KARL RAPPAN (1906-1996)

09 de Maio de 2001

É o fundador das tácticas defensivas, ante-câmara do "catenaccio". Futebolitícamente maquiavélico, explicou, pela primeira vez ao mundo do futebol, no inicio dos anos 30, quando todos gloroificavam sistemas com cinco avançados, como uma defesa cerrada pode ser o principio para ganhar um jogo...

Numa das raras incursões da literatura intelectual pelo mundo do futebol, Camilo José Cela escreveu em Once Cuentos de Fútbol uma história que embora profundamente disparatada, parece uma metáfora sobre a história das tácticas defensivas na evolução da abordagem teórica do jogo. É um conto sobre uma personagem inverosímel chamado Gainsborough XXI, veloz corredor de fundo, famoso por se ter sagrado campeão da europa mas, logo de imediato desclasificado ao descobrir-se que, afinal, ele era um cavalo. Pois bem, entristecido com este desfecho, Gainsborough XX decidiria, então, tornar-se treinador de futebol e começou a orientar o recondito Waldetrudis Pucará FC. A sua equipa levava até ao limite as tácticas defensivas e jogava com dois guarda redes: Teógenes, guarda redes direito e Teogonio, guarda redes esquerdo. Era necesário ocorrer algum milagre para sofrerem um golo que fosse. É, estarão a pensar, uma história completamente absurda, mas o mundo está cheio delas, e, ao contrário do conto de Don Camilo José Cela, bem reais.

KARL RAPPAN 1906 1996Recuemos até Berlim em 1936, na alvorada dos anos da guerra. Quando, no Parque dos Príncipes, antes do inicio do jogo com a Suíça, as equipas se perfilam, um imenso calafrio percorre o corpo de todos os presentes, no momento em que, depois de ordenarem que para além dos hinos helvético e alemão, fosse também tocado o Horst Wesselied nazi, o onze teutónico ensaia a saudação nazi, integrando cinco jogadores da lendária selecção austríaca. Do outro lado estava, no entanto, uma mórbida selecção helvética que iria fazer história, no plano táctico, orientada por um astuto treinador austríaco, mas que ao contrário dos seus compatriotas não seguia a escola de artes de Viena. Sagaz, ele seria o fundador das tácticas defensivas: Karl Rappan, o inventor do ferrolho e grande inspirador, no futuro, do Cattenacio. Longe de ter sido um grande craque, Rappan fora durante vários anos um eficaz defesa de clubes como Austria Vienna, Wacker e Rapid Viena. Num dos últimos jogos da sua carreira disputou um particular contra o Grashopers, na Suíça, no decorrer do qual ficou admirado pelos helvéticos jogarem apenas com um defesa livre, destacando um médio para fazer a marcação ao avançado centro. Pouco tempos depois, em 1931, perto do final da carreira, Rappan, então com 27 anos, é contratado para jogador-treinador do Servete, onde encontrou um futebol claramente inferior ao austríaco. Sagaz, Rappan integra-se bem neste novo cenário. Em 1936, torna-se técnico do Grasshopers, o maior clube suíço, e, passados alguns anos, graças á popularidade e aos bons resultados atingidos, é convidado para selecionador nacional da Suíça com o objectivo de preparar o Mundial-38.

KARL RAPPAN 1906 19961Vendo que, apesar de tecnicamente limitados, os jogadores suíços eram fortes e duros, pensa então em congeminar um sistema táctico mordaz que, antes de qualquer outra coisa, impedisse o adversário, teoricamente superior, de jogar. Era o nascer dos grandes sistemas defensivos. Assim idealizou um rígido sistema de marcações individuais, a cargo dos três defesas fixos, Loertcher, Lehman e Springer, os quais tinham nas suas costas um outro elemento, para jogar nas dobras, quando a bola furasse a linha de três stoppers e entrasse na área. Uma espécie de swepper, o chamado defesa-vassoura, religiosamente interpretado por Minelli. Á frente da linha defensiva, na entrada da área, dois médios recuados, apenas com tarefas defensivas, os trincos dos nossos dias, Vernatti e Walacek, apoiados por Abegglen, médio ala esquerdo, de alcunha Trello. Era um jogador dotado, dos melhores que a história do futebol helvético produziu. Muitas vezes sentia a tentação de soltar-se e tentar chegar perto dos três homens mais avançados, Amadò, Bickel e Aebi, que mesmo assim tinham a obrigação de marcar os jogadores mais recuados da equipa adversária e, na maioria das vezes, só recebiam a bola em esporádicos contra-ataques ou nos passes em profundidade do eficaz Vernatti. Era o nascer do ferrolho, o célebre Verrou, em francês, o sistema dos dois trincos, esquematizado em 1-3-2-1-3, tendo como principio a marcação individual aos extremos contrários, entalar o avançado centro entre dois defesas centrais e inserir mais dois médios no sector defensivo.

