Magia! “Dançando futebol”

25 de Junho de 2009

Magia! “Dançando futebol”

Gillian Lynne seria um nome improvável para começar um artigo sobre futebol. Poucos do que lêem este texto terão ouvido falar dela. É conhecida sobretudo por ser a fantástica coreógrafa de Cats ou do Fantasma da Ópera. Não foi fácil, porém, atingir este nível.

Quando era miúda, 8 anos, tinha mesmo muitos problemas na escola. Não se concentrava nas aulas, estava sempre com a cabeça noutro lado. Ou ficava estática, ou nunca parava quieta e tinha muitas dificuldades em aprender.

Talvez hoje pensassem que era hiperactiva ou qualquer coisa parecida, mas nos anos 30, quando esta história aconteceu, essa doença ainda não “existia”.
A situação foi piorando até que a sua mãe foi à Escola falar com um especialista da escola em distúrbios comportamentais. Sentada, imóvel, Gillian ouviu-os falar. Mas, a certo ponto, esse especialista decidiu sugerir à mãe saírem da sala para falar mais à vontade e ficaram apenas a observá-la pela janela. Mal saíram, Gilian levantou-se e começou a mexer-se, ligou o rádio e não parou de dançar. Foi então que ele disse:
-“Minha senhora, a sua filha não tem nenhum problema. Ela é apenas uma… bailarina! Inscreva-a numa escola de dança.” Assim foi.

Esta história, contada por Ken Paterson, professor universitário, numa fantástica conferência sobre criatividade, nascera de uma conversa sua com Gillian sobre como ela tinha descoberto o seu talento. Percebeu quando entrou na escola e viu gente como ela. “Gente que tinha de se mexer para pensar!”. A sua vida abria-se. Começou a dançar, tornou-se bailaria do Royal Ballet de Londres, directora de teatro, actriz, coreógrafa, foi admirada, elogiada, viveu realizada e ficou…milionária. A outra opção teria sido ver em tudo aquilo um problema e dar-lhe algum sedativo para a manter mais calma na sala.

Onde entra o futebol nisto? O primeiro contacto nasce da essência do jogo: criatividade. O segundo, de como esse talento é tão difícil de, na origem, ser detectado, e, durante a vida, ser entendido.
Todos aqueles que fogem à ordem estabelecida, na sala ou no relvado, são vistos como um “problema”. Poucos professores têm sensibilidade para perceber que não é bem assim. Poucos treinadores têm capacidade para entender o valor dessa diferença. Um dom precioso: criatividade.

finta

No futebol, como na vida, ela é a forma mais sublime de resolver os maiores bloqueios e abrir novos horizontes. Levar a realidade para um nível superior. Tirar o futebol das suas “jaulas tácticas”, onde os jogadores são treinados para pensar o…menos possível. Apenas devem cumprir um plano de jogo.
Nesse cenário, a criatividade do jogador que “nunca para quieto” é uma ameaça à ordem da equipa em campo. O jogador ou é um génio ou é um operário. Não existe outro local existir. Não faz sentido.

Quando hoje vemos os lances encantados de Ronaldo ou Messi, conseguimos imagina-los a fazer o mesmo como miúdos. Na rua ou na escola. As leis do futebol, e da vida, tácticas e normas sociais, não são, porém, um habitat acolhedor. E nem todos são génios. O olhar desconfiado que a criatividade suscita nasce da formação até à idade adulta, mas o diagnóstico só muda a vida (a carreira do jogador) se feito na origem.

O jogador mais inteligente e o jogador mais criativo são conceitos que se cruzam. Pela diversidade de soluções que dá ao jogo, pela dinâmica que lhe imprime, pela diferença que faz nele. É nesse triângulo (diversidade-dinâmica-diferença) que Paterson define inteligência. Como do grande jogador de futebol. Mas hoje, os jogadores estão a ficar todos demasiado iguais. Por isso, a razão das equipas, em campo, tantas vezes não descobrirem soluções para o jogo.

No futebol de rua, todos nos imaginámos criativos com a bola. Em miúdo, ninguém pensa como um trinco. São as raízes do talento. Como a história de Gillian Lynne.
Da dança ao futebol, o “problema” esconde a criatividade. Era por isso que Romário dizia que “o melhor treinador é aquele que não atrapalha!”.