liderança, a capacidade de seduzir, ganha-se de forma natural. No futebol, como na vida, há sempre lugar para criar grupos. Por empatia, objectivos comuns, nacionalidade ou outra razão. É natural. O problema é quando deixam de ser uma divisão natural e passam ser focos de desconfiança entre uns e outros. Nos treinos, como antes ou no fim dos jogos, o pior para um balneário é o silêncio. Conta Michel, estrela do Real Madrid dos anos 80, que soube com exactidão quando aquela bela equipa terminara. Foi após um empate com o PSV que os eliminava da Taça dos Campeões. O balneário estava submerso pelo vapor da água quente dos chuveiros. Ninguém articulava uma palavra. Até o líder ficara com o olhar perdido. Só se ouviam os pingos da água a cair. 25 jogadores no plantel. 25 diferentes personalidades, futebolísticas e humanas. 25 formas de estar no futebol, dentro e fora do relvado. O temperamental e o sereno. O extrovertido e o tímido. O destemido e o receoso. É neste mundo de contrastes que emerge o treinador-gestor de emoções.

Postiga: queda e renascimento

Intimidade do balneárioConta quem via os treinos, que havia um jogador no Porto com quem Mourinho se irritava particularmente. Não pela falta de qualidade. Pelo contrário. O problema era mesmo as suas capacidades. Tinha tudo para ser um grande jogador, mas faltava-lhe saber utilizá-las. E como custava ensinar-lhe. Era Heldér Postiga. Não foi por acaso, portanto, que Postiga fez, em 2002/03, a sua melhor época até ao momento. Não será por acaso que depois se esfumou. E também não será por acaso que agora regressa aos golos e ao bom futebol. Mesmo assim era um enigma perceber como Postiga caíra numa crise existencial da qual parecia ser difícil sair. No futebol, porém, como já se viu, nada acontece por acaso.

Falando do seu renascimento, Postiga dizia que era tudo uma questão de confiança. Jesualdo, velho caminhante, sabe disso. Enquanto alguns conseguem gerar esse sentimento por dentro, outro precisam de estímulos exteriores. No futebol, eles estão na sensibilidade do treinador para o trabalhar. Postiga é um desses casos. Questão, afinal, de resolução simples? Pura ilusão. Há jogadores que basta um clique. Outros, como Postiga, exigem atenção permanente para manter a motivação e confiança. Para além da táctica e da técnica, treinar também é fazer um jogador crescer emocionalmente.