Liga dos Campeões: As novas lições defensivas

07 de Abril de 2006

Liga dos Campeões As novas lições defensivas

Depois de um primeiro jogo, em Highbury Park, com uma frieza táctica invulgar, o Arsenal voltou a gelar Turim. Em Londres, Wenger surpreendeu pelo sentido posicional do seu meio campo a defender. Mantendo a defesa a «4» sempre completa, com Eboué a fechar na direita, e Flamini (médio adaptado a lateral após a lesão de Cole), à esquerda, alinhou, na saída de bola, numa espécie de 4x5x1, com Gilberto Silva pivot de recuperação e Cesc gerindo as transições. No eixo da defesa, sem grande velocidade nas dobras posicionais, os centrais Touré e Senderos encostaram sempre nos pontas de lança da Juventus (Trezeguet-Ibrahimovic).

A principal nuance de movimentação residiu, porém, na forma como os três médios de segunda linha, Pires-Reys, alas, Hleb, centro, recuavam no terreno para ter sempre superioridade numérica frente ao 4x4x2 italiano. Desta forma, ao mesmo tempo que também Henry recuava para se encostar ao flanco esquerdo quase na saída do meio campo, toda a força ofensiva do Arsenal se escondia dos defesas e médios de cobertura (Emerson-Vieira) da Juventus. Era então que, como saídos da trincheira do meio campo, irrompiam em velocidade nos últimos 25/30 metros, confundindo a defesa de Capello com rápidos desdobramentos a romper desde trás. Em Itália, com vantagem de dois golos, repetiu, com Ljungberg no centro e alargando Hleb à direita, ao mesma dinâmica de jogo. Desta forma a equipa ganhava força defensiva ainda longe da sua área, algo que no passado não sucedia. Nesta variante esconde-se, afinal, como a grande diferença entre o 4x3x3 e o 4x5x1 reside, essencialmente, na dinâmica posicional, com ou sem bola, que se imprime aos alas. Mais recuados, desenham um meio campo com cinco elementos. Se, pelo contrário, eles derem profundidade à faixa, abrem o ataque a toda largura do campo, com extremos típicos. Na capacidade do Arsenal jogar dentro da primeira dinâmica, ensinando o seu meio campo a defender, esteve a base da proeza táctica de Wenger.

Liga dos Campeões As novas lições defensivasFoi uma das melhores exibições realizadas por uma equipa nas competições europeus dos últimos tempos. O autor da obra foi o Villarreal, pequena cidadezinha espanhola, que despertou para o grande futebol internacional há apenas dois anos. Habitando a Terra Mítica, perto de Valência, o submarino amarelo, nome porque é conhecido o Villarreal por jogar de amarelo, transformou o seu pequeno estádio do Madrigal num verdadeiro inferno que, esta semana, engoliu o Inter de Mancini, uma equipa, em termos de carácter e atitude, exactamente no pólo oposto, arrastando uma imagem quase fantasmagórica. Mas que Villarreal é este que causa sensação entre os gigantes do futebol europeu?
Como definição base, pode dizer-se que é um autêntico cocktail sul-americano, composto por brasileiros, argentinos, uruguaios e um boliviano, treinados, no banco, por um calmo treinador chileno chamado Manuel Pellegrini. Ver jogar o actual Villarreal de Pellegrini é entrar num mundo onde a cultura táctica europeia se cruza com o perfume técnico sul-americano.

É um futebol «açucarado», esquematizado em 4x3x1x2, com laterais (Javi Venta-Arruabarrena) perfeitos a gerir posicionalmente as compensações defesa-ataque, centrais fortes, o argentino Gonzalo Rodriguez e o boliviano Peña, e um triangulo de médios refinado gerido pela batuta de Marcos Senna, muitas vezes apoiado na cobertura defensiva por Tacchinardi, enquanto Sorin se soltava na esquerda. Um trio ideal para liberta o maestro Riquelme. Mais do que jogar, parece que flutua em campo. Autoridade, visão de jogo, controle dos diferentes ritmos de jogo e remate, deambulando na segunda linha do meio campo, nas costas de Forlan e José Mari, dois avançados sempre em movimento, que nunca dão referências fixas de marcação aos adversários. É uma equipa para ver e admirar. Ao lado do Nou Camp, S.Siro ou Highbury Park, agora também temos de colocar o velho Madrigal no mapa dos grande estádios das noites europeias…

A queda do Lyon e o fantasmagórico Inter

Liga dos Campeões As novas lições defensivasPela terceira época consecutiva, o belo projecto exibicional do Lyon voltou a cair nos quartos-final. Mais uma vez, volta a cair agarrado ás suas sedutoras convicções tácticas, antes de Le Guen, hoje de Houlier. Em Milão, com vantagem até dois minutos do final, nunca especulou com o jogo e procurou sempre manter a sua postura táctica inicial. Em relação aos jogos anteriores, Houlier tentou, no entanto, uma nuance estratégica. No papel parecia um 4x3x3 clássico, mas na prática, em vez do solitário pivot, jogou com dois médios centro (Dirra-Juninho) à frente da defesa, em torno dos quais moviam-se, nas faixas, Govou, à direita, e Malouda, à esquerda, surgindo depois Wiltord sobre o corredor central, nas costas ou junto de Fred, ponta de lança. Inteligente, Wiltord tinha a tarefa de ser o primeiro homem a defende, encostando-se a Pirlo quando o pivot do Milan queria sair a jogar, e, recuperada a bola, subia para se tornar num segundo avançado, desenhando-se então quase um 4x2x4. O modelo só se alterou a quinze minutos do fim, quando Ancelotti, vendo as falta de asas do seu 4x3x1x2, adiantou Serginho de lateral para extremo-esquerdo. Houlier respondeu com a saída do seu extremo (Govou) e inseriu mais um lateral (Reveillere), para fazer a primeira cobertura à frente de Clerc, o lateral de raiz. Uma variante defensiva adequada que seria traída, perto do fim, pelo instinto goleador na pequena área de Inzaghi. O cinismo italiano voltava a vencer a estética do bom futebol, um conceito para o qual o Inter de Mancini continua insensível. Incapaz de fazer circular a bola e sempre com uma excessiva distância entre-linhas, passou como uma sombra errante por Villarreal.

É uma equipa sem referências de circulação, forte a ocupar os flancos, ora com Figo-Stankovic como alas-extremos, ora através das subidas do lateral direito Zanetti, mas sem corredor central. Nesse sentido, com Cambiasso trinco, a responsabilidade de transição pertence a Verón, mas a brujita argentina parece, quase sempre, disputar um jogo à margem do resto do onze. Quer no ritmo, como nos movimentos de triangulação. Sem mecanização, o onze não tem rotinas de contra-ataque e fica dependente, na finalização, do talento individual de Adriano ou Recoba.