INVENTORES DE ESPAÇOS

23 de Fevereiro de 2008

É comum os treinadores queixarem-se da falta de espaços. Essa análise surge muito nas competições europeias como forma de dizer que o jogo seguinte será diferente porque a outra equipa, estando em desvantagem, vai ser obrigada a atacar e “dar mais espaços”. É uma reflexão verdadeira mas pouco perspicaz.

Porque “não existirem espaços” é natural no futebol. É nisso que este jogo precisamente consiste. Em ganhar espaços e essa capacidade é uma excelente forma para distinguir a categoria das equipas. As grandes equipas não são as que apenas aproveitam os espaços vazios. As grandes equipas são as que criam espaços. As que, mesmo nos jogos mais fechados, desembrulham zonas onde a quantidade de jogadores aumenta e abrem pequenas clareiras que fazem a diferença. Os jogos da Champions foram uma boa forma de entender estes conceitos de “aproveitar espaços” ou “criar espaços”. Naturalmente, muita desta capacidade, sobretudo quando o campo fica mais pequeno (isto é quando, por força do aproximar das linhas adversárias, uma equipa é obrigada a atacar em menor espaço de terreno) depende da criatividade individual dos jogadores. Da capacidade. em curtos espaços de terreno, fugir ás marcações e executar rápido e com precisão. Exemplar o lance do golo do Lyon ao Manchester para entender este principio na fase de conclusão. Perfeita a recepção de Benzema, percebendo que na nuca lhe respirava Vidic e Ferdinand, para rodar curto com velocidade, em centímetros de relva, dando a bola a cheirar a Brown, e após uma rápida e subtil simulação de corpo, descobrir uma frecha para rematar.

Golo! Noutras ocasiões, os espaços criam-se colectivamente. Basta a técnica inteligente metida na táctica mais simples. Uma finta, uma tabela e um remate. Tudo desenhado com régua e esquadro. Movimentos verticais e diagonais com uma pulga no meio. Isto é, Leo Messi. No bosque de Glasgow, contra oito defesas escoceses entusiasmados a defender. Apanhou a bola num flanco, dançou em frente ao marcador, ganhou-lhe o espaço no drible e, vendo espaço para a linha de passe tocou para o meio, onde Deco, reparou como Messi automaticamente arrancara em diagonal para um espaço aberto na área escocesa, logo devolveu-lhe a bola num passe vertical que rasgou um espaço entre o muro defensivo escocês, apanhando o argentino desmarcado na cara da baliza. Golo! Na descrição deste lance, utilizei quatro vezes a palavra espaço. Não são muitas. Quanto mais a utilizar, melhor foi a jogada. O fundamental é, em cada movimentação, um jogador criar opções de passe. Com isso, cria espaços. Com isso, joga melhor. Ele e a equipa. É esta a base das grandes equipas e do bom futebol. Serem inventores de espaços!

Entender estatísticas: Bolas divididas, o poder de Jones

INVENTORES DE ESPAÇOSFim do Schalke 04-FC Porto e surgem papeis com dados estatísticos. Confesso que lhes dou pouca importância. Cantos, remates ou recuperações, pouco dizem de como jogou uma equipa. Apenas de como terminou uma jogada. O entendimento do jogar de uma equipa não resulta de números tão simplistas. Resultam, isso sim, de entender o jogo. Nele podem entrar, claro, as pistas estatísticas, mas não chega. Repare-se: os números dizem que Jermaine Jones entra em 40 lances divididos. Excelente para um médio que parte recuado mas com missão de ser um elo de ligação com a segunda linha do meio-campo. Desses 40 lances, ganha 22. Quer dizer que foram as vezes em que ficou com a bola. Excelente média. Tal não implica, porém, que tenha perdido os restantes. Mesmo sem ter ficado de posse da bola, nesses duelos obriga o adversário a fazer um desvio no seu caminho em campo. Isto é, impede-o de ganhar um espaço que poderia ser muito perigoso e força-o a ir por outro menos preocupante para quem defende. Na estatística surge duelo perdido, mas não é bem assim. Essas acções de Jones tivera influência decisiva no jogo da sua equipa, manteve-a protegida e permitiu que as restantes linhas ocupassem melhor todos os espaços

Giggs, o eclipse do 4x3x3

INVENTORES DE ESPAÇOSOlham-se os sistemas e as dinâmicas das 16 equipas na Champions e fica uma certeza: a grande preocupação é como preencher e ganhar o meio-campo. Em ternos de sistema, tal condiciona o 4x3x3 puro. Apenas FC Porto, Lyon e Barcelona, embora cada um com as suas estratégias de trocas posicionais, o desenham no papel. A maioria entra por outros caminhos (4x4x2, 4x2x3x1, 4x3x2x1). Mesmo quando se detecta um tridente ofensivo nota-se que no perfil dos médios surgem três homens mais para morder a bola e o jogo, em vez de criarem ofensivamente. O próprio Giggs, extremo puro em vias de extinção, entende essa ordem táctica e no 4x3x2x1 de Fergusson, é muitas vezes um ala que recua e em vez de pensar como extremo pensa como médio. E pensa bem, o que não é fácil para quem tem um pedigree estilístico tão diferente. O risco é de em vez do jogo, elogiar-se o esforço.