LIVERPOOL: O fantasma de Paisley

07 de Maio de 2005

Entre 1977 e 1985, em nove épocas, por oito vezes, uma equipa inglesa chegou á final da Taça dos Campeões. Ganhou 7. Liverpool, Notthingham Forest e Aston Villa. Ao longo dos tempos, a fama do futebol inglês teve uma essência. A fórmula que mais excita os adeptos imparciais: mínimo de ordem, máxima liberdade, num vertiginoso 4x4x2 de ataque, que ria-se do pragmatismo continental. Desses velhos tempos, ficou na memória, em 78/79, uma fratricida primeira eliminatória entre o então campeão europeu Liverpool de Paisley e Dalglish, contra o novo campeão inglês, o Forest de Clough e Francis, que, ganhando esse choque de titãs inglês, arrancou para duas inolvidáveis vitórias na Taça dos Campeões. Mais de duas décadas depois, duas equipas inglesas voltaram a encontrar-se na Europa: Liverpool e Chelsea. Entre os dois tempos, há, porém, um abismo de conceitos futebolísticos a separá-los.

No lugar de Paisley e Clough, ao mesmo tempo filhos e pais daquele futebol que nos fazia levantar excitados das cadeiras vendo imagens a preto e branco, estão dois pragmáticos técnicos, Benitez e Mourinho, vindos do futebol continental que Shankly tanto desprezava ao ponto de dizer que se um dia acordasse e visse uma equipa italiana a jogar no seu jardim, de imediato corria as persianas. Pois bem, esse estilo italianizado mora agora na Velha Albion e, pior, mesmo á frente da sua estátua, na relva de Anfield. Em Turim, segurou o 0-0 sem fazer um remate á baliza durante 90 minutos. Em casa, contra o Chelsea, fez meio remate e ganhou 1-0. Neste contexto, o arrepiante hino You never walk alone, cantado pelos adeptos como um culto religioso, quase provoca uma fria brisa fantasmagórica. Embora seja exagero referenciar este Chelsea como uma equipa estrangeira, a verdade é que as linhas caracterizantes que moldam o seu estilo de jogo (algo diferente das meras opções tácticas) expressam, até ao tutano, como no onze de Benitez, a frieza resultadista das equipas continentais. Ambos baseiam o sucesso no combate á histórica lacuna do futebol inglês, razão dos sucessivos insucessos europeus do Manchester de Ferguson e do Arsenal de Wenger: a falta de qualidade defensiva. São, tão só, os perturbantes sinais dos tempos.

Drake, Mourinho, Busby, Paisley, Benitez...

LIVERPOOL O fantasma de PaisleyNum tempo em que o único argumento válido são as vitórias, este frio sucesso táctico-modernista de Chelsea e Liverpool, coloca, indiscutivelmente, em causa o futuro do histórico estilo do futebol inglês, excitante e empolgante. Quando, há 50 anos, o Chelsea conquistou a primeira Liga Inglesa (e, até ao passado sábado, única) Matt Busby, treinador do Manchester United, no jogo seguinte, em Old Trafford, recebeu os blues campeões, estendendo-lhes, literalmente, uma carpete vermelha á sua entrada em campo, com toda a equipa fazendo guarda de honra e batendo palmas aos heróis de Stanford Bridge, então liderados pelo lendário goleador Roy Bentley e orientados, no banco, por Ted Drake, um velho amigo de Busby. Meio século depois, em 2005, não é crível que Ferguson repita o mesmo gesto quando o arrogante onze de Mourinho visitar Manchester.

Revistando a história, porém, pode-se ver que o segredo do sucesso europeu de Paisley – o único treinador a ganhar três competições europeias seguidas- teve também como base uma concepção mais evoluída dos conceitos defensivos, pois, em contraste com o kick and rush, chuta e corre, do puritano Bill Shankly, o quarteto defensivo, Thompson-Hughes, estes dois ainda feitos por Shankly, e Hansen-Hughes, passaram a cultivar um estilo com maior classe. Também eram fortes no tackle e no jogo aéreo, mas, recuperada a bola, não se limitavam a fazer passes em profundidade. Também sabiam sair a jogar com a bola rente á relva e servir os médios com passes curtos. Um estilo que é possível rever hoje no melhor defesa central de marcação do actual futebol inglês: Jamie Carragher, chefe do muro defensivo dos diabos vermelhos. Tanto Mourinho como Benitez, podem, como ladrões de sonhos, ganhar grandes títulos. Nenhum deles, porém, ganhará, para os reais amantes do futebol inglês dos bons velhos tempos, a dimensão mítica de Paisley ou Clough. Sem eles, o futebol inglês nunca teria sido nada e, por muito que Mourinho e Benitez ganhem, a história nunca recebe lições de ninguém.