KARL RAPPAN 1906 19962Uma autêntica ratoeira, que rodeava e entrelaçava os adversários como uma teia de aranha, zurzidas, em surdina, ao seu redor, onde cairia a poderosa Alemanha que apesar da imagem demolidora que cultivava, não conseguiria no entanto, derrubar o muro suíço, terminando o jogo empatado 1-1, graças a um golo de Abegglen. Mandavam os regulamentos da época que fosse repetido cinco dias depois. Durante o tempo que mediou até lá, o terror do Reich caiu na tranquilidade de Aix-las-Chapelle, local de estágio da selecção germânica. Visitando o lugar, vários agentes recordava, em tom ameaçador, aos seus jogadores, que não eram só eles, mas antes sessenta milhões de alemães que jogariam nesse dia em Paris. O futebol, no entanto, driblaria a intolerância racista, e, destemidos, onze suíços venceriam sessenta milhões de alemães, 4-2, com três golos obtidos em lances de contra ataque, na ultima meia hora, quando os teutónicos procuravam em desespero a vitória. Karl Rappan e o seu ferrolho tinham entrado para a história. Estava lançada a semente de todos os sistemas defensivos que o mundo do futebol iria conhecer no futuro, como o cattenacio italiano, embora fosse eliminada logo na ronda seguinte, pela forte Hungria de Puskas, por 2-0. No relvado, a Bota da Europa consagrou-se novamente campeã mundial, mas quando o capitão Giuseppe Meazza subiu à tribuna para receber a Taça fazendo a saudação nazi, um enorme calafrio percorreu o corpo do resto do mundo. Durante os seguintes doze anos não voltaria a disputar-se o Mundial de futebol, que tal como os Olímpicos de Copertin, viveram esmagados pelas bombas da guerra.

KARL RAPPAN 1906 19963Adaptado á vida na Suíça, Rappan prosseguiu a sua senda gloriosa nos Alpes. Entre os clubes que treinou, Servete, Grasshopers, Zurique e Losanne, conquistou 18 títulos de campeão nacional! O sucesso de 38, levá-lo-ia, no entanto a regressar ao cargo de seleccionador nacional, que exerceria entre 42 e 49, e, depois, no Mundial 54, onde chegaria aos quatro-de-final, terminando com um novo ciclo entre 60 e 63, orientando a equipa no Mundial-62 no Chile. Os seus ensinamentos estenderam-se no entanto a todo o futebol suíço pelo que aquela postura defensiva passou a ser como que a sua imagem de marca até o inicio dos anos 60. Foi assim que, em 1950, treinada por , surgiu para jogar o Mundial-50, onde empatou com o Brasil 2-2. Com o passar dos anos, Rappan sentiu vontade de regressar a casa. O prestígio que entretanto alcançara valeu-lhe, em 1969, o convite para treinar o Rapid de Vienna, seu antigo clube como jogador. Era, no entanto, outro futebol. Mais agressivo, o futebol austríaco mostrava-se pouco sensível aos esquemas tácticos defensivos de Rappan. O tempo passa e os resultados não aparecem. Resolve então voltar á Suíça onde lhe esperava um lugar como responsável por todo o sector técnico da Federação Helvética. Ali passaria o resto dos seus dias, até falecer a 2 de Janeiro de 1996. Tinha 90 anos e nessa altura já se sentia mais suíço que austríaco. Ficará para a eternidade como o pai do ferrolho.