Manual para descobrir reforços

30 de Dezembro de 2006

Durante o último defeso, vários treinadores perguntaram-me a opinião relativamente a um jogador zambiano chamado Collins Mbesuma. Confesso que o conhecia mal. Vira um par de jogos dele ainda na África do Sul, mas não me convencera definitivamente e do pouco que jogou em Inglaterra, no Portsmouth, ficara-me a ideia de um nº9 robusto, de choque, mas tecnicamente pouco imaginativo. A razão que me levara a procurar por um jogo dele na África do Sul era, no entanto, demolidora. Prometera, ao chegar, marcar 40 golos na época e, no final, marcara…38. Seja onde for, ninguém marca tantos golos por acaso.

Aposta consciente ou de risco, o jogador acabou por ingressar no Marítimo (que, diga-se, não me perguntou nada) e neste momento, já não duvido, não é um fenómeno, mas é um ponta-de-lança como o golo no sangue. O caso de Mbesuma não foi, porém, único. As perguntas múltiplas sucederam com outros jogadores estrangeiros vindos de paragens mais longínquas. No final, quase todos, trazidos pela astúcia negocial dos empresários, encontraram um clube. Muitos, pouco ou nada jogam, mas não é isso que os impede de estar agora já a fazer as malas para outro clube. Não consigo entender porque os clubes não têm um gabinete de prospecção estruturado como uma prioridade da sua organização. Tanto para um reforço normal como para uma grande estrela, o reconhecimento e contratação de um talento implica um trabalho estruturado no tempo.

Manual para descobrir reforçosPor cada posição, deve-se ter pelo menos cinco jogadores referenciados (divididos em idades, características, custo, etc). Não acho possível avaliar um jogador em treinos ou por mirabolantes montagens em DVD. Já vi alguns em que o nº9 mais torpe parece uma máquina goleadora. Um jogador pode ser, primeiro, referenciado em vídeo, mas, depois é obrigatório observá-lo ao vivo. Pelo menos, três jogos em casa e três fora, com condições, adversários e graus de dificuldade diferentes. Desta forma, traça-se o perfil, táctico e técnico do jogador, respeitando uma trilogia base: valor potencial (o que efectivamente demonstrou) rendimento (o que, integrado noutro clube, ambiente, táctica, aspecto humano, etc, poderá render) e especialização (posição de origem). Depois, quando chegada a época de transferências (inicio de época e mercado de Janeiro) iria recorrer-se a essa relação de jogadores e avançar, assim, para uma contratação devidamente pensada e suportada em observações sérias. Ou seja, a contratação feita em Janeiro de 2007, deve ter sido começada a pensar em Janeiro de 2006 e assim sucessivamente, mas a verdade é que a maioria dos clubes chegam a estar altura sem ter qualquer jogador referenciado.

Então, em vez de serem os clubes a ir ter com os jogadores e, indirectamente, seus empresários, acontece o contrário: são os empresários a ir ter directamente com os clubes com os seus portfolios de craques para todos os gostos, posições e bolsas. São recebidos de braços abertos em opíparos almoços e jantares. No futebol, no relvado ou nos gabinetes, só se vence partindo da organização e da identidade. Os dirigentes cada vez querem mais coisas, cada vez querem coisas mais depressa, e cada vez sabem menos aquilo que querem.