Guarda-redes, defesas, médios, avançados: Onde inicia o jogo?

25 de Outubro de 2016

De um lado Ter Stegen, do outro Claudio Bravo. Os efeitos do laboratório ideológico de Guardiola provocam tantas alucinações que, num jogo em que existem Messi e Neymar (a fintar, passar e marcar) o debate fique essencialmente nos guarda-redes e sua novas revolucionárias missões.

Se de um lado estava a obra (a ideia-macro de jogo que Guardiola deixou em Barcelona) do outro estava o seu criador (o Guardiola FC nesta fase ainda um embrião em forma de onze no Manchester City).

O próximo passo, no relvado, é colocar nomes próprios em cada um dos lados e nessa altura vê-se que, mesmo nessa fase embrionária, Guardiola dá ideologicamente mais importância ao que pode fazer o guarda-redes com os pés no inicio de construção do que o que pode fazer o ponta-de-lança no momento do remate da finalização. Desta forma, Aguero não jogou, De Bruyne foi “falso 9” e tentou encher o relvado de médios, com Gundogan adiantado para condicionar a saída de bola do Barça. Atrás, o lateral Zabeleta por dentro no espaço do pivot quando quer sair a jogar e Bravo sempre exposto na debatida obrigação de “jogar com os pés” para fazer circular a bola.

Pelo meio desta ideia, furaram os nomes próprios do Barça. Não, não falo como principais assinaturas dos três golos de Messi ou das brincadeiras de Neymar (com um golo “zigzag” e um penalty falhado). Falo exatamente dos locais onde Guardiola quis colocar o jogo, o seu “desafio ao impossível”: meio-campo e balizas.

A meio-campo está a “sala de máquinas” que, apesar da magia “MSN” Messi-Suarez-Neymar, é o que verdadeiramente faz o jogo catalão manter-se sempre taticamente em ebulição na recuperação e construção apoiada (e com poder de ruptura rápida de passe). É o “trio táctico” antes do “trio mágico”. É “BIR”, Busquets-Iniesta-Rakitic a meterem o jogo nas suas botas durante todo o tempo na operacionalização duma ideia de jogo solidificada.

bravo-stegen 

O escorregão de Fernandinho, um passe atrasado errado de Gundogan, a expulsão de Bravo e a intenção de pressão do City desconectou-se cedo demais face à “máquina...não mecanizada” de Luiz Henrique. Neste cenário, Messi não precisa de jogar. Limita-se a passear pela imensidão do relvado e esperar o momento de aparecer com a bola. E fazer a diferença no resultado (porque a no jogo jogado já estava feita ante da forma que referi)

Bravo está longe de ser um especialista a jogar com os pés (entenda-se capacidade de controlo e passe). Guardiola coloca as suas equipas, nesse sentido, a jogar intencionalmente na berma do precipício. Um erro logo no inicio de construção, uma falha na saída curta de transição e a sua baliza fica exposta. Intrigante ver como nessa intenção de pressão no meio-campo adversário, os alvos eram todos os jogadores do Barça (onde Umtiti cresce como central de minuto para minuto e não só de jogo para jogo) menos o... guarda-redes Ter Stegen. Sem sombra de nervos (como qualquer alemão puro) coloca a bola de flanco para flanco ou toca-a burocraticamente sem incómodo.

Admito que os guarda-redes merecem, neste “admirável mundo novo de futebol”, um papel mais importante do que a história do futebol tradicional lhes reservara quase como elementos à margem do jogo das equipas. Eram eremitas entre os postes que nem apareciam no sistema (diz-se 4x3x3, devia dizer-se sempre 1x4x3x3). Já me parece ideologicamente um excesso quase falar deles como se estivessem a caminho de vestir a camisola nº10 (entretanto classicamente desaparecida) das equipas. O mundo, e o futebol, mudam mas não ao ponto de inverter completamente a lógica do funcionamento das coisas.

Guardiola tirou, com a sua ideologia, as equipas do seu secular contexto tradicional, mas para um onze poder progredir em campo através do passe tem de se criar antes condições para isso. Com a ousadia com que quis jogar, este City está mesmo ainda a quatro golos (4-0) de diferença do Barcelona.

cityyou