METEOROS, MIRAGENS E DIAMANTES PERDIDOS

14 de Novembro de 2006

Em Janeiro de 1990, o experiente técnico holandês Aad de Mos, cuja maior glória fora, em 1988, a conquista da Taça das Taças com uma memorável equipa belga do KV Machelen da Bélgica, era um homem deslumbrado. Nesse tempo, depois de, na primeira metade dos anos 80, ter começado a carreira de treinador no Ajax (primeiro, como adjunto, e a seguir como técnico principal), estava no comando do Anderlecht, grande símbolo do futebol belga. A razão do assombro era o simples mencionar das jogadas e do toque de bola de um jovem prodígio então ainda a poucos dias de fazer 16 anos: “É incontestavelmente, o melhor jogador que já encontrei e treinei em toda a minha carreira. E olhem que isto não são palavras para serem levadas pelo vento...”, dizia rendido á magia do novo talento. Apesar de ter sido ele que lançara, por exemplo, Van Basten e Rijkaard, entre outros, no inicio da carreira no Ajax, Ad de Mos não se referia a nenhum deles.

O fenómeno era, antes, um miúdo africano vindo do Ghana, após ser descoberto pelos astuto olheiros do Anderlecht, Jean Dockx e o libero nigeriano Stephan Keshi, durante o Mundial Sub-17. Mal terminado o evento, ganho pelo Ghana, num onze onde também estavam Kuffor, Addo e Ahinful, entre outros, logo o convenceram a rumar a Bruxelas, venceram a oposição do Aston Vila, Hearts e de outros clubes que o assediaram, entre eles, dizia-se, a Juventus e o Marselha, negociaram com o seu modesto clube ganês, o Kumasi Cornes, e, poucos dias depois, o fenómeno do Ghana, em cujo estilo, aos 16 anos, o próprio Pelé disse ter-se revisto, ao ponto de dizer ele seria um seu sucessor, estava a treinar no Anderlecht. O nome do mago ganês: Nii Odartey Lamptey.

Catorze anos depois, o simples pronunciar deste nome, suscita intriga na mente dos caçadores de talentos e adeptos do belo futebol. Apesar da sua intimidade com a bola, Lamptey tornou-se, logo após quatro épocas iniciais de altos e baixos no Anderlecht, num verdadeiro trota-mundos do futebol, nunca confirmando, por razões indecifráveis, o que prometera na hora da sua explosão como tean-ager, ao ponto de ter motivado o Anderlecht a pedir, pela primeira vez na história (nem Scifo despertara esse interesse) uma especial autorização á Federação belga para que ele pudesse integrar a sua equipa principal, mesmo ainda antes de fazer 16 anos, idade exigida pelos regulamentos para o efeito. Lamptey não obteve, então, essa autorização, teve de esperar mais uns tempos, para, em 90/91, iniciar o que se pensava ir ser uma carreira de outro mundo, á altura de Pelé. Pura ilusão.

Lamptey: «vagabundo» do futebol mundial

METEOROS, MIRAGENS E DIAMANTES PERDIDOSDesde esse dia até hoje, em vez de grandes lances e golos fantásticos, Lamptey é, com 29 anos (faz 30 em Dezeembro), um símbolo de como uma jovem promessa se transforma depois numa sombra errante do futebol sénior. Após sair do Anderlecht, em 1993, passou por nove campeonatos diferentes em nove anos consecutivos, percorrendo vários continentes, mas sempre sem triunfar: PSV (Holanda, 93-94), Aston Villa (94-95), Coventry (Inglaterra, 95-96), Veneza (Itália, 96-97), Ankaragucu (Turquia, 97-98), Santa Fé (Argentina, 98), União de Leiria (Portugal 99), Greuther (Alemanha, II Divisão, 99-2001), Shandong (China, 2001-2002), Al-Nassr (EAU, 2004). Ciclicamente, também foi passando pela selecção do Ghana, mas nunca sem confirmar as divinas expectativas iniciais. Vê-se que ainda faz o que quer da bola, tem uma técnica de luxo, mas, em campo, parece entrar noutro universo que o impede de jogar como as primeiras impressões fizeram sonhar. Terá este enigma uma explicação futebolisticamente científica ou trata-se de algo que só os insondáveis desígnios do futebol, quase sobrenaturais, podem explicar? Dois treinadores que mais acreditaram no génio de Lamptey foram Ad de Mos e o inglês Ron Atkinson.

O primeiro, depois de o levar para o Anderlecht, nunca deixou de apostar nele e, quando saiu do clube belga para o PSV , logo o levou consigo, mesmo que nessa altura já muitos olhassem de lado para o tal fenómeno ganês. O inglês Atkinson, por sua vez, depois de não ter conseguido a sua contratação logo aos 15 anos, continuou a seguir a sua carreira e mal surgiu uma oportunidade, foi a correr buscá-lo. Com ele, jogou, em Inglaterra, no Aston Villa e no Coventry, entre 94 e 96, mas quase sempre sem sair do banco, pois apesar do que mostrava nos treinos, em campo, Lamptey parecia encurralado noutra galáxia. Com a demissão de Atkinson, também Lamptey seria forçado a sair. Nesta sua peregrinação futebolística, também passou, em 99, por Portugal, no União de Leiria, então sob orientação de Mário Reis. A pré-época despertou entusiasmo, mas, depois, durante a época, nunca seria titular, entrando apenas em sete jogos. No final, seria dispensado sem hesitações.

Mais do que um caso de análise isolado, a careira de Lamptey engloba-se num mistério futebolístico que também pode albergar, nesse debate, o caso daqueles jogadores, estilo o italiano Schilacci ou o russo Salenko, que, mesmo já com a carreira avançada, realizam, como que por magia, uma época deslumbrante, ao nível dos melhores do mundo, ganham grandes destaques e depois, como por artes mágicas inversas, desaparecem e regressam ao mais discreto anonimato. São outra vertente de meteoros futebolísticos.

SCHILLACI: o meteoro goleador, careca e de olhos grandes

METEOROS, MIRAGENS E DIAMANTES PERDIDOSOs seus olhos abertos, quase incrédulos, a careca brilhando sob a forte iluminação que tornava dia a noite de Roma, os braços abertos e o sorriso rasgado, correndo, enlouquecido, após marcar mais um golo pela selecção italiana, ainda emergem, para muitos, como a principal imagem do Mundial de 1990. A estrela que despertava estas emoções era um meteoro que surgira no grande Calcio na época anterior, a sua primeira na Juventus vindo do modesto Messina, onde passara, ente a II e III Divisão, as últimas sete temporadas: Salvatore Schillaci. O homem que lhe dera a oportunidade no grandes palcos fora o director geral da Juventus, Boniperti, e, no banco, o treinador Dino Zoff.

Corria a época de 89/90, Schillaci fez dupla no ataque de Turim com o elegante Casiraghi, apoiado, nas costas, por um pequeno português que parecia voar baixinho, Rui Barros. Vindo das profundezas da Serie B, Schilacci, perto de fazer 26 anos, aproveitou a oportunidade, jogou cada jogo como se fosse o ultimo da sua vida, e, numa fase em que o Calcio era dominado pelo Nápoles de Maradona, o Milan de Van Basten e o Inter de Matthaus, fez 15 golos em 30 jogos. A Juventus termina em 4º lugar, sem dramas, ganha a Copa Italia e Vicini, o seleccionador da época, decide convocar Toto Schilaci para o Mundial, onde seria suplente, na frente de ataque, dos titulares Viali e Serena e Carnevale. O primeiro jogo, frente á Áustria, iria, no entanto, logo mudar o rumo do planeado. Com o marcador em branco, SchilLaci entra já a meio do segundo tempo, para o lugar de Carnevale, e, sem pestanejar, numa das primeiras intervenções, recebe, da direita, um cruzamento de Viali, e de cabeça, á entrada da pequena área, faz o golo da vitória, 1-0. O feito desperta o entusiasmo dos tiffosi numa altura em que se criticava a equipa por não ter um verdadeiro homem-golo. Estava descoberto o salvador: Schillaci, Nos jogos seguintes, o instinto goleador permaneceu, e, como se tivesse um radar escondido nas botas, a bola vinha ter sempre com ele, remata de pronto e continua a fazer golos em todos os jogos: 6, sagrando-se melhor marcador do Mundial, no qual a Itália findou no terceiro posto.

A proeza tornou-o numa das principais estrelas do Calcio, mas os quatro campeonatos seguintes (dois na Juventus e dois no Inter) fariam-no voltar á realidade. Marcado por lesões, polémicas, crises de confiança, quebras de forma e criticas dos adeptos e da imprensa, Schillaci perde a vocação goleadora, a bola quase se torna um objecto misterioso para ele, progressivamente deixa de descobrir a baliza e os golos eclipsam-se. Após quatro anos de sofrimento, o último acto deste meteoro, então já extinto, surge no Inter, quando já com o campeonato, adiantado, o treinador Giampero Marini que o relegara, sem hesitações, para o banco de suplentes, decide, para o provocar, fazê-lo entrar a um minuto do fim de um jogo já resolvido no S.Siro. Ofendido mas mantendo a calma, Schillaci entende a provocação e recusa a humilhação dizendo-lhe “Mister, faça antes entrar um ragazzino, um miúdo!”. Marini não responde e faz o pedido. Schillaci, imperturbável, regressa ao balneário e, então já com 30 anos, entende que o seu ciclo no Calcio terminara, finito!

É assim que, na primavera de 1994, decide rumar ao futebol japonês, onde chega ainda com a aura do goleador do Mundial de 90. Joga no Sol Nascente, quatro tranquilos anos, num futebol ainda em embrião, sem grande qualidade, faz alguns golos, o público adora-o, grita Toto, Toto. O equilíbrio emocional regressa, longe dos grandes palcos, mas de acordo com a verdadeira essência do seu futebol. Acabaria por retornar a Itália, para a sua terra, Palermo, em 1998, abrindo uma escola de futebol. Ao mesmo tempo, investe em vários ramos de actividade, afasta-se do mundo do futebol profissional e desaparece dos grandes centros. Investe sempre bem, ganha dinheiro e torna-se um próspero empresário. No passado, fica a memória das belas noites de Roma onde, por um mês, penetrou entre os grandes do futebol mundial.

As ilusões do génio, os dribles da realidade

METEOROS, MIRAGENS E DIAMANTES PERDIDOSSalenko e Prosinecki, golos e dribles. Dois jogadores daqueles que, paradoxalmente, se pode dizer terem acabado as carreiras com um grande futuro perdido no passado. Meteoros que tiveram o mundo a seus pés, mas, sem consistência, falharam, depois, o encontro com o destino. Em certos momentos foram grandes, noutros, meras sombras errantes. Apareceram, deixaram os relvados de pernas para o ar, e desapareceram logo a seguir.

História semelhante á de Schillaci tem o russo Oleg Salenko que no Mundial-94 ficou célebre por ter marcado cinco golos num único jogo, record que se mantém em jogos da fase final do Mundial, numa goleada da Rússia ao Camarões por 6-1. Como já antes fizera outro golo, á Suécia, de penalty, soma 6 e torna-se, junto com o búlgaro Stoichkov, o melhor marcador do Mundial. Nessa época já jogava, porém, em Espanha, no Logroinês, onde também se sagrara, em 93/94, o melhor goleador da Liga Espanhola. O feito do Mundial leva-o a assinar, com o rótulo de grande estrela, pelo Valência, que seria treinado pelo treinador campeão mundial, o brasileiro Carlos Alberto Parreira. Salenko estava longe de ser um grande jogador do ponto de vista técnico. Jogava entre os centrais, tocava poucas vezes na bola, mas desmarcava-se muito bem e na hora do remate sabia colocar a bola o mais possível longe do guarda redes. Atributos suficientes que o tinham levado, anos atrás, a sair do Zenit St.Petersburg e a assinar pelo poderoso Dínamo Kiev de Lobanovski, na que fora, então, a primeira transferência da história de um jogador russo para um clube ucraniano.

No Valência, porém, com todos os olhos sobre ele, Salenko, então com 25 anos, deixa de fazer golos, as más exibições sucedem-se, parece sempre perdido em campo, não finta niguèm e a bola parece não querer nada com ele. O público começa a assobia-lo e Salenko entra em depressão, ao ponto de poucos meses depois, em Janeiro de 95, quando muitos diziam que aqueles cinco golos tinham sido fruto do acaso e só possíveis frente a um onze africano nesse dia completamente destroçado, decide sair ingressando no Glasgow Rangers, com o qual, no futebol escocês, onde há uma gigantesca diferença entre o valor das equipas, faz sete golos até ao fim do campeonato, Exigente, o público britânico não aprecia a sua falta de espirito lutador e o seu declino começa num ritmo vertiginoso. Passa pela Turquia, no modesto Instanbulspor, onde faz 11 onze golos em 95/96. mas não convence. Sempre fustigado por lesões, acaba por ser operado a um joelho em 1997. A recuperação é lenta e nenhum clube quer apostar nele.

Aos 28 anos, afirma estar a pensar abandonar os relvados. Em 99, quando tenta regressar, o melhor que consegue é ir treinar á experiência ao Neuchatel Xamax, clube suíço treinado por Gress, que então prepara um play-off para evitar a descida de divisão. Salenko faz um jogo treino com o Grasshopers, mas o teste não resulta. Para agravar o fracasso, nesse mesmo dia,, junto com ele trina á experiência outro jogador russo, desconhecido, chamado Maslov, que, para espanto, marcaria, perante o apático Salenko, o golo da vitória.. Findo o jogo, Salenko é dispensado e o melhor que consegue, já em 200/01, é um contrato com o anónimo Pogon Szczecin da Polónia, por ponde passa sem deixar rasto. Desaparece de circulação, regressa á Ucrania, tenta arranjar clube, mas todos lhe viram as costas, acabando por passar a jogar futebol de praia, onde, quando pisa a areia, os alto-falantes anunciam-no como o homem que fez cinco golos num jogo do Mundial. Uma proeza que, ao mesmo tempo, fez e devorou-lhe, para o bem e para o mal, toda a carreira....

Prosinecki: o anjo louro da Croácia

METEOROS, MIRAGENS E DIAMANTES PERDIDOSEm 1990, junto com os golos de Toto Schilaci, outros jogadores tinham, no entanto, despertado os olhares dos espectadores. Um dos casos mais deslumbrantes foi um de miúdo louro de origem croata então ainda a jogar pela unida selecção da Jugoslávia: Robert Prosinecki, jovem estrela da emergente equipa do Estrela Vermelha. Aos 21 anos, ele era uma das maiores esperanças do futebol europeu. Um jogador fabuloso: drible, visão de jogo, passe e remate. É com essas referências que assina pelo Real Madrid em 91/92. Em Espanha, porém, sente o choque da transição. A nível físico, sofre com o aumento da dureza dos treinos e acumula lesões musculares. Sem o mesmo tempo para pensar em campo, não consegue brilhar da mesma forma. Na bancada, os adeptos exigem-lhe a lua, mas Prosinecki, psicologicamente frágil, alterna grandes jogadas com largos minutos em que parece ausente do jogo. Surgem os assobios e a desilusão cresce.

A sua vida fora dos relvados passa a ser comentada negativamente e o fim da velha Jugoslávia impede-o de surgir na cena internacional a nível de selecções. Em três épocas no Real, apenas faz 55 jogos, marcando 10 golos. É emprestado ao Oviedo, mas continua desmotivado. Em Barcelona, Cruyff, um grande admirador dos artistas, tenta o golpe de mestre, e leva-o para o seu dream team do Nou Camp, mas Prosinecki, mesmo nesse oásis, nunca atinge o nível sonhado, faz apenas 13 jogos em 96/97 e é emprestado ao Sevilha. Só a possibilidade de voltar a jogar num Mundial, então pela selecção da Croácia, faz-lhe renascer o entusiasmo e, em 98, já com 29 anos, surge bem integrado numa equipa orientada por um treinador que tivera no inicio da carreira, Blazevic, no Dínamo Zagreb, altura em que lhe dissera nunca ir ser na vida um grande jogador. Contente por Blazevic ter de reconhecer o erro, face ao facto de Prosinecki ter sido uma das principais figuras do onze croata terceiro classificado no Mundial 98, o mago louro parece nascer de novo. Em breve se verificaria que tudo não passara de um fugaz renascimento. Regressa á sua Croácia, joga, discretamente, a média de 15 jogos por anos, no Croatia Zagreb, durante três épocas, passa pelos incógnitos Hrvatski Dragovoljac, ainda na Croávia, pelo Standard Luik, na Bélgica, e assina, num último suspiro, em 2001, pelo Portsmouth da II Divisão inglesa.

Pensa-se num final de carreira empolgante no solto futebol inglês, mas tudo não passa de nova ilusão. Pouco tempo depois, com as lesões musculares sempre presentes, aparentando peso a mais, com uma barriguita já pomposa a surgir, acaba por abandonar o futebol. Na memória ficam a sua magia de 90. Foi dos tais jogadores que brilhou só na selecção e em grandes torneios. Fora deles, na dureza competitiva dos clubes, com jogos todas as semanas, treinos intensos e pressão constante, não aguentou as expectativas, escondeu-se e desapareceu dos grandes palcos. Retirou-se dos relvados e acaba por ser descoberto, no último Europeu-2004, em Portugal, como jornalista-comentador de uma televisão croata. Está mais gordo, naturalmente e quando se olha para ele é inevitável pensar como foi possível um talento daqueles não ter atingido o brilhantismo e a dimensão que o seu inicio de carreira tanto prometeu...

De Lorente a Goycoechea: O novo-Gento e os penaltys milagrosos

METEOROS, MIRAGENS E DIAMANTES PERDIDOSO Planeta do futebol está cheio, um pouco por toda a parte, de meteoros ou promessas adiadas semelhantes, com maior ou menor dimensão. Em meados dos anos 80, Madrid pensou estar perante o renascimento do que se dizia ser o novo Gento. A ilusão foi criada pela velocidade e pelo estilo semelhante de correr e segurar a bola de um seu sobrinho que então despontava com a camisola do rival At-Madrid. Seu nome: Paco Lorente. A simples hipótese desta hereditariedade do génio, levou o Real Madrid, o clube onde o verdadeiro Gento brilhou os anos 50/60, a contratar o novo extremo cuja velocidade levantava poeira á sua passagem. Os primeiros tempos ainda fizeram crescer a ilusão. Mesmo partindo muitas vezes do banco, Lorente quando entrava, revolucionava o jogo com a sua velocidade. Na memória um célebre jogo nas Antas, frente ao FC Porto campeão europeu, na segunda eliminatória da Taça dos Campeões 87/88, quando, a perder ao intervalo por 1-0, o técnico Benaker lançou o novo Gento no segundo tempo, e, sobre a faixa esquerda, driblando como uma serpente endiabrada, Lorente virou o jogo patas arriba como dizem os espanhóis, trocou os olhos a João Pinto, e guiou o onze merengue á reviravolta no marcador, 1-2! Apesar da velocidade revelada, Lorente não tinha, no entanto, nem por sombras, a mesma classe e inteligência de Gento. Foi-se mantendo mais uma épocas no plantel madrileno, mas, passando cada vez mais tempo sentando no banco, acabaria por

As fronteiras do génio

METEOROS, MIRAGENS E DIAMANTES PERDIDOSComo explicar as grandes promessas que nunca se confirmaram? Como entender aqueles jogadores que apareceram e desaparecem como meteoros? Duas questões, dois enigmas, onde se cruzam conceitos como talento, inteligência e personalidade. As chuteiras e o cérebro. Afinal, a ténue fronteira que separa um novo-Pelé de um novo-Lamptey. Quando o mundo fora das quatro linhas e tão importante como o vivido nos relvados.

Mas, onde procurar para tentar descobrir as razões para estas promessas não confirmadas, ou, noutro quadrante, para o aparecimento dos chamados meteoros futebolísticos, cuja velocidade com que surgem na elite dos grandes craques, já na fase adulta, só é comparável á rapidez com que, pouco depois, desaparecem. Há várias teses em torno do caso-Lamptey, mas, no último ano, o seu nome tem sido falado sobretudo porque, como que por magia, o Ghana, deu ao mundo outro grande talento também ainda na casa dos 15 anos, Freddy Adu, a quem também gostam de chamar, lunaticamente, o novo Pelé, e que, ironia das ironias, nascera na mesma cidade de Laptey, Tema, situada a poucos quilómetros da capital Acra. A viver nos EUA desde os 10 anos, onde chegou com os pais emigrantes, Adu, o jogador mais novo, 14 anos, a ser inscrito na MSL, a Liga profissional do futebol norte-americano, onde joga no Washington DC United, já possui nacionalidade americana, por cuja selecção pretende fazer carreira no futuro. Todos, desde simples adeptos até ao Rei Pelé, veneram o seu talento, mas, neste momento de deslumbramento, a dúvida que assalta Addu e os mais atentos estudiosos destes génios prematuros resume-se a uma simples questão: irá ele ser o novo-Pelé ou o novo Lamptey? Nem uma coisa nem outra, mas, no fundo, o que se questiona é saber se Adu não será mais um daqueles casos meteóricos que surgem na idade juvenil e depois como se eclipsam no mundo sénior. Mais um dos tais jogadores de quem mais tarde se diz, terem passado ao lado de uma grande carreira.

Na detecção de talentos para o seu idolatrado centro de formação, o Ajax, uma referência mundial na descoberta e formação de grandes jogadores, segue uma fórmula denominada por sistema TIPS, iniciais para quatro pontos considerados fundamentais na composição de um grande estrela de futuro: T: Talento. I: Inteligência (de jogo); P: Personalidade; S: Speed (isto é, em inglês, velocidade). Desta forma, pode-se, desde logo, concluir que é dado, ao mesmo tempo, igual importância ao aspecto desportivo como ao humano, analisando-o para além das quatro linhas, procurando, desde logo, avaliar a capacidade e personalidade do jogador para suportar, na sua evolução futebolística, a crescente pressão, e as exigências, que surgem em torno de um jogador á medida que avança na carreira. Terá sido nesse ponto que falhou o fenómeno Lamptey? Esse aspecto foi, sem dúvida, um factor decisivo, como confirmou, anos depois, o adiado prodígio ganês: “Quando Pelé disse que eu poderia vir a ser como ele, tal foi uma grande honra para mim, um orgulho enorme, mas também teve um terrível lado negativo. Em todo o lado que surgia para jogar, todos esperavam que eu fizesse coisas da mesma dimensão. A partir do momento em que não consegui estar á altura dessas expectativas, de ser um novo Pelé, passei a ser considerado um fracasso!”.

No fundo, faltou a Lampty personalidade suficiente para entender ser impossível reproduzir em campo a mesma qualidade fantástica de Pelé, pela simples razão de que ele foi o melhor jogador do mundo de todos os tempos e, nunca mais, existirá, alguém como ele. Lamptey era um excelente jogador, com grandes potencialidades, teria é de ter capacidade para descer á terra, jogar o seu futebol, e ser apenas Nii Lamptey, julgado e avaliado como tal, sem pensar nas lunáticos rótulos e gigantescas expectativas de inicio da carreira, quando ainda nem tinha completado 16 anos. Faltou, também, quem acompanhasse esse seu crescimento, futebolístico e humano, de forma a explorar, na forma e na medida correcta, as suas inegáveis qualidades. “É fácil ser uma estrela, difícil é manter esse estatuto de estrela.”, conclui hoje com o olhar entristecido Lamptey, numa fase em que, perto dos 30 anos, prossegue a sua carreira aos tombos por vários clubes, da Europa á Ásia, ao ritmo de um por ano, mas sempre sem confirmar as promessas e avaliação de Ad De Moss quando o levou para o Anderlecht com apenas 14 anos.

A primeira promessa do milénio: Addu, novo-Pelé ou novo-Lamptey?

METEOROS, MIRAGENS E DIAMANTES PERDIDOSÉ por tudo isto que Freddy Adu terá de ter sempre em conta o caso-Lamptey nesta fase de deslumbramento da sua carreira, e que já o que levou a estrear-se na Liga americana de soccer profissional com apenas 14 anos, depois de ter despertado as atenções desde os 10 anos, como recorda Dave Sarachan, o treinador que o viu pela primeira vez num treino: “Estavam cerca de 30 miúdos no relvado, quando de repente Freddy pegou na bola e começou a passar por eles como faca numa manteiga. Fê-lo durante meia-hora sem parar. Incrível!” Um sonho de futebol que também cativa o seleccionador principal americano Bruce Arena: “Poderá estar aqui a nossa primeira grande estrela mundial do futebol.!”, afirma rendido. Neste momento, porém, mais do que escutar as profecias de Arena ou as avaliações de Pelé que também o vê como um seu sucessor, Adu deverá sobretudo espelhar-se no sucedido com o seu compatriota Lamptey, curiosamente com as mesmas origens.

Ao contrário dele, Adu preferiu, para já, manter-se a jogar na América, vivendo com os pais e rodeado da família. Algo, aliás, que o Ajax tenta sempre fazer com as suas jovens descobertas, mesmo que estas sejam um miúdo africano, altura em que, ao mesmo tempo que ele vai para Amsterdão, também convidam toda a família para o acompanhar, dando-lhes condições para isso, casa, empregos e dinheiro. Se tal não for possível, arranjam-lhe uma chamada família de acolhimento. Adu deverá manter-se no seu habitat durante mais três ou quatro anos, e só depois ir jogar para a Europa. Uma opinião confirmada hoje por Lamptey, lamentando os passos demasiado largos, queimando etapas de crescimento, que deu no seu louco inicio de carreira.

A ciência dos meteoros

METEOROS, MIRAGENS E DIAMANTES PERDIDOSQuestão diferente é a dos chamados meteoros futebolísticos. Como é possível um jogador apenas mediano, poder, em determinado momento da carreira, atingir um rendimento ou uma dimensão de tal forma alto, ao nível dos melhores jogadores do mundo, e, depois, num ápice, regressar á mediania anterior? Não é fácil encontrar uma explicação cientifica para este fenómeno. Jorge Valdano dizia que o talento era imaginação defendendo-se e contornando um defeito. Neste sentido, digamos que, em certo ponto da carreira, numa fase de optimização da condição atlética, com os índices de motivação no máximo e os deuses da sorte do futebol sempre a seu lado, um jogador pode, com a tal inteligência astuta descrita por Valdano, subir, fugazmente, ao local onde as grandes estrelas moram. Schilacci, por exemplo, nunca fora o tipo de avançado de driblar ou decorar o seu futebol com grandes traços técnicos.

Durante a fase alta da sua carreira, que durou pouco mais de um ano e meio, nunca tentou essas proezas. Apenas fez o que sabia fazer, seguindo os conselhos de um dos treinadores que o acompanhou desde novo, nas divisões secundárias, o professor Scoglio, que sempre lhe disse para não pensar muito na hora de atacar a bola: “Dribbla, punta l`uomo, tira!”, isto é, em italiano, em tradução livre: “Recebe a bola, finta, fixa a baliza e chuta forte!”. Quando fez isso, no auge da condição física, com um secreto pacto com a sorte que parecia fazer a bola ir ter sempre com ele, como se existisse um íman nas suas botas, durante o Mundial 90, Schillaci foi imparável. Depois, os deuses abandonaram-no, a idade avançou (já tinha 26 anos quando jogou o Mundial 90, altura em que só fizera uma época apenas na I Divisão italiana) e, da mesma forma que surgiu, o seu faro goleador desapareceu e regressou á dimensão original, ao nível, no máximo, de um clube do meio da tabela ou que luta para não descer de divisão. Cabe aos analistas e aos treinadores mais inteligentes, ter a perspicácia necessárias para saber avaliar estas situações, mas o sonho de descobrir um diamante escondido, mesmo já de idade avançada, é sempre mais forte, e, no final, contribui decisivamente para o formar destas meteóricas ilusões futebolísticas.

METEOROS, MIRAGENS E DIAMANTES PERDIDOSMas os meteoros também podem cair perto das balizas. Foi o que aconteceu, em 1990, á frente das redes da Argentina, onde após o guarda-redes titular Pumpido fracturou a perna em pleno jogo frente á URSS e no seu ligar surgiu um enorme portero, aparentemente pouco ágil, que só tinha sido convocado por Islas ter recusado ser suplente. Era o nascer da história de um dos mais espectaculares guarda-redes a defender penaltys no mundo do futebol internacional: Sergio Goycoechea. Nessa altura, com 27 anos, jogava no Racing Avellaneda. Durante o Mundial 90, levou a Argentina, defendendo vários penaltys decisivos em dramáticos desempates nos quartos e meias finais, frente á Jugoslávia e Itália. No jogo decisivo, seria batido, da pena máxima, pelo alemão Brehme. Ainda se esticou todo, a bola roçou a luva, mas era impossível chegar àquela bola. Num ápice, Goycoechea passava para a ribalta do futebol mundial como um grande guarda redes. Falou-se em grandes contratações, mas, no final, rumaria, em 1991, para um modesta equipa francesa da segunda divisão, o Brest, que nesse ano vendera o então seu jovem promissor guarda redes, Lama, e vira no argentino a fórmula ideal para garantir a subida.

O clube agudizava, porém, numa grave crise financeira, que nem as milagrosas defesas de Goycoechea podia salvar. Sem descobrir soluções, o Brest acaba por abrir falência em Dezembro de 1991, e, com a sua dissolução, é despromovido administrativamente para as divisões regionais. Goycoechea regressa á sua Argentina sem glória. Ainda jogou mais alguns anos, mas nunca mais voltou ás defesas milagrosas, acabando por se retirar sem ninguém reparar. Hoje apresenta um programa desportivo de entrevistas na televisão argentina.