JOCK STEIN (1922-1985)

16 de Fevereiro de 2005

“Agora, é tempo de construir-mos as nossas próprias lendas” Jock Stein, treinador do Celtic e da Selecção da Escócia (Anos 60/80)

No lendário passado guerreiro da nação escocesa, os seus grandes heróis e bravos lutadores deram a vida por ideal que ainda hoje inspira as novas gerações: Um país para todos os escoceses. No futebol, sublime expressão desportiva, ao lado do Rugby, desse sentimento, também emergiram grandes homens, mas enquanto, ao longo dos anos, a maioria foi dormir com o inimigo inglês, um permaneceu sempre fiel ás suas raízes: Jock Stein. Quando em 1967 conquistou com o Celtic a primeira Taça dos Campeões para clubes britânicos, e a única da história dos católicos de Glasgow, Bill Shankly virou-se para ele e disse: “Jock, a partir de agora, tu serás imortal!”. Dezoito anos depois, quando morreu em pleno campo, subiu á eternidade e tornou-se um mito.

JOCK STEINNos grandes momentos do futebol inglês estão muitos homens escoceses. Um drama que, no campo dos treinadores, também minou o mundo futebolístico escocês. Entre muitos nomes, emergem três monstros, mais famosos que o de LochNess. Sentados no banco, eles conquistaram a Inglaterra futebolística: Matt Busby, Bill Shankly e Alex Fergusson. Analisando a história do futebol escocês surge a tentação de considerar que quase todos os seus grandes nomes ficaram muito a dever á nação que os criou. Um homem, no entanto, personificou todo o seu espirito: Jock Stein, “The Big Man”, o senhor futebol escocês, um homem que nunca virou costas ás suas raízes e que se tornou um mito quando morreu em pleno campo. Depois de, como jogador, ter feito carreira no Celtic, Stein começou a moldar a sua mentalidade como treinador, numa era em que a abordagem táctica do jogo começava, por fim, a suscitar aceso debate no futebol escocês. Foi a época, por meados dos anos 60, em que figuras como Eddie Tumbull, Willie Ormonde e Jimmy Bonthrone passaram para um plano quase professoral, ao mesmo tempo em que Stein, devoto protestante, se tornava treinador do Celtic, finda a era do lendário Jimmy MacGrory, que ocupara o posto durante 20 anos, desde 1945, quando substituiu Willie Maley, uma espécie de pai do Celtic, após uma brilhante carreira como grande goleador, iniciada em 1921, que o consagrou, até hoje, como o melhor goleador de sempre na história do futebol escocês.

JOCK STEIN1Quando iniciou a carreira, Stein tinha como grande rival Willie Waddel, o homem que se sentava no banco do Rangers. O futuro ditaria, no entanto, a superioridade da aura do protestante que, diziam os desconfiados, se intrometera no católico reino do Celtic. Com o emblema do trevo ao peito, rompeu fronteiras e conquistou títulos, cujo auge situou-se, em 1967, no vale do Jamor, quando comandou o Celtic á vitória na Taça dos Campeões, a única na história do futebol escocês. Esse onze, onde jogaram imortais como , e que para a eternidade ficou conhecido como os Leões de Lisboa, é o maior símbolo da sua obra, onde constam, entre 66 e 78, 10 títulos de campeão nacional e 8 vitórias na Taça. Em 1978 rumou a Inglaterra para treinar o Leeds, mas só ficou alguns meses. Nostálgico da sua terra, regressou para tomar conta da selecção escocesa que guiou até aos Mundiais de 82 e 86. Ainda hoje, ele ainda o treinador britânico com mais títulos conquistados no seu palmares.

JOCK STEIN2A última epopeia teria, no entanto, um trágico final. Corria o ano de 1985 e a Escócia jogava em Galles o jogo decisivo de apuramento para o Mundial-86. A poucos minutos do fim a Escócia faz o golo do empate que garante o direito de jogar um play-off de apuramento com a Austrália. Stein exulta, mas ao seu lado um homem, então seu adjunto, já estava mais preocupado com ele do que com o desenrolar do jogo: Alex Fergusson, o seu discípulo mais famoso que partilhava o posto de treinador do Abeerden com o de adjunto de Stein na selecção escocesa.. Desde o inicio do segundo tempo que o notava sem cor, a suar muito, longe da presença imponente que ainda ostentava, apesar dos seus 33 anos e do facto de, desde que em 1976, quando teve um terrível acidente de viação, o seu fulgor ter, desde aí, refreado. Muitos diziam que ele nunca recuperara física e mentalmente desse choque onde, durante a convalescença de uma ano, viu a morte de perto, e a consciência lhe dissera que talvez fosse tempo de parar. Mas, Big Jack era imparável. Mesmo nesse dramático dia, a emoção com que vivia o futebol emergeu em toda a dimensão.

JOCK STEIN3Foi um jogo inesquecível por várias razões como recorda Alex Fergusson no seu livro Managing my life. Uma das cenas inesquecíveis sucedeu durante o intervalo. Foram nesses minutos de presumivel descanso que se concentraram os momentos mais dramáticos quando descobrimos que o guarda redes Jim Leighton perdera as suas lentes de contacto durante a primeira parte. O caso era mesmo dramático porque durante sete anos que trabalhara com ele em Abeerden eu nunca soubera ou sequer minimanente desconfiara que ele usava lentes de contacto. Aliás ninguém em Aaberdeen o soubera. A minha principal precocuparação era, no entanto, que Jock Stein acreditasse em mim. Já tinhamos reparado durante todo o primeiro tempo que ele falhara alguns cruzamentos e largara várias bolas sem exlicação para um jogador do seu nível mas quanddo Jock Sstein me chamou não fazia a menor ieia do que me iria dizer. Fui até á area reservada no balneário e nunca esquecerei a sua cara de preocupado olhando para mim. Pensei logo: temos problema sério. Foi quando Jock dise: “Ele perdeu as lentes de contacto!” Disse-o virado para mim presumindo eu eu sabia que ele as usava e nunca o tinha dito. Recordo-me de olhar para Leighton, mas ele parecia destroçado. Só lhe perguntei então se não seria melhor tirar a outra e jogar sem lentes. Ele admitiu que estava a ver mal com uma, mas se tirasse a outra, então é que nem seria capaz de ver a bola. Foi quando decidimos pela sua substituição por Alan Rough que realizaria, afinal, uma grande exibição. A cena terminou com Jock lançando-me um olhar de reprevação: “Vais ter muito que me explicar no final do jogo”.

JOCK STEIN4Quando subimos o túnel para o segundo tempo tinha então duas preocupações em mente. Olhar pela saúde de Stein e, depois, descobrir como convencelo que nunca soubera das lentes de Lleighton. Com o decorrer do jogo, cada vez fiqiei mais preocupado com o semblante pálido de Stein. Ele era, no entanto, um homem de aço. Quando pouco depois do golo do empate ouviu o apito do árbitro e, pensando ter sido o final do jogo, teve o impulso de se virar para o banco galês e confrontar o técnico England que dias antes tivera algumas palavras depreciativas sobre a selecção escocesa. Faltavam, no entanto, dois minutos para o seu termo. Nessa altura, Fergusson já chamara o médico para perto de Stein a fim de vigiar todos os seus movimentos. Ainda a bola estava em jogo, quando caiu fulminado vitima de ataque cardíaco. No relvado os jogadores ficaram confusos. Sob os gritos de Fergusson continuaram a lutar, segurando o resultado até final. Nas cabinas, Stein lutava pela vida. Conta Fergusson que quando desceu ao balneário e foi á sala onde os médicos tentavam reanimar Stein encontrou, já á porta, a chorar convulsivamente, Greame Souness, que findo o jogo voara para saber o que se passava com o seu mestre escocês: “Penso que o perdemos, Alex!”, dizia o duro capitão escocês.

Em desespero, Stein ainda foi transportado de urgência ao hospital, mas já chegou sem vida. A Escócia perdia o pai do seu futebol e Fegusson nunca voltaria a ter a portunidade de lhe explicar que nunca soubera que Lleighton usava lentes e contacto. Para a eternidade ficava o espirito do Big Man. Deu a vida pelo futebol do seu país e no seu epitáfio deveria estar escrito “Jock Stein- o homem que sabia tudo sobre o futebol escocês”. 15 anos depois, ele continua órfão de um homem com o seu saber e carisma. O seu espirito permanece nos corredores do Parkhead, inspirando as novas gerações que vão chegando ao Celtic, mas nunca mais ninguém conseguiu ocupar o seu lugar